'Apoio a Putin diminuiu claramente na Rússia'

Para analista americana, eleitores russos 'correram às urnas' para mostrar sua insatisfação com o governista Rússia Unida

Entrevista com

BERNARD GWERTZMAN, COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS, WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2011 | 03h03

Diretora do centro de estudos da Rússia do instituto americano de Pesquisa Carnegie Endowment for International Peace, Maria Lipman concedeu entrevista sobre a derrota do partido do premiê Vladimir Putin, o Rússia Unida, ao editor do Council on Foreign Relations, Bernard Gwertzman. A seguir, trechos da conversa.

Com o partido governista russo, o Rússia Unida, assegurando só uma maioria simples no próximo Parlamento, estamos diante de uma eleição histórica?

Eu não a chamaria de histórica, mas foi uma eleição importante após uma série de votações durante os governos de Vladimir Putin - ex-presidente, atual premiê e autodesignado futuro presidente. Em pesquisas de opinião, as pessoas descreveram abertamente o regime como corrupto e as autoridades públicas como inclinadas à autopromoção. Queixaram-se do abuso de autoridade de funcionários públicos e da polícia. No passado, as pessoas ainda preferiam se acomodar a optar por mudanças. Desta vez, não estou certa de que isso mudará, mas o apoio ao governo claramente diminuiu. Especialmente durante os últimos dias da campanha, os eleitores urbanos mais avançados ficaram, de repente, muito mais engajados do que antes. Houve uma verdadeira corrida às urnas para expressar seu descontentamento e tentar minar o Partido Rússia Unida.

Quais são os resultados?

Os resultados não mudaram significativamente nas últimas horas, de modo que eles provavelmente permanecerão da maneira que foram reportados, que é pouco abaixo ou pouco acima de 50% (no final da apuração, o partido obteve 49% dos votos, mas ficou com 53% das cadeiras do Parlamento, pois o saldo das legendas que tiveram menos de 5% - e portanto não são eleitas - foram distribuídos). Isso ainda representa uma maioria para o Rússia Unida, mas uma queda significativa em relação à maioria constitucional que o partido desfruta na atual Duma (ele detém 70% das cadeiras) - com poder para mudar a Constituição, se eles precisarem. Essa maioria também dava a Putin um virtual monopólio sobre a tomada de decisões e a possibilidade de ignorar a oposição. A maioria de dois terços na Duma permitia que o Rússia Unida - que não é um verdadeiro partido, mas, basicamente, um braço do Kremlin - chancelasse qualquer decisão do governo. Assim, com uma maioria constitucional para esse partido na Duma, o Kremlin facilmente aprovava qualquer coisa que quisesse.

E agora ele não tem mais essa maioria constitucional?

Não. Isso indica que o sistema e a posição de Putin estão se enfraquecendo, mesmo que ele seja reeleito presidente - como se espera - daqui a três meses, para um mandato de seis anos.

Estive em Moscou em outubro e me encontrei com alguns editores de jornais. Fiquei surpreso com o quanto eles desconfiaram do anúncio do presidente Dmitri Medvedev de que se tornaria primeiro-ministro e permitiria que Putin concorresse novamente à presidência. Essa irritação transferiu-se para essa eleição?

Sim. O descontentamento já está no ar faz algum tempo. Se olhar as sondagens de um ou dois anos atrás, verá uma vasta maioria, mais de 60%, dizendo que os funcionários públicos na Rússia não vivem segundo a lei ou que os abusos policiais são rotineiros. Entretanto, parece que as pessoas estavam prontas para se ajustar a isso e deixar para lá. Até chegarmos a essa eleição, em que o descontentamento óbvio foi precipitado exatamente pelo fator que você mencionou, a volta de Putin como presidente após dois mandatos. Essa ideia de 'Oh, não, não por outros 12 anos' indicou a evidente fadiga acumulada. As pessoas talvez esperavam que ele se candidataria de novo, mas quando isso foi, enfim, anunciado, a reação foi de frustração. Além disso, o público foi insultado pela maneira como os dois líderes trocaram de lugares sem nem sequer fingir que houve alguma participação pública envolvida. Eles decidiram entre eles e só apresentaram a situação ao público como fato consumado. Putin e Medvedev agravaram o descontentamento e a frustração que já estavam presentes. Por fim, o que houve nessa eleição foi uma manipulação desavergonhada e uma fraude que ficaram evidentes durante a campanha; a perseguição de ativistas, sites importantes atingidos por ciberataques severos, e autoridades abusando descaradamente de sua autoridade para obter o resultado desejado da votação. Essas violações descaradas levaram muitos a um voto de desafio, em que fariam qualquer coisa para minar o Rússia Unida.

Que partidos se beneficiam dessa situação?

A Duma russa tem quatro partidos: Rússia Unida, Comunista, Liberal Democrático e Rússia Justa. Os três partidos de oposição foram beneficiados e os três cresceram significativamente. Os comunistas foram de 8% para cerca de 20%. O Rússia Justa, que teve 7% na eleição anterior, ficou agora com 13%, e o partido de Vladimir Jirinovski (Liberal Democrático) subiu para 11%.

Isso terá algum impacto nas relações dos EUA com a Rússia ou é uma questão doméstica?

A política externa é moldada por Putin. Não passa pelo Parlamento. E todos os termos como 'Parlamento', 'eleições', 'partidos', não significam as mesmas coisas que nos EUA. A Duma não é como o Congresso americano, que pode se opor ao presidente e impedir posições que ele queira tomar. Os partidos de oposição que estão hoje representados na Duma não são exatamente de oposição. São capengas e não eram vistos como um obstáculo para o Kremlin. Certamente não foram formuladores de políticas. Quando se pensa em formuladores de políticas, está se falando do Kremlin e, sobretudo, de Putin. Ele está moldando a política externa como faz com as outras política. De modo que as relações com os EUA dependerão, do lado russo, do que Putin acha que melhor servirá aos seus objetivos. Contudo, ele certamente parece mais fraco após o fracasso do Rússia Unida.

Ele ainda é o primeiro-ministro até a eleição em março, não?

Ele é tecnicamente primeiro-ministro, mas todos o veem como a pessoa mais importante na Rússia e, certamente, o líder que ele nunca deixou de ser durante toda a presidência de Medvedev.

Fiquei espantado ao examinar alguns sites de jornais russos. Vários estavam fazendo reportagens sobre corrupção e fraude eleitoral. Parece que não houve restrições à mídia. Isso vale também para a televisão ou apenas para a imprensa escrita?

Em 2004, escrevi um texto dizendo que as restrições à mídia russa são irrelevantes. A televisão será restringida e os veículos que seguem linhas editoriais independentes permaneceram em grande parte irrelevantes no que trata das decisões políticas, pois o governo pode facilmente ignorar o que eles estão noticiando. Mas a liberdade de expressão é relativamente ampla. Ultimamente, em especial, viu-se toda sorte de exposição de abusos de autoridade, além de análises críticas, opiniões zangadas e sátiras políticas. Essas publicações são tudo menos leais (ao governo) e estamos falando aqui não só de 'jornais', pois cada jornal tem um site. Também o rádio e um pouco, à medida que surge, a televisão via internet estão se manifestando abertamente. O que falta à imprensa escrita é um papel de cobrança no qual o público possa pedir contas ao governo. A capacidade de escrever, a capacidade de expressar suas opiniões, ou publicar seus repertórios não são tão restringidas. / 'UNDERSTANDING PUTIN'S SETBACK'. COPYRIGHT 2011CFR.ORG. TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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