Apoio a um processo antidemocrático

Obama condenou as eleições em Mianmar e deveria fazer o mesmo com o Haiti

DAN BEETON, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2010 | 00h00

O Haiti vai às urnas hoje, e nada - nem a epidemia de cólera que matou mais de mil pessoas nem o fato de que mais de um milhão de sobreviventes do terremoto continua sem teto - convenceu o governo haitiano ou seus financiadores internacionais a adiar as eleições. Porque elas deveriam ser adiadas? O processo eleitoral costuma ser manipulado. Mas, infelizmente, o governo Barack Obama parece contentar-se em aceitar a farsa.

No início do mês, Obama condenou as eleições fraudadas de Mianmar. "A legislação eleitoral injusta e a Comissão Eleitoral (controlada pelo regime militar) abertamente partidária permitiu que a principal agremiação favorável à democracia, a Liga Nacional pela Democracia (LND), do país fosse silenciada e marginalizada", disse ele.

Condenação. Agora que um processo igualmente falho vai se repetir num país muito mais próximo dos EUA, o governo Obama deveria ser igualmente categórico em sua condenação.

No Haiti, como em Mianmar, vários partidos, até mesmo o mais popular, o Família Lavalas, estão impedidos de participar da eleição em uma decisão abertamente antidemocrática. O Família Lavalas ganhou todas as eleições das quais participou, e as autoridades parecem determinadas a impedir que isso volte a ocorrer. No Haiti, como em Mianmar, um conselho controlado pelo governo supervisiona o processo eleitoral. E no Haiti, como em Mianmar, o líder do partido popular não pode reunir seguidores.

Enquanto a líder opositora Aung San Suu Kyi foi mantida em prisão domiciliar, Jean-Bertrand Aristide está impedido de voltar do exílio na África do Sul porque o governo haitiano se recusa a conceder-lhe um novo passaporte.

A polícia haitiana dispara balas de verdade contra as multidões favoráveis à democracia, assim como as manifestações em Mianmar têm sido violentamente reprimidas. Vergonhosamente, no Haiti, as tropas da ONU têm apoiado a repressão policial, quando não atacado diretamente as multidões e os jornalistas.

Assim como membros do LND de Mianmar foram perseguidos, milhares de partidários dos Lavalas foram mortos em 2004, depois que Aristide, um presidente eleito, foi deposto em um golpe que teve apoio do governo americano.

Enquanto funcionários do governo Obama mencionaram a exclusão das eleições de partidos políticos importantes como uma grave preocupação em Mianmar, os EUA estão fornecendo ao menos US$ 13 milhões de ajuda às eleições no Haiti.

Os riscos do apoio americano a um processo antidemocrático no Haiti, e o provável apoio ao governo ilegítimo que dele resultará, são graves.

As frustrações para a maioria dos haitianos já são imensas por causa de fatores como a não realização, depois do terremoto de janeiro, da transferência das pessoas que perderam suas casas para um abrigo decente. Bilhões de dólares foram prometidos em ajuda e ainda não foram usados devidamente, enquanto a epidemia de cólera se espalha.

Tirar a possibilidade de realização de eleições livres e limpas mataria a esperança de muitas pessoas para as quais a esperança já é remota. Se o governo Obama pretendia ficar do lado da democracia e dos direitos humanos no Haiti, como no caso de Mianmar, deveria ter acolhido o apelo dos partidos políticos e de grupos haitianos que defendiam o adiamento das eleições até que todas as partes tivessem permissão de participar da votação e que todos os eleitores pudessem ter a garantia de depositar seu voto nas urnas. O apoio à realização de eleições fraudadas será mais um elemento a acrescentar à longa lista das injustiças americanas contra um dos vizinhos mais próximos dos EUA. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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