Apoio aos EUA ameaça estabilidade do Paquistão

O que vai definir a capacidade do presidente Pervez Musharraf de sobreviver a sua decisão de se colocar ao lado dos Estados Unidos é um fator volátil e imponderável: quantos paquistaneses, com que virulência, e com que respaldo eventual das Forças Armadas, poderão aderir à onda de protestos violentos, na medida em que as bombas americanas começarem a cair sobre o Afeganistão.Na última oportunidade que teve de demonstrar a força de sua liderança sobre as Forças Armadas, Musharraf se desempenhou de forma notável. Na qualidade de comandante do Exército, o general travava uma queda-de-braço com o então primeiro-ministro Nawaz Sharif, que teve seu desfecho em outubro de 1999, quando o chefe do governo quis impedir o avião em que estava o militar de pousar no Paquistão, de volta de uma viagem. As Forças Armadas tomaram partido de Musharraf e foi o fim do governo de Sharif.As manifestações estão aumentando de intensidade, mas continuam restritas a uma fatia da população sob forte influência fundamentalista. "São fanáticos, que se fecharam e não querem entender", diz a estudante universitária Deborah Mathew, da minoria cristã protestante. Em seu pronunciamento de quarta-feira, o presidente disse que essa parcela varia de 10% a 15% da população. Será que não passa mesmo disso? O sociólogo Ijaz Hussain acha que não. Deborah Mathew, que estuda estatística, acha que sim.Nas ruas de Islamabad, as opiniões sobre a posição assumida pelo presidente se dividem. "Primeiro, é preciso salvar nosso país. Depois, ajudar outros", aprova Jafar Mahmud, dono de quiosques de fotocópias no centro da cidade. "Alguns gostaram da decisão, outros não, mas o fato é que nosso país vem sofrendo há muito tempo e não queremos atrair mais problemas."DescontentamentoEntre os que não ficaram nem um pouco felizes está Mohammad Shafi, um corretor originário da Caxemira, território de maioria muçulmana disputado com a Índia. "O presidente está com medo de lutar. Somos um povo independente. Se tivermos de lutar pelo nosso país, vamos lutar", diz ele, sob o olhar de aprovação de cinco homens sentados no banco da praça em frente ao mercado central."Os Estados Unidos usaram os próprios aviões para matar seu próprio povo e agora estão culpando os afegãos", continua Shafi, repetindo a tese da conspiração, bastante acolhida no Paquistão e em outros países muçulmanos. "Devemos ser contra o terrorismo em todos os lugares, não só na América", argumenta o corretor. "A América faz terrorismo contra muitos muçulmanos, na Palestina, em Kosovo, na Bósnia e na Caxemira."O Paquistão é um microcosmo do mundo dividido entre os que apóiam e os que condenam a determinação americana de liderar uma campanha internacional contra o terrorismo. Não são só os fundamentalistas que deploram a iniciativa militar americana. Ela também fere o sentimento nacionalista de uma parcela da classe média paquistanesa. O resultado desse confronto interno definirá o destino do país. No seu pronunciamento de quarta-feira, o presidente disse que está consciente dos riscos envolvidos. Mas tinha de tomar uma decisão.DilemaAo dividir o mundo entre os países que estão do seu lado na luta contra o terrorismo islâmico e os que são seus inimigos, os Estados Unidos mergulharam o Paquistão num extremo dilema. O general Pervez Musharraf teve de optar entre o mais estrito interesse nacional e o sentimento enraizado de pertencer ao mundo islâmico. Para os paquistaneses, a questão envolve sua própria identidade: a razão de existência do país é abrigar um povo muçulmano no subcontinente asiático. Foi por isso que ele foi criado, em 1947, como nação separada da Índia."Há uma semelhança com a controvérsia entre Josef Stalin e Leon Trotski", compara Ijaz Hussain, diretor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Quaid-e-Azam. Trotski queria que o socialismo fosse imediatamente exportado para outros países, numa revolução permanente, enquanto Stalin achava que primeiro era preciso fortalecer o Estado soviético. Em seu crucial pronunciamento à nação, na quarta-feira, Musharraf tentou convencer os paquistaneses de que um Estado forte interessa ao Islã, a longo prazo. Sua destruição por uma superpotência não ajudaria a causa.No âmago da doutrina e do sentimento islâmicos, no entanto, está a noção da fraternidade muçulmana. "Sim, mas a Arábia Saudita e o Irã, por exemplo, também falam muito causa islâmica, mas, no momento de tomar decisões, praticam a Realpolitik", observa Hussain.Se Musharraf sobreviver à própria decisão, pode ter dado um passo histórico na consolidação do Paquistão como um Estado-nação. Em termos realistas, não havia muito o que tergiversar: entre a certeza de ser solapado pelos Estados Unidos e o risco do levante popular em seu país, Musharraf preferiu a segunda opção."Neste conflito, somente duas pessoas têm opções: George W. Bush e Osama Bin Laden", diz Kara Mat, diretor do Instituto Paquistanês de Educação e Pesquisa sobre o Trabalho. "Neste momento, o Paquistão não tem escolha. Mas, de agora em diante, precisa mudar suas políticas, para não voltar a se ver nessa situação." Salvaguardar territórios e armasNa decisão de Musharraf, há muito mais em jogo do que a sobrevivência de seu governo ditatorial. "Entre os imperativos, estava a necessidade de salvaguardar nossos ativos estratégicos, incluindo o território e as instalações nucleares", contabiliza Shireen Mazari, diretora do Instituto de Estudos Estratégicos de Islamabad. "Era preciso, também, negar à Índia a oportunidade de incluir a luta dos mujahedin (combatentes muçulmanos separatistas) da Caxemira no âmbito da campanha antiterrorista americana." O Irã, adversário muçulmano do Paquistão, também se movimentou depois dos ataques aos EUA para vincular o Paquistão ao terrorismo afegão, lembra a especialista.Assim, se o Paquistão, já era alvo de sanções comerciais por seu apoio ao regime Taleban, não agisse rápido, seria empurrado para a condição de pária internacional, com os dividendos indo diretamente para seus principais adversários regionais. Mas há, ainda, motivos positivos para o realinhamento paquistanês. A instabilidade do Afeganistão, permanente desde a invasão soviética de 1979, tem impedido a concretização de ambiciosos projetos regionais. O mais importante deles é o de construir um gasoduto passando por território afegão, para escoar as imensas jazidas de gás da Ásia Central para o Oceano Índico, em portos paquistaneses. O contrato é cobiçado por transnacionais do petróleo, incluindo companhias americanas.Até aqui, o fortalecimento do Taleban pode ter sido conveniente para o Paquistão, não só pelo esforço que representou de união e estabilização de um país fragmentado pela rivalidade tribal mas por suas vinculações com os mujahedin da Caxemira e pela rivalidade com o Irã.O Taleban é um movimento fundamentalista sunita, seita da maioria dos afegãos, enquanto o regime iraniano é xiita, seita da maioria dos persas. A trama de rivalidades contém, também, forte componente étnico: a hegemonia dos patans, grupo majoritário no Afeganistão e no noroeste do Paquistão, assusta tajiques, usbeques, hazares e turcos na Ásia Central, assim como punjabis e sindhis, no Paquistão. Ao lado dessa complexa superposição de camadas políticas, econômicas, religiosas e étnicas, convivem temores das conseqüências militares do engajamento paquistanês no esforço de guerra americano. Enquanto os estrategistas americanos detalham seus planos, muitos paquistaneses estão se perguntando onde, como e por quanto tempo as Forças Armadas dos Estados Unidos estarão presentes no território do país. Os exemplos não são animadores. A Guerra do Golfo propiciou aos Estados Unidos a instalação, longamente almejada, de bases americanas na Arábia Saudita, além dos emirados da região. Essa presença no solo sagrado islâmico é que teria motivado o saudita Osama Bin Laden, antes patrocinado pelos americanos na guerra contra os soviéticos no Afeganistão, a voltar-se contra os Estados Unidos e o governo de seu país natal."O Paquistão precisa ser muito claro quanto ao nível do comprometimento, levando em consideração seus imperativos nacionais", adverte a diretora do Instituto de Estudos Estratégicos. "Por exemplo, não pode haver compromisso em aberto com uma ação sem duração definida contra alvos ilimitados em países e grupos." A natureza vaga da guerra contra o terrorismo agrava as preocupações de um aliado numa situação tão delicada quanto a do Paquistão.

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