Apoio da esquerda a Chirac parece superar conservadores

No domingo, no segundo turno das eleições presidenciais, Jacques Chirac, representante da direita clássica, enfrentará Jean Marie Le Pen, porta-voz da direita fascista e racista. O socialista Lionel Jospin foi desclassificado no primeiro turno.No momento em que a derrota de Jospin se tornou conhecida, um súbito calafrio subiu pela espinha dos franceses num misto de vergonha e temor. A "esquerda" sufocou as mágoas que tinha de Chirac e resolveu apoiá-lo, movida talvez por um reflexo republicano ou, quem sabe, de sobrevida mesmo. "Abaixo o fascismo!" Passados alguns dias do primeiro impacto, observa-se uma certa mudança nessa atitude. Uma parte da esquerda, convencida de que Le Pen será derrotado de qualquer jeito, parece tentada a votar em branco.Para impedir que isso aconteça, líderes de esquerda argumentam que todo voto em branco e toda abstenção redundará, na verdade, em votos para Le Pen. As manifestações previstas para quinta-feira deverão insistir com mais rigor ainda nessa idéia. Portanto, a esquerda, esquecendo suas diferenças, deve votar em Chirac.O curioso é que a direita parece hoje menos inflamada do que a esquerda em sua campanha pró-Chirac. A razão é muito simples: os partidários de Chirac, ao avaliarem a importância da mobilização da esquerda a favor de seu candidato, temem que ela "devore" (por assim dizer) os eleitores do atual presidente.Os discursos comprovam essa estranha inversão. As propostas da esquerda (com exceção da trotskista Laguiller) são combativas, aguerridas e implacáveis. Já o discurso dos partidários de Chirac é um tanto vago e hesitante.A esquerda, por exemplo, pede a seus militantes que em hipótese alguma votem em branco (o voto em branco não é contabilizado). A direita nada disse sobre isso.Os partidários de Chirac demonstram o mesmo comportamento pusilânime, talvez até angustiado, diante das grandes manifestações marcadas para quinta-feira. Trata-se de uma atitude paradoxal, não há dúvida, já que o objetivo dessas mobilizações é deixar claro seu repúdio a Le Pen e seu apoio a Chirac. A direita, porém, teme que essas manifestações sejam fortemente dominadas pela esquerda em virtude da presença de um grande número de estudantes. Isto sem falar nesses especialistas em manifestações de rua que são os trotskistas.O interessante nisso tudo é que o desejo dos líderes socialistas de que seus companheiros votem unanimemente em Chirac não encontra eco em suas próprias fileiras. Aplica-se então no caso a pedagogia do voto útil. Uma agremiação socialista de Paris fez na noite passada um treinamento com os jovens membros do grupo em que, durante uma eleição fictícia, praticavam o voto em Chirac.Vários jovens socialistas disseram que votarão em Chirac, mas só depois de pôr no nariz um prendedor de roupas para não sentir o mau cheiro da direita; ou ainda de luvas, para não se contaminar.No início, era só brincadeira. Mas, como essa palavra de ordem agradou a muitos jovens, o Partido Socialista achou por bem tomar cuidado. Foi lançada então uma campanha para impedir que os jovens viessem com o nariz tampado e luvas nas mãos.E por quê? Porque na França o artigo 59 do código eleitoral reza que "o voto é secreto". A lei pune quem quer que "viole ou tente violar o voto secreto" com reclusão de um ano ou 15.000 euros. Assim, é claro que se um eleitor comparece ao local de votação com um prendedor de roupas no nariz, ou luvas nas mãos, deixa entrever em quem pretende votar.Nem é preciso dizer que os amigos de Jean Marie Le Pen, exímios conhecedores das chicanas jurídicas, sabem muito bem o que diz o código.E como domingo, por ocasião do segundo turno, o partido de Le Pen pretende enviar delegados aos 640.000 locais de votação, certamente esses fiscais da Frente Nacional tentarão anular, ou converter em voto em branco, todos os votos depositados nas urnas por pessoas com prendedores no nariz ou luvas nas mãos. Com isso, muitos votos dados a Chirac poderão ser anulados.É forçoso reconhecer que a situação da França hoje é bastante desagradável, mas nem isso é capaz de privá-la da veia cômica que torna este belo país tão charmoso.

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