REUTERS/Pablo Sanhueza
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Apoio de Bolsonaro a Pinochet complica presidente chileno

Oposição a Piñera usa elogios de comitiva brasileira a legado de ditador para atacar governo

Ricardo Galhardo e Daniel Weterman / ENVIADOS ESPECIAIS A SANTIAGO, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2019 | 21h32

“Não vim aqui para falar do Pinochet”, foi uma das primeiras frases do presidente Jair Bolsonaro ao desembarcar em Santiago, na quinta-feira, para três dias de visita oficial ao Chile. A declaração não foi suficiente. A oposição ao presidente chileno Sebastián Piñera tem usado a visita do brasileiro ao Chile como munição contra o governo.

O principal ponto explorado pela oposição é a defesa que integrantes do governo Bolsonaro fazem do ditador Augusto Pinochet, cujo regime é acusado de ter deixado 40 mil vítimas, entre mortos, desaparecidos e torturados, entre 1973 e 1990.

“É especialmente desconfortável para um presidente de direita democrático ter alguém mencionando Pinochet com uma conotação positiva. Para a direita chilena, tem sido difícil se afastar do fantasma de Pinochet. Ninguém à direita está feliz porque Bolsonaro está nomeando Pinochet. Isso atinge o governo. Isso faz com que ele se sinta desconfortável”, disse o cientista político chileno Patricio Navia, professor da Universidade de Nova York.

O presidente da Câmara dos Deputados, Iván Flores, e o do Senado, Jaime Quintana, ambos oposicionistas, recusaram o convite de Piñera para participar de um almoço em homenagem a Bolsonaro neste sábado, no palácio La Moneda, sede do governo chileno. 

Quintana reagiu fortemente a uma declaração, feita na véspera pelo ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. “No período de Pinochet, o Chile teve de dar um banho de sangue. Triste, o sangue lavou as ruas do Chile, mas as bases macroeconômicas fixadas naquele governo... Já passaram oito governos de esquerda e nenhum mexeu nas bases macroeconômicas colocadas no Chile no governo Pinochet”, disse à Rádio Gaúcha.

Quintana reagiu fortemente a uma declaração, feita na véspera pelo ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. “No período de Pinochet, o Chile teve de dar um banho de sangue. Triste, o sangue lavou as ruas do Chile, mas as bases macroeconômicas fixadas naquele governo... Já passaram oito governos de esquerda e nenhum mexeu nas bases macroeconômicas colocadas no Chile no governo Pinochet”, disse à Rádio Gaúcha.

Quintana classificou ontem a frase de Onyx como “um desatino que não tem comparação” e disse não se recordar de declarações desse nível por parte de um governo cujo mandatário pisou em solo chileno. 

Nesta sexta-feira, o advogado Raúl Meza, defensor de repressores presos por crimes cometidos durante a ditadura, entregou uma carta na Embaixada do Brasil em Santiago pedindo que Bolsonaro aproveitasse a viagem para fazer uma visita ao presídio de Punta Peuco para, “na condição de militar”, ver de perto a situação em que se encontram os militares condenados por violações aos direitos humanos durante a ditadura chilena. A comitiva de Bolsonaro rejeitou comentar o assunto, sob a alegação de que se trata de um tema de interesse interno do governo chileno. 

Ao contrário do Brasil, onde as pendências do regime militar foram em sua maioria mitigadas com a Lei da Anistia, em 1979, as feridas da ditadura chilena continuam abertas. Na quinta-feira, enquanto Bolsnaro declarava que não queria falar em Pinochet, 11 ex-militares eram condenados por envolvimento no caso "Queimados", no qual o fotógrafo Rodrigo Rojas e a estudante Carmen Quintana foram queimados vivos depois de participarem de um protesto contra o regime em 1986.

A vinculação de Bolsonaro com Pinochet foi explorada por manifestantes que participaram de um protesto contra a presença do presidente brasileiro que reuniu centenas de pessoas ontem no centro de Santiago. Os manifestantes também carregavam cartazes com a foto e o nome da vereadora Marielle Franco, assassinada no ano passado. 

O protesto foi dispersado pela polícia com bombas e jatos d'água. Enquanto isso, Bolsonaro passeava em um shopping center e fazia selfies com apoiadores. Na quinta-feira. ao chegar no Chile, o presidente mimizou os protestos dizendo que "não é unanimidade" e enfrentará manifestações contrárias onde quer que vá.


 

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