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PARIS - Seis horas de silêncio, na terça-feira, na Faixa de Gaza (um dos dois territórios palestinos, sendo o outro a Cisjordânia) e depois o sinistro duelo de foguetes disparados pelo Hamas sobre Israel e as bombas lançadas pelos aviões de Israel sobre Gaza recomeçou implacável.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2014 | 02h00

Esse duelo já dura dez dias. Israel, graças a um sistema de defesa notável chamado Domo de Ferro, teve apenas uma vítima. Para os palestinos de Gaza, a contagem é atroz: mais de 200 mortos e 1,4 mil feridos com uma proporção de 30% de crianças.

O desequilíbrio é espantoso: 200 mortos contra um. Ora, quando o Egito propôs uma trégua, Israel aceitou. O Hamas, apesar de dramaticamente inferior ao Exército israelense, recusou. Como explicar este paradoxo? Se o Hamas, a despeito das enormes perdas humanas, decidiu continuar a guerra foi porque, em primeiro lugar, a trégua foi proposta pelo Egito.

Ora, o Egito, depois que a Irmandade Muçulmana que o dirigia após a Primavera Árabe foi substituída pelo marechal Abdel-Fattah al-Sissi, é claramente hostil aos palestinos em geral e em particular aos radicais islâmicos do Hamas. Por isso, o Hamas, desconfiado de Israel, mas também do Egito, julgou que a trégua proposta pelo Cairo era uma armadilha, uma rendição incondicional.

O Hamas comunicou que não pretendia interromper a guerra enquanto não fosse levantado o bloqueio que asfixia Faixa de Gaza desde 2006. O território palestino, mesmo no tempo do presidente egípcio Hosni Mubarak e, claro, da Irmandade Muçulmana, recebia víveres, munições e materiais de construção pelas centenas de túneis cavados por baixo da fronteira com o Egito, mas depois que o marechal Sissi assumiu o controle do Egito, a maioria dos túneis foi destruída. Agora, os habitantes de Gaza estão condenados a uma asfixia fatal.

'Falcões'. Portanto, Israel recomeçou os ataques. O premiê Binyamin Netanyahu optou por reiniciar a guerra. Ele não tinha outra escolha porque em seu governo há "falcões" ainda mais "falcões" do que ele, como seu ministro das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, que gostaria que o Exército reocupasse a Faixa de Gaza: "É preciso ir até o fim", ele repete há dias.

No curto prazo, Israel não tem muito por que se preocupar. A superioridade do Exército israelense, cada vez mais sofisticado, é absoluta. Sobre o longo prazo, uma parte da opinião pública israelense vacila, se questionando se Israel não estará capitalizando tamanho ódio contra si que um dia o pêndulo inverterá seu curso e oscilará no sentido contrário.

Dois exemplos: há um grande número de árabes em Israel. Há muito eles querem se integrar, mas sua situação moral é cada vez mais dolorosa. Como eles poderiam assistir, ano após ano, as violentas punições infligidas aos palestinos de Gaza ou da Cisjordânia sem se sentir solidários a seus irmãos árabes?

Ora, levando em conta o forte diferencial demográfico, dentro de algum tempo os árabes serão mais numerosos do que os judeus nessa terra que vai do mar à Jordânia. O que ocorrerá, então? Atualmente, nos territórios palestinos encravados em Israel assistem-se remanejamentos inquietantes. Os palestinos estão divididos em dois territórios: a Faixa de Gaza, hoje esmagada sob as bombas, e a Cisjordânia. Esses dois enclaves são ideologicamente muito díspares.

Em Gaza, feudo do Hamas, encontram-se os guerreiros fanáticos que sonham em jogar todos os israelenses no mar. A Cisjordânia, por sua vez, que está nas mãos dos moderados do Fatah, busca o diálogo político, as negociações. Os cisjordanianos acham que os controladores de Gaza (o Hamas) são loucos furiosos.

Ora, no espetáculo que se desenrola há dez dias, os moderados do Fatah manifestaram pela primeira vez sua solidariedade à população de Gaza.

"As famílias", diz o excelente repórter do jornal Le Figaro, Renaud Girard, "estão indignadas com as imagens de crianças ensanguentadas pelas bombas israelenses. As divisões entre o Hamas e o Fatah se atenuam diante do drama na Faixa de Gaza, esse quadrilátero de 360 km² onde se espreme 1,8 milhão de palestinos, a maior densidade populacional do mundo."

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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