Martin Zabala/AP
Martin Zabala/AP

Apoio de Obama anima antichavistas na Argentina

Passagem do americano por Havana e Buenos Aires isola ainda mais Maduro e empolga venezuelanos que emigraram e esperam voltar

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

27 de março de 2016 | 05h00

BUENOS AIRES - A atriz venezuelana Yesiré Carrillo acompanhou a partida de Barack Obama da Argentina, já na madrugada de sexta-feira, no papel que encarna 12 horas por dia, o de cozinheira. Empregada e patroa no restaurante Miss Venezuela, em Buenos Aires, ela é parte de uma onda migratória impulsionada pelo chavismo e interessada na aproximação entre os governos argentino e americano.

Washington explicou em fevereiro, ao anunciar a decisão do americano de aproveitar a ida a Cuba para passar pela Argentina, que o ato era um reconhecimento a Mauricio Macri por suas medidas de abertura econômica e “contribuições para a defesa dos direitos humanos na região”. Em Buenos Aires, Obama surpreendeu pelo vigor dos elogios a Macri, um “exemplo de líder”, segundo o americano. 

Desde que assumiu, em 10 de dezembro, o argentino adotou posição antagônica à de Cristina Kirchner. Na política externa, sua principal bandeira tornou-se a libertação de presos políticos pelo chavismo. A exemplo do que fazia o kirchnerismo, Caracas frequentemente atribui suas mazelas a “conspirações ianques”. 

O Estado acompanhou desde dezembro a rotina de alguns venezuelanos na Argentina. São jovens que escaparam de insegurança, desabastecimento e inflação. Na comunidade antichavista, cada palavra de Macri contra o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, é celebrada nas redes sociais, em grupos semelhantes aos de cubanos na Flórida.

Formada em artes cênicas em Maracaibo, no Estado de Zulia, Yesiré chegou à Argentina para uma pós-graduação em roteiro. Terminou o curso, voltou para casa e foi assaltada três vezes em cinco meses. Desistiu, por enquanto, da repatriação. Sem trabalho fixo no palco, aos 29 anos, frita arepas, prato típico à base de farinha de milho. 

Quando não há clientes no restaurante do bairro de Palermo, alimenta sua página no Facebook. Cada vez que um macrista denuncia violação de direitos humanos na Venezuela, há dezenas de comentários antagônicos de seus amigos virtuais. O viés ideológico depende da nacionalidade do autor. “Meus colegas artistas argentinos, em geral, são de esquerda e apoiam o chavismo. Não entendem como uma atriz pode ser contra. Falam que é uma vergonha o Macri se meter com Maduro”, relata. 

Grupos. Entre os críticos a Macri estão associações que lutam pela punição de violadores de direitos humanos na ditadura militar, como as Mães e as Avós da Praça de Maio. Em sua passagem pela Argentina, o presidente americano formalizou a abertura de arquivos secretos que podem ajudar a encontrar netos e filhos de desaparecidos. Para Macri, que durante a campanha recebeu o incômodo apoio de defensores de militares condenados, a concessão americana representa uma resposta à pressão. 

Na polarizada linha do tempo da página de Yesiré no Facebook, os venezuelanos são todos antichavistas. “Perdemos um inimigo e ganhamos um aliado com Macri. Cuba e Argentina eram o maior apoio do chavismo”, diz Yerisé. 

Onda. Segundo a Direção Nacional de Migrações argentina, 17 mil venezuelanos tornaram-se residentes entre 2005 e 2014, o que os coloca como 10.º grupo de estrangeiros no país. Em 2004, eram 2 mil. O aumento de 6 vezes em 12 anos – em Buenos Aires, houve sete pedidos de residência de venezuelanos por dia no primeiro semestre – não torna o grupo significativo em números absolutos, comparando-se a paraguaios, bolivianos, peruanos e chineses. A onda chama a atenção porque marca uma mudança de comportamento binacional.

Sem tradição de emigrar, o venezuelano levou música, comida e sotaque a Buenos Aires. “É uma inversão. Sempre tivemos tradição de receber imigrantes. Muitos argentinos que fugiram da ditadura foram para Venezuela”, diz o jornalista venezuelano Kristian González, que presta consultoria a partidos de diferentes ideologias. No país há 11 anos, ele acompanhou as levas de chegada de compatriotas.

Os primeiros a chegar foram defensores do bolivarianismo, em geral, estudantes que aproveitaram a aproximação de Hugo Chávez (1999-2013) com Néstor Kirchner (2003-2007) e podiam comprar dólares pelo câmbio oficial para viajar ao exterior, o que durou até 2014.

No segundo grupo, aponta González, predominava a classe média assustada com a violência, que decidia aproveitar a educação barata e qualificada na Argentina. Como o chef Juan Manuel Leon, que ganhou destaque em jornais locais por uma “invenção” popular no Brasil, a pizza com borda recheada. Ele saúda a política externa de Macri “para tirar quem está no poder” em Caracas, mas reclama do efeito interno de suas primeiras medidas. “O preço da farinha de trigo dobrou”, diz Leon. 

Ao liberar o câmbio argentino logo após a posse, Macri levou o peso a uma desvalorização de 35%. Vieram reajustes mesmo sobre produtos processados no país. O argumento para liberar o acesso aos dólares era que só um país tinha controle igual, a Venezuela.

O paralelo entre kirchnerismo e chavismo é frequente para integrantes da “Pequena Venezuela”, que ressaltam a superioridade dos serviços públicos argentinos. “Havia coisas parecidas no kirchnerismo, como o programa Preços Cuidados (que tabela alguns produtos por categoria para segurar o preço de outros), mas a situação lá é muito mais grave. Até o concurso de Miss Venezuela sofreu cortes, ficou pobre e perdeu audiência. Não há mais um grande show de misses como antes”, exemplifica a advogada Victoria Maneiro, de 25 anos. 

Ela isenta o presidente de culpa pelo salto inflacionário (acumulada de 34% em 12 meses) e exalta sua disposição para defender a libertação do opositor venezuelano Leopoldo López. “Ele vinha falando do tema antes mesmo da campanha, não é um oportunista”, avalia. 

A afinidade entre macrismo e antichavismo também é explícita. Lilian Tintori, mulher de López, condenado a 13 anos e 9 meses, celebrou a eleição de Macri na festa do partido em Buenos Aires. Duas semanas depois, em 6 de dezembro, a oposição venezuelana conseguiu maioria no Parlamento, o que os antichavistas creditam em parte a um “efeito Macri”.

Mudança. Assim que o triunfo macrista foi anunciado, o celular de Yesiré tocou. “Era a minha família, chorando de alegria porque via uma brecha para a oposição na Venezuela.” 

Yesiré e seus parentes defenderam o chavismo. Ela lembra de ter comemorado quando Chávez voltou ao poder após uma tentativa de golpe, em 2002, mas não de quando passou a ser opositora. Seu pai, professor de teatro, foi o último a abandonar o bolivarianismo. “Não sei se a visita de Obama dá mais poder a Macri, mas traz mudanças que influem na Venezuela”, diz.

O caso de “convertidos” como Yesiré é comum em um país em que Chávez foi eleito democraticamente três vezes e ganhou um referendo que pretendia revogar seu mandato, em 2004. Esse mecanismo de anulação é a esperança dos antichavistas. “Todos em algum momento acreditamos no chavismo”, diz González, o jornalista que apoiou bolivarianismo nas primeiras eleições. 

Segundo ele, uma eventual mudança provocaria um refluxo na migração para a Argentina, que em sua última leva passou a incluir a população mais pobre, expulsa pela crise. 

“Praticamente todos os venezuelanos querem voltar, mas quem fizer isso já não vai tolerar abusos de qualquer ideologia. Não vai aceitar uma demora de dois meses por um passaporte, por exemplo, pois se acostumou a Estados mais eficientes que o seu.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.