Apoio do Brasil irrita oposição venezuelana

Muitos se dizem decepcionados com Lula; para analista, parceria tem motivações ideológica e política

Ruth Costas, CARACAS, O Estadao de S.Paulo

06 de julho de 2009 | 00h00

No momento em que o Senado brasileiro discute a entrada da Venezuela no Mercosul, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não se cansa de exaltar a amizade e os interesses comuns com o governo de Hugo Chávez. Nos últimos anos, a venda de produtos brasileiros para a Venezuela cresceu 860% (contra 230% da Argentina, por exemplo) e o país agora ocupa o sétimo lugar no ranking dos principais destinos das exportações do País. Na contramão do que fazem companhias de outros países, diversas empresas brasileiras resolveram investir na Venezuela, entre elas Braskem, Gerdau, Ultra, e várias empreiteiras. Mas a aproximação com Caracas desperta polêmica. Para Roberto Iglesias, do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento, no Rio, o governo brasileiro é o principal motor da expansão dos negócios com a Venezuela. "Não faz muito sentido os empresários confiarem na palavra de Chávez. Se eles apostam na Venezuela é porque são empregados recursos públicos para criar condições de financiamento", diz Iglesias citando o crédito de mais de US$ 4 bilhões do BNDES para Chávez pagar as compras do Brasil. Os encontros entre os dois presidentes são frequentes e uma série de projetos industriais está sendo costurada pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, que abriu um escritório em Caracas em 2008. Chávez quer a ajuda brasileira para montar 200 indústrias. "A questão é saber se não é arriscado no longo prazo estimular tais investimentos, com base mais em fatores políticos e ideológicos do que em pragmatismo econômico", diz Iglesias. Nos últimos anos, Chávez ampliou sua influência na região valendo-se dos recursos do petróleo. Comprou com subsídios a amizade de micropaíses da América Central, como Honduras, financiou projetos assistencialistas na Bolívia e Equador e impulsionou a Aliança Bolivariana para as Américas (Alba).Segundo analistas, tais medidas acabaram por criar dois blocos na América Latina - um moderado, de consensos e pluralismo, liderado pelo Brasil; o outro mais radical, com Chávez à frente. O caminho chavista seria o do antiamericanismo, do confronto com a oposição e da ampliação do poder do Executivo. Foi esse cenário que criou grande expectativa em relação à liderança de Lula. A aproximação com Chávez é vista por alguns como uma forma tentar expandir influência. Muitos, porém, sentem-se frustrados. "Essa amizade ampliou a preocupação nos EUA e na Europa com o fato de a política externa brasileira passar por cima de questões como ameaças à liberdade de expressão, direitos humanos e princípios democráticos", disse ao Estado Robert Amsterdam, advogado do empresário venezuelano Eligio Cedeño, preso em 2007 por crimes fiscais, mas sem acusação formal. Entre os opositores venezuelanos, a decepção com Lula é grande. "O governo brasileiro só se preocupa em ganhar dinheiro na Venezuela, vender e vender, aproveitando que já não conseguimos produzir nada", diz a funcionária pública Carmen Vino, numa passeata em Caracas contra as ameaças de Chávez à TV Globovisión. Mas entre os chavistas, a aproximação é bem vista. "Felizmente, o Brasil tem apoiado nossa revolução", diz a professora Elizabeth Andrade, num protesto contra "o terrorismo midiático" das TVs privadas.

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