Shealah Craighead/Official White House
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Apoio do Itamaraty em demora de Bolsonaro de parabenizar Biden constrange diplomatas

Brasil foi o último país do G20 a parabenizar o próximo presidente dos Estados Unidos

Célia Froufe, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2020 | 11h17
Atualizado 18 de dezembro de 2020 | 13h09

BRASÍLIA - A revelação feita nesta quinta-feira, 16, pelo Estadão de que o presidente Jair Bolsonaro foi munido de informações pelo embaixador Nestor Forster Junior para protelar o reconhecimento da vitória do democrata americano Joe Biden deixou diplomatas brasileiros no País e no exterior ainda mais constrangidos com o episódio. 

O Brasil foi pelo menos o último país do grupo das 20 maiores economias do globo (G20) a parabenizar o próximo presidente americano.

O Estadão/Broadcast entrevistou quatro diplomatas durante esta manhã e nenhum deles se sentiu confortável em fazer declarações abertas. Argumentaram que o anonimato era a única forma de se protegerem neste momento, pois temem uma caça às bruxas. 

Até por dever de ofício, qualquer membro do corpo diplomático costuma ser muito reservado em suas avaliações, mas o quadro de pressão tem ficado cada vez pior, segundo os que conversaram com a reportagem.

A notícia do Estadão vem no dia seguinte à rejeição pelo plenário do Senado da indicação do embaixador Fabio Marzano para assumir a delegação brasileira na Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, na Suíça. Esta foi a segunda vez que os senadores vetaram um nome indicado pelo Palácio do Planalto – a primeira foi a de Guilherme Patriota, no governo de Dilma Rousseff.

A derrota caiu diretamente na conta de Ernesto Araújo, que já estaria bambeando no cargo. A orquestração da barreira dos parlamentares foi construída pelo líder do PSL, Major Olímpio, que conclamou os senadores a mandarem o chanceler “para o inferno”. O Major Olímpio era um forte aliado do presidente e a rejeição de Marzano foi uma forma de passar o recado de insatisfação para a Presidência.  

Não fosse apenas uma informação frágil e errada por si, um dos diplomatas lembrou que, no atual governo, Brasília determinou a todas as embaixadas no exterior que tivessem uma atuação mais proativa em relação ao noticiário internacional envolvendo o Brasil, justamente com o argumento de evitar que circulem notícias falsas sobre o País.

Nos últimos meses, reportagens vêm mostrando a atuação dessa orientação no exterior, com embaixadores entrando em contatos com veículos de imprensa nos países onde atuam para fornecer os dados oficiais – e apontados como os corretos – sobre vários temas. Os assuntos relacionados ao desmatamento na Amazônia e outras questões ambientais são os mais comuns por atraírem maior atenção dos jornais internacionais. 

Em telegramas enviados ao Planalto, Forster Junior ignorou a posição de seus colegas em Washington. Ele também levou adiante o discurso de Donald Trump, que perdeu o pleito, de que haveria “diversos relatos” de fraudes em alguns Estados americanos. Bolsonaro apenas reconheceu o triunfo de Biden ontem, 38 dias após a eleição nos Estados Unidos. Os diplomatas estão certos de que essa postura do Planalto terá pouca influência sobre os negócios entre os dois países, mas pode pesar na relação, que já começa desgastada.

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