Augustin Marcarian/Reuters
Augustin Marcarian/Reuters

Apoio eleitoral de Bolsonaro a presidentes deixa Brasil mais vulnerável, diz analista  

Ao manifestar preferência por um líder específico, presidente rompe de novo com uma tradição da política externa brasileira, segundo o professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas

Entrevista com

Vinícius Vieira, professor de relações internacionais da FGV

Renata Tranches , O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2019 | 05h00

Bolsonaro manifestou preferência pelos quatro presidentes que visitou. Isso tem precedente? 

No Brasil, não me recordo de nada com esse padrão. Claro que há discussões acadêmicas sobre se determinada atitude do presidente pode beneficiar indiretamente outro chefe de governo. Quando houve a reeleição da Cristina Kirchner, por exemplo, em 2011, a presidente era Dilma Rousseff, e ela não fez campanha para ela, pelo menos não abertamente. Por exemplo, oferecer mais facilidades para importação, estímulo ao comércio exterior. É esperado. Mas não um apoio ostensivo como Bolsonaro faz. 

Por que Bolsonaro faz isso? 

Usando a frase que ele mesmo citou: "não sei ser presidente". Acho que não sabe distinguir a função de chefe de estado e chefe de governo, segundo o que ele mesmo falou. O chefe de Estado tem como função representar o país no exterior, entre outros, de maneira permanente. Ele representa não o seu governo, mas o Estado brasileiro. E é do interesse do Estado brasileiro ter boas relações com outros Estados e outros chefes de governo, quaisquer que sejam suas orientações ideológicas. 

Quais as possíveis consequências desse comportamento? 

Ao fazer isso, Bolsonaro coloca o Brasil em uma situação de vulnerabilidade. No caso da Argentina, tem a possibilidade de Macri não se reeleger. Como ficaria a relação entre Brasil e Argentina num cenário em que outro candidato vença? Da mesma maneira não sabemos como ficarão as relações com os EUA sob um eventual governo democrata, já que ele tem proximidade com Donald Trump. O mesmo se aplica ao caso de Israel e outros governos com os quais ele demonstra ter afinidade. A afinidade entre líderes é positiva, desde que não provoque constrangimento às relações bilaterais caso o opositor ou alguém menos simpático às ideias do presidente vença as eleições no outro país.  

Como seria uma troca de governo nos EUA? 

Existe uma ala mais à esquerda do Partido Democrata que tem grandes chances de fazer um candidato para enfrentar Trump. Se alguém como Bernie Sanders virar presidente, em 2020 ou alguém que nem seja tão à esquerda, mas que tenha apoio de setores mais à esquerda, claro que haverá incentivos para que ele se coloque contra líderes populistas de direita e o Bolsonaro, sem qualquer juízo de valor, se enquadra nessa categoria.  

Como seria esse cenário? 

Isso dificulta, por exemplo, no caso da ascenção brasileira à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). O desbloqueio foi feito por conta dessa proximidade com Trump, após todo esse imbróglio se os EUA iriam desbloquear ou não nossa inscrição. Um possível cenário com um democrata na Casa Branca é o Congresso americano pressioná-lo, em sua base eleitoral, a voltar a bloquear a inscrição brasileira na OCDE. É um processo que pode levar de dois a cinco anos, segundo alguns analistas, e vai além do mandato do presidente Trump. E a mesma questão no caso do Mercosul. O Mercosul em comparação com outros blocos, principalmente com a União Europeia, depende muito das relações entre os líderes de Brasil e Argentina. Eventualmente, um governo que não seja o de Macri, principalmente se for Fernández, podemos esperar tensões no Mercosul, não só por conta de divergências ideológicas, mas por conta desse tipo de fala do presidente, que deveria ser feita com mais cautela. Atuar nos bastidores, de maneira informal, para apoiar um presidente é aceitável. Mas de maneira ostensiva como Bolsonaro vem fazendo implica em riscos altos, não só para seu governo, sobretudo para o país e suas relações internacionais no longo prazo.  

As consequências são inevitáveis? 

Para o Macri também é muito ruim. Bolsonaro não tem uma boa imagem no exterior, ele já chegou na Argentina com protestos. Independendente da opinião de cada um sobre o Bolsonaro, vamos pegar o exemplo da Europa. Na França, país com tradições democráticas, ele é visto como alguém de extrema direita, ainda que eu não concorde. Mas só o fato de ter essa percepção, de ele liderar um governo de extrema direita, pode abrir margem para boicotes. Na Suécia, uma rede de supermercado já está boicotando nossos produtos porque estaríamos usanod mais agrotóxico, mas essa questão ideológica também pode ter tido impacto. Na própria negociação entre Mercosul e UE, que o Paulo Guedes (ministro da Economia) diz que deve terminar em quatro semanas, podemos ter algum veto de algum país europeu em retaliação a Bolsonaro. A imagem do presidente é algo a ser considerada nessa dinâmica. Ele tem dado esse apoio a líderes específicos e caso esses líderes não sejam eleitos ou reeleitos é extremamente problemático para laços de longo prazo para nossas relações internacionais. 

Isso pode se refletir nas próximas viagens? 

O fato de ele ser visto, não que seja verdade, como alguém de extrema direita pode atrair mais protestos principalmente nos países ocidentais. Não vejo Bolsonaro visitando países muitos democráticos fora da América do Sul. Não vejo ele visitando a Europa, a não ser que vá a algum país como Hungria, Itália, Polônia, que têm governos que se alinham a essa nova direita populista. Se for visitar Alemanha, França, Reino Unido, sem dúvida, teria de enfrentar protestos e talvez chamaria mais a atenção da opinião pública local daquele país para o que se passa aqui no Brasil e eventualmente gerar mais boicotes, mais oposição àquilo que envolve Brasil. No caso da Europa, o caso das exportações agrícolas. 

Essa prática é uma ingerência? 

Não diria que seja um princípio de ingerência, porque esse tipo de ação nos bastidores é mais comum do que a gente imagina. Mas mesmo nos bastidores ela acontece de maneira sutil. A diplomacia é cheia de sutilezas. Em relação a nossa política externa sempre foi o prinícipio de não intervenção nos outros países que prevaleceu. Historicamente tem sido marcado por isso, pela ideia de soberania, não intervenção, respeito à via internacional (tratados), e isso implica uma relação de cordialidade principalmente com os vizinhos. No caso da Venezuela, Bolsonaro tem cruzado linhas e feito um rompimento com nossa história. Por mais que ele se oponha a Nicolás Maduro, não imagino nenhum dos presidentes anteriores no cenário atual fazer o que ele fez, de reconhecer a representante do Guaidó(Juan, autoproclamando presidente interino)  como embaixadora na prática aqui no Brasil. Bolsonaro segue sua própria linha, mas na história da nossa política externa trata-se claramente de uma ruptura. Mesmo nos anos Lula e Dilma, do PT, não tivemos um chefe de Estado fazendo isso.

 

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