Apoio estrangeiro permite avanço de programa nuclear do Irã, indica jornal

Ameaça crescente. Relatório da agência de monitoramento de energia atômica da ONU, a ser apresentado hoje ou amanhã, deve alertar para a cooperação recebida de cientistas da ex-URSS, Paquistão e Coreia do Norte, que teria impulsionado planos iranianos

WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2011 | 03h03

Informações fornecidas à divisão de armas nucleares da ONU mostram que o governo do Irã domina as fases fundamentais necessárias para a fabricação de uma arma nuclear, informou ontem o jornal The Washington Post, citando diplomatas e especialistas em arsenais atômicos. De acordo com as mesmas fontes, Teerã recebeu a assistência de cientistas estrangeiros para superar os principais obstáculos técnicos.

Documentos que devem ser apresentados hoje ou amanhã anexados ao relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) sobre o programa do Irã trarão novos detalhes sobre a atuação de um ex-cientista soviético que teria supervisionado os iranianos durante a construção de detonadores de alta precisão, usados para desencadear uma reação nuclear. A tecnologia oferecida por especialistas do Paquistão e da Coreia do Norte também permitiu que o Irã chegasse perto da obtenção da capacidade nuclear.

As fontes disseram que os documentos reforçam os temores de que o Irã continuou com as pesquisas em busca de armamentos depois de 2003 - quando, acreditam as agências de inteligência americanas, os líderes iranianos interromperam suas experiências atendendo a pressões internacionais.

Os temores de que o Irã possa construir uma bomba atômica nos próximos meses intensificaram a retórica contra o Irã e incitoram novas ameaças de ataques.

As autoridades iranianas mostraram-se indiferentes ao relatório. "Deixem que eles publiquem o relatório e vamos ver o que acontece", afirmou no sábado o ministro de Relações Exteriores iraniano e ex-principal autoridade da divisão nuclear, Ali Akbar Salehi. O chanceler disse ainda que a discussão sobre o programa nuclear do Irã é "de caráter inteiramente político", e a AIEA está sendo "pressionada por potências estrangeiras".

Embora a AIEA venha exigindo total transparência do Irã em relação a vários projetos aparentemente científicos, as novas revelações dão a impressão de que existe um programa de pesquisas secretas mais ambicioso, mais organizado e mais bem-sucedido do que se suspeitava.

Interrupção. Depois de uma interrupção em 2003, os cientistas iranianos trabalharam para obter as competências imprescindíveis à fabricação e aos testes de uma arma nuclear que possa ser transportada no interior de mísseis de longo alcance, disse David Albright, ex-funcionário da AIEA que analisou as informações da inteligência.

"O programa nunca parou", afirmou Albright, presidente do Instituto para as Ciências e a Segurança Internacional sediado em Washington. "Após 2003, o Irã destinou recursos para a pesquisa em atividades que com toda a certeza se destinam à construção de armas nucleares, mas que foram disfarçadas em instituições civis", disse Albright.

Representantes do serviço de informações dos EUA afirmam que Teerã não decidiu se construirá armas nucleares, mas está empenhada em reunir todos os componentes e as competências necessários para montar rapidamente uma bomba. O Irã insiste que suas atividades são pacíficas e para a geração de eletricidade.

Dispositivo de detonação. Uma descoberta fundamental ainda não divulgada foi o sucesso do Irã na obtenção de informações relativas ao projeto de um artefato conhecido como gerador R265. O objeto é uma cápsula de alumínio revestida de explosivos capazes de provocar detonações com total precisão. As explosões comprimem uma pequena esfera de urânio ou plutônio enriquecido, desencadeando a reação nuclear.

A criação é um formidável desafio técnico, e, segundo Albright, o Irã precisou de ajuda externa para projetar o gerador e testar seu desempenho. De acordo com as informações fornecidas à AIEA, a assistência foi dada por Vyacheslav Danilenko, um cientista nuclear soviético contratado na década de 90 pelo Irã.

O papel de Danilenko foi considerado crucial, e a AIEA procurou de todo modo obter sua cooperação. O cientista admitiu participação no projeto, mas disse que pensava que era um trabalho de engenharia civil.

O Irã precisou ainda de especialistas estrangeiros para conseguir os cálculos e códigos necessários para o trabalho teórico do projeto - que teriam sido fornecidos pela Coreia do Norte. Uma assistência adicional teria sido proporcionada pelo famoso cientista paquistanês Abdul Qadeer Khan, cujo projeto de um dispositivo foi encontrado no Irã.

As revelações ocorrem num momento em que são feitas novas ameaças de ataque ao Irã. Os jornais israelenses noticiaram o apoio de funcionários graduados do governo de Israel a um ataque militar a instalações nucleares do Irã. Ontem, o chanceler russo, Serguei Lavrov, advertiu que qualquer ação militar contra Teerã seria um erro grave com consequências imprevisíveis, que levaria a mais conflitos e a mortes de civis. A Casa Branca decidiu esperar a divulgação do relatório da ONU para se manifestar sobre o programa nuclear do Irã. / THE WASHINGTON POST

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