Após 12 anos, a volta dos soldados russos a Cabul

Os habitantes de Cabul, capital do Afeganistão, tiveram uma sensação estranha ao perceberem, na manhã de hoje, soldados usando uniformes impecáveis, de um belo tom de azul, e armados com fuzis do exército, perto de caminhões bem alinhados e cobertos com redes de camuflagem. As crianças deram gritos para glória dos "americanos". Mas os mais velhos retificaram. Tiveram uma velha lembrança. Esses homens eram soldados russos que voltaram ao Afeganistão, doze anos depois de terem sido perseguidos por esses mesmos "mujahedin" que, hoje, com o apoio dos americanos, estavam prestes a fazer uma nova investida o país. Achar uma situação histórica mais burlesca, mais complicada e mais barroca é difícil: há 12 anos, os mujahedin, apoiados pelos Estados Unidos e pela CIA, caçavam russos em Cabul. Hoje, os mesmos mujahedin, apoiados pelos americanos e pelos russos ao mesmo tempo, caçam os talebans que foram ali instalados, há cinco anos, pelos americanos. Outra bizarrice: os generais russos, a partir de agora amigos dos generais americanos, passam o tempo conversando com seus colegas americanos, falando de suas lembranças, seus conselhos, suas experiências de combates terríveis que tiveram anteriormente no Afeganistão. O grande amor que compartilham hoje os russos e os americanos não é isento de reservas. Se Putin, desafiando o "resmungo" dos generais russos e de uma parte de seu povo, optou por se alinhar a George W. Bush, sem dúvida foi por horror aos crimes imundos de setembro, mas também por estratégia. Os homens de Putin não perdem uma oportunidade de ressaltar o papel decisivo desempenhado pela Rússia na vitória americana. Os russos insistem em uma questão particular. Putin permitiu a utilização, pelas tropas americanas, das bases militares na Ásia central, nas antigas repúblicas soviéticas, hoje repúblicas independentes, mas fortemente influenciadas por Moscou. Na verdade, observam os estrategistas russos, se os Estados Unidos não tivessem desfrutado dessas bases, teriam sido obrigados a atacar os talebans pelo sul, e não pelo norte, seja pelo Paquistão, seja pelas bases da Arábia Saudita (o que poderia desestabilizar os regimes desses dois países muçulmanos). Por que esse plano, bem-sucedido até aqui, do inteligente Putin? Segundo os moscovitas, por três motivos: o primeiro é que a Rússia, cansada, desorganizada, não tem mais a capacidade de garantir sozinha a segurança de seus flancos sul na Ásia central. Delegaram, então, essa tarefa a seus novos amigos, os americanos. Segundo motivo: reintegrar a Rússia aos sistemas políticos da Europa e da América. Terceiro motivo: ter "carta branca" na Chechênia, uma vez demonstrada a nocividade do Islamismo fundamentalista, fundamentalismo mortal cuja revolta chechena contra a Rússia é apenas uma ilustração entre outras. A presença de muitos voluntários chechenos entre os talebans e entre os soldados de Bin Laden fortalece a tese de Putin. É uma conseqüência do "sinal verde" que Putin pensa ter obtido para fazer reinar sua ordem, sua "paz" na Chechênia? As organizações russas de "defesa dos direitos humanos" nos advertem, hoje, que jamais as tropas russas foram mais virulentas e que uma "ampla ação de limpeza étnica está em curso na Chechênia, operação que ninguém condena". Há uma outra questão que, no momento, não é suscitada oficialmente, a dos oleodutos. Sabemos do que se trata: o Afeganistão ocupa uma posição crucial em todas as futuras rotas de escoamento do petróleo do Mar Cáspio para a Ásia. Não há a menor dúvida: esses oleodutos vão ser colocados na área logo que a paz voltar ao Afeganistão. E quando isso acontecer, é claro que Moscou demandará sua parte. Enfim, nos círculos militares e políticos russos que mantiveram seus reflexos da "guerra fria", há uma outra obsessão: graças à operação bem conduzida no Afeganistão, os soldados americanos vão estar, pela primeira vez, no centro dessa zona tão decisiva do sistema geopolítico atual: a Ásia central, com bases exatamente no flanco sul da Rússia asiática. Essa é uma das conseqüências dos atentados de setembro e da guerra contra Bin Laden: a América entrou no coração do continente asiático.

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