Após 15 anos, minoria branca se diz abandonada

Africânderes reclamam que língua e cultura perderam espaço, mas esperam aproximação prometida por Zuma

Karin Brulliard, O Estadao de S.Paulo

21 de abril de 2009 | 00h00

Quinze anos depois que Nelson Mandela negociou a saída do poder do governo de minoria branca que governou durante meio século valendo-se de leis racistas, a pequena população africânderes da África do Sul agora luta por alguma influência política. Organizações e estudiosos africânderes dizem que muitos se sentem abandonados numa terra onde sua língua e sua cultura estão em declínio. Embora se espere que poucos votarão em Jacob Zuma, favorito na disputa pela presidência nas eleições de amanhã, alguns veem um vislumbre de esperança no candidato.Seu partido, o governante Congresso Nacional Africano (CNA), vem tentando atrair os africânderes - descendentes sobretudo dos colonos holandeses e franceses cuja presença aqui data do século 17 - e outros grupos minoritários com renovado vigor. Os africâner constituem menos de 6% da população, 9% da qual são brancos.Analistas dizem que os esforços refletem uma real preocupação dentro do CNA - que afirma representar todos os sul-africanos -, segundo a qual o partido evoluiu sob o comando do atual presidente Thabo Mbeki para uma organização vista como apenas para negros. Segundo uma pesquisa de opinião recente, os negros formam 96% de seus eleitores.Desde que assumiu o poder, em 1994, o CNA fechou ou tornou bilíngues 90% das escolas em língua afrikaans que existiam em 1990, mudou nomes de ruas e cidades que homenageavam africânderes. Leis de ação afirmativa deixaram muitos africânderes sem trabalho. Alguns se retiraram para um isolamento suburbano. Analistas políticos dizem que muitos não votam. Dos que o fazem, a maioria vota na Aliança Democrática, o principal partido de oposição, que deriva boa parte de seu apoio de brancos. Muitos outros emigraram. Algumas pesquisas sugerem que 1 milhão de brancos deixaram a África do Sul desde 1995.VIGORPara um observador casual, a cultura afrikaans não mostra sinais de definhamento. As partidas de rúgbi, nas quais africânderes avermelhados comem um churrasco de linguiça de fazenda, são muito populares. A literatura em língua afrikaans vende bem, e programas de TV na língua são comuns. O rock em afrikaans está explodindo.Mas jovens africânderes dizem que lidar com sua herança numa nação modificada pode ser um ato de equilibrismo. Jay Schutte, 29 anos, um estudante de pós-graduação, foi diretor musical de uma trupe de dança africana. Ele há muito abandonou seu verdadeiro primeiro nome, Jan, e às vezes espera para revelar seu sobrenome a seus alunos negros por temer que "eles me vejam através de uma certa lente". Mesmo assim, disse Schutte, ele se sente confiante de que tem um lugar na África do Sul. "Se você trabalhar duro e der o melhor de si, não acho que isso vai afetá-lo", disse Schutte.

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