Após 16 anos, Itália prende capo da Camorra

Michele Zagaria, líder máximo de grupo mafioso, é capturado num bunker em Nápoles

NÁPOLES, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2011 | 03h06

Michele Zagaria, um dos mafiosos mais procurados da Itália, foi encontrado ontem pela autoridades do país em Casapesenna, sua cidade natal, escondido em um bunker de 50 m² instalado atrás de uma parede de concreto reforçado com 5 m de espessura. Aos 53 anos, o chefão da Camorra, a máfia napolitana, estava foragido desde 1995. "Vocês ganharam. O Estado ganhou", disse o criminoso aos investigadores que o prenderam.

O capo comandava o clã Casalesi, cuja atuação na região da Campânia - desde a cidade de Casal di Principe - foi descrita pelo escritor italiano Roberto Saviano no livro Gomorra, best-seller que virou filme em 2008. No mesmo ano, Zagaria foi condenado à revelia a uma pena de prisão perpétua pela primeira vez, acusado de assassinato.

O chefão era procurado ainda por associação para o crime, sequestro, extorsão e outros delitos. Em 2010, a Justiça italiana o condenou outras duas vezes a passar o resto de seus dias encarcerado. Sua brutalidade rendeu-lhe o apelido de "cara torta".

O acesso às apertadas e fortificadas instalações onde o mafioso se escondia era controlado eletronicamente. Para conseguir invadir o bunker, a polícia cortou a eletricidade e a ventilação do local e perfurou a espessa parede com equipamento pesado.

A parte interna do esconderijo, localizado sob um prédio de Casapesenna, era decorada por crucifixos e outras imagens sagradas para o catolicismo. Segundo os investigadores responsáveis pela operação, ficou claro que Zagaria viveu lá por vários anos. Ao todo, 50 agentes participaram da prisão.

A foto tirada no posto policial mostra um capo envelhecido, de cabelos grisalhos, muito diferente do criminoso da imagem publicada na página do Ministério do Interior da Itália dedicada aos mais procurados do país, que mostrava um Zagaria jovem e de aspecto ameaçador.

"Ele não era apenas o rei da Camorra. Era o gerente de todas as organizações criminosas (italianas)", afirmou Saviano, que vive sob proteção policial porque Zagaria encomendou sua morte. "Agarraram Zagaria como a um rato enterrado", escreveu o autor no Twitter.

O promotor antimáfia Piero Grasso afirmou que não foi uma surpresa o fato de Zagaria estar escondido em sua cidade natal, já que os chefões "só conseguem exercer seu poder se estão em um ambiente que os proteja". "Foi um pesadelo. Nós sabíamos que ele estava na região, mas foi difícil encontrá-lo e tirá-lo de lá. Finalmente conseguimos."

Raffaele Cantone, ex-juiz de Nápoles que vive sob proteção policial desde 2003, quando soube que a Camorra havia ordenado sua morte, comparou a prisão de Zagaria à de Bernardo Provenzado, chefão da Cosa Nostra, a máfia siciliana, encarcerado em 2006. "O clã Casalesi que conhecemos deixou de existir. Teremos de ficar atentos para a forma que ele assumirá a partir de agora. É o fim de uma época."

O Casalesi é considerado o mais poderoso clã da Camorra. Estima-se que a facção movimente até 30 milhões anualmente em negócios ilícitos. Ao contrário dos fragmentados clãs que atuam apenas dentro da cidade de Nápoles, a organização criminosa controlada por Zagaria consolidou seu controle em um vasto território. Segundo as autoridades italianas, usava dinheiro obtido com tráfico de drogas e extorsão para financiar investimentos considerados legítimos, principalmente nos setores de coleta de lixo e construção. / REUTERS, AP e AFP

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