The Washington Post/Joao Pina
The Washington Post/Joao Pina

Após 20 anos na selva, rebelde abandona fuzil

Yurluey Mendoza, que se juntou às Farc aos 14 anos de idade, vê um iPhone pela primeira vez

Nick Miroff, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2016 | 05h00

“Quer ver minha arma?” pergunta Yurluey Mendoza depois de meia hora de conversa. Entre os guerrilheiros, esse seria o equivalente a um convite para entrar e tomar um café. Estávamos no interior da Colômbia, controlado pelos rebeldes, e viemos para aquela que foi anunciada como última reunião das Farc.

Muitos, como Yurluey, estão se preparando para voltar ao mundo moderno. Passaram anos vagando pelas montanhas e florestas colombianas, tomando banho nos rios e dormindo em acampamentos improvisados. Conversar com Yurluey é como encontrar alguém que saiu de uma máquina do tempo. Ela nunca usou a internet, nunca viu o oceano, nunca foi ao cinema nem andou de bicicleta.

Eu disse a ela que queria conversar com alguém que tivesse passado a vida toda combatendo na selva. Não um dos soldados mais jovens. Ela fechou a cara. “Acha que sou tão velha?”

Yurluey, nome de guerra pelo qual ela é conhecida por todos os “camaradas” rebeldes, se juntou às Farc quando tinha 14 anos, “uns 20 anos atrás”, disse. Ela viajou de helicóptero pela primeira vez há poucos dias. Foi transportada pela Cruz Vermelha por via aérea para a reunião das Farc. Quando ela embarcou com outros combatentes, a tripulação entregou a eles protetores de ouvido, e um dos guerrilheiros abriu a embalagem e colocou um deles na boca, pensando serem balas.

Ela esteve na cidade grande apenas uma vez, depois que uma bomba dilacerou seu pé, deixando-a quase aleijada. Ela saiu da mata com uma identidade falsa, e rumou para a capital, Bogotá, num ônibus, portando um envelope de dinheiro para um cirurgião ortopédico.

“Sabe como é viver 20 anos em guerra?”, perguntou. Respondi que certamente não sabia. “É difícil”, disse. “Muito difícil.” Yurluey, que faz parte dos cerca de 6 mil combatentes das Farc, era membro da coluna Teófilo Forero, temida e respeitada divisão rebelde ligada a alguns dos piores episódios de violência da guerra. Na coxa direita, uma cicatriz de combate, quando uma bala errou por pouco o osso. O tímpano direito foi estourado em outro bombardeio, um dos seis aos quais ela sobreviveu.

Chegou a passar vários dias sem comida, disse: “Há momentos em que não conseguimos mais andar por causa das bolhas, e a mochila machuca as costas. Há momentos em que passamos por cima dos corpos de camaradas caídos a quem amamos como irmãos”.

Como muitos guerrilheiros, ela fala usando termos recebidos da doutrinação. Os inimigos das Farc são “a oligarquia”, os Estados Unidos são “o império”, e o exército guerrilheiro é “o movimento”.

No acampamento rebelde, a cama dela era um colchão feito de lama e gravetos, amaciado com grama seca sob uma camada de plástico preto. Nas estacas que serviam de cabeceira pendia uma submetralhadora. No cinto, uma pistola 9mm israelense envolta em celofane.

Ela me entregou o fuzil, desgastado e oleoso. Mostrei a ela o iPhone 6. Disse que o aparelho é capaz de tirar fotos e vídeos e mandá-los para todo o mundo. Também funciona como lanterna, bússola e mapa. Ela manteve o olhar fixo na tela por alguns instantes. “São tantas as novidades que terei de conhecer”, disse.

Perguntei se todo o sofrimento enfrentado valeu a pena. O acordo de paz não inclui nenhuma das abrangentes e revolucionárias mudanças pelas quais as Farc lutaram por tanto tempo. Mas Yurluey disse que ajudou na conquista de uma vitória, ainda que esta seja apenas a promessa de plenos direitos políticos feita por um governo no qual ela jamais confiou. Ela parecia cansada, mas não arrependida.

“Fazemos isso porque dizemos a nós mesmos que o sacrifício vale a pena”, disse ela. “Para que algo nesse país mude.” Em questão de semanas, se o acordo de paz for aprovado no plebiscito de amanhã, Yurluey e os demais guerrilheiros das Farc começarão a entregar suas armas.

Yurluey disse que será difícil se separar da metralhadora. “Essa arma me protegeu por tanto tempo”, disse. “Mas se eles de fato abrirem para nós um espaço na política não precisarei mais dela.” 

 

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