REUTERS/Ramzi Boudina
REUTERS/Ramzi Boudina

Após 20 anos no poder, presidente da Argélia renuncia

Abdelaziz Bouteflika cedeu à pressão após semanas de protestos no país

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2019 | 16h27

ARGEL - O presidente argelino Abdelaziz Bouteflika renunciou ontem, depois de 20 anos no cargo e algumas semanas de protestos apoiados pelo Exército. Remanescente entre os chefes de Estado do norte da África atingidos pelos levantes da Primavera Árabe, ele pretendia disputar um quinto mandato, aos 82 anos. 

Bouteflika ganhou projeção ao pôr fim a uma guerra civil, mas teve seu legado ofuscado por corrupção e estagnação econômica. O veterano da guerra de independência da Argélia raramente foi visto em público desde que sofreu um AVC em 2013. 

Após o início dos protestos contra seu governo, em 22 de fevereiro, ele desistiu de concorrer. Mas não disse quando renunciaria, enfurecendo ainda mais os manifestantes. Ele deixou o cargo depois de o comandante do Exército exigir a abertura de um processo constitucional imediato para removê-lo do cargo.

Bouteflika juntou-se aos 19 anos à rebelião contra o regime francês como protegido de Houari Boumediene, comandante que depois se tornou presidente do país. Após a independência, Bouteflika foi nomeado ministro da juventude e turismo, aos 25 anos. No ano seguinte ocupou o cargo de chanceler.

O presidente argelino lutou na Guerra de 1954 a 1962 pela independência da Argélia e o fim do regime colonial francês. Foi o chanceler do país já independente e uma das forças por trás do Movimento dos Não Alinhados que se tornou a voz global da África, Ásia e América Latina. Ele respaldou os Estados pós-coloniais, contestou o que considerava hegemonia dos Estados Unidos e ajudou a tornar seu país um embrião do idealismo da década de 1960.

Bouteflika recebeu Che Guevara e o jovem Nelson Mandela fez seu primeiro treinamento militar na Argélia. O líder do movimento dos Panteras Negras, Eldridge Cleaver, fugindo da polícia dos Estados Unidos, buscou asilo no país. Cleaver se refugiou em Argel com Timothy Leary, o guru da contracultura nos EUA e defensor do uso de drogas.

Ao presidir a Assembleia-Geral das Nações Unidas, Bouteflika convidou Yasser Arafat para discursar na organização em 1974, um passo histórico para o reconhecimento internacional da causa palestina. O convite feito foi controvertido. Apenas dois anos antes, atiradores palestinos haviam sequestrado e assassinado membros da equipe israelense nos Jogos Olímpicos em Munique. 

No final da década de 1970, ele perdeu apoio no seu país e se exilou. Retornou à vida pública quando a Argélia estava assolada por um conflito com militantes islamistas que matou 200 mil. Eleito presidente pela primeira vez em 1999, negociou uma trégua para pôr fim aos combates.

Ajudada pelas receitas de gás e petróleo, a Argélia se tornou mais pacífica e rica. Mas continuou envolta na corrupção, em uma região onde insurreições provocaram mudanças. Com uma boa base de reservas estrangeiras e uma população receosa de grandes conflitos depois da guerra civil, a Argélia se esquivou das revoluções da Primavera Árabe que derrubaram líderes por toda a região em 2011.

Ainda assim, protestos contra o medíocre padrão de vida, a falta de oportunidades de emprego e serviços eram constantes mesmo antes das atuais manifestações em massa. Bouteflika foi reeleito em 2004 e depois em 2009, embora seus oponentes afirmem que as eleições foram fraudadas. Em um discurso, Bouteflika afirmou que estava na hora da sua geração ceder o lugar para novos líderes. “Para nós, acabou”, disse ele. O discurso foi feito em 2012. / REUTERS, TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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