Após 4 anos de ocupação, governo é fraco e violência cresce

Há quatro anos, a estátua de Saddam Hussein foi abaixo na praça Firdus, em Bagdá. Aquele momento Kodak, fotogênico, porém, não teve o impacto icônico da derrubada do muro de Berlim. A velha ordem caiu como resultado da invasão desfechada pelos americanos. O que subiu no lugar? As conseqüências foram desastrosas, embora não haja um sentimento avassalador de nostalgia pela velha ordem. Saddam morreu e a estátua jamais será reconstruída. Hoje o Iraque é governado de forma precária pela coalizão chefiada pelo primeiro-ministro xiita Nuri al-Maliki e a violência sectária se agravou, em parte devido à incompetente ocupação americana, mas também em razão da ausência de um "homem forte" no poder, como Saddam Hussein.Nos tempos do ex-presidente, a violência era basicamente direcionada contra segmentos da população iraquiana, como xiitas e curdos, e não tinha lugar entre grupos sectários. O terror jihadista hoje é um fato hediondo, ironicamente insuflado pela ocupação americana enquanto há pouco mais de quatro anos fora um dos falsos pretextos para a invasão.Rebeldes democratasNão existe gratidão. Ao contrário do que apregoara o vice-presidente americano Dick Cheney, as tropas americanas não foram recebidas como "libertadoras". Na segunda-feira, inclusive, no quarto aniversário da "libertação" de Bagdá, dezenas de milhares de iraquianos marcharam pelas ruas das duas cidades santas xiitas para exigir a retirada dos "ocupantes" americanos.A conclamação foi feita pelo radical clérigo xiita Muqtada al-Sadr, que mais uma vez provou ser uma figura influente no cenário iraquiano.Dentro dos Estados Unidos existe resistência crescente ao projeto iraquiano do governo Bush. Mesmo assim o presidente foi adiante com a escalada da guerra, enviando mais tropas ao país neste começo de 2007. O presidente se insurgiu contra a vontade dos eleitores americanos (ilustrada pela perda do Congresso pelos republicanos em novembro).Os rebeldes democratas, no entanto, não sabem exatamente o que fazer com o governo rebelde. Na Câmara e no Senado, os democratas aprovaram resoluções para a retirada das tropas americanas do Iraque em 2008, mas é um jogo de cartas marcadas porque elas serão fulminadas pelo veto presidencial. Ademais, o partido está dividido sobre propostas radicais, como cortes de fundos militares.Desde a escalada militar americana no Iraque, o número de mortes não baixou de forma significativa - em grande parte devido a atentados suicidas. É verdade que partes de Bagdá estão mais calmas, mas a capital está distante da meta de se tornar uma ilha de estabilidade.O governo Bush pede paciência. A resposta é ambivalência. Pesquisas tanto nos EUA como no Iraque mostram um dado interessante. Entre os americanos, uma vasta maioria quer a retirada das tropas do país do Iraque, mas apenas a minoria deseja que isto aconteça de forma imediata. O mesmo ocorre dentro do Iraque.Desolador O cenário é simplesmente desolador. Existe o fato inquestionável de que os americanos fracassaram no seu projeto. Ele malograram nas tarefas de segurança e de reconstrução. Bush hoje é prisioneiro de um argumento razoável. As coisas vão mal, mas uma retirada americana será devastadora. Uma guerra civil que ainda é de baixa intensidade provavelmente irá se converter em um conflito escancarado.Noah Feldman, um professor da New York University que teve papel de assessor no começo da ocupação americana em 2003, tem o seguinte raciocínio em razão do quadro de ambivalência: apesar de clamores dentro do Iraque e da resistência popular nos EUA, as tropas americanas ficarão por tempo indefinido no cenário iraquiano.Mesmo os democratas ressalvam que é preciso manter forças no Iraque com o objetivo de combater extremistas jihadistas de organizações como Al-Qaeda na Mesopotâmia. Feldman argumenta que a despeito de toda a conversa sobre retirada talvez não haja uma redução significativa do nível de tropas americanas no Iraque mesmo com a eleição de um presidente democrata em 2008. Para Feldman, no final das contas, o Iraque será mesmo uma frente decisiva na chamada guerra contra o terror. Bush arrastou os americanos e o resto do mundo para a armadilha. É argumento para reflexão. De resto, parabéns pelo quarto aniversário da ausência daquela estátua na praça Firdus.

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