Após 4 dias de repressão militar e mil mortes, islamistas recuam no Egito

Protestos da Irmandade Muçulmana que deveriam marcar o início da ‘Semana do Fim do Golpe’ fracassam no Cairo; União Europeia promete rever ajuda ao país

Agência Estado

18 Agosto 2013 | 12h00

Andrei Netto

ENVIADO ESPECIAL / CAIRO

As marchas convocadas pela Irmandade Muçulmana para ontem, no Cairo, tiveram baixa adesão. Foi o primeiro fracasso de mobilização da entidade islamista desde que o governo interino pôs fim aos acampamentos que o grupo organizou na capital egípcia exigindo a restituição do presidente Mohamed Morsi, deposto em 3 de julho por militares. As desocupações foram seguidas por massacres que já mataram mil pessoas.

As passeatas marcadas para ontem deveriam partir de diferentes mesquitas do Cairo e sua periferia em direção à sede da Suprema Corte Constitucional, mas foram bloqueadas pelo Exército.

No final do dia, a polícia matou 36 islamistas detidos nos últimos dias. Segundo as autoridades do governo interino, policiais atacaram os presos para salvar um de seus agentes, que teria sido capturado pelos detentos transportados em um caminhão. A polícia afirmou que disparou gás lacrimogêneo contra o veículo - que compunha um comboio que transferia 600 detidos para a prisão de Abu Zaabal, no norte do Cairo - e as mortes ocorreram por asfixia. As informações não puderam ser confirmadas de forma independente.

O dia no Cairo, porém, foi de relativa normalidade. Depois da sexta-feira em que 175 pessoas morreram no Egito, após protestos na Praça Ramsés, e de um sábado no qual o centro da capital foi sitiado por uma intensa troca de tiros em frente à Mesquita de Al-Fath, o domingo deveria ser marcado por passeatas. Em comunicado, a Irmandade Muçulmana previa dar início à sua "Semana do Fim do Golpe", com caminhadas após a oração das 16 horas.

Nas mesquitas e nas ruas, porém, o movimento de islamistas foi fraco. A porta-voz da Coalizão Antigolpe, Yasmine Adel, afirmou que as manifestações tiveram de ser canceladas por "razões de segurança". Quando o comunicado foi emitido, poucas centenas de manifestantes se mobilizavam nas imediações da Suprema Corte Constitucional, que estava isolada por militares e carros blindados. Muitos deles admitiam que, desde os massacres da semana passada, o medo tomou muitos islamistas, que preferiram não sair às ruas. "É claro que estou com medo depois do que aconteceu, mas agora quero ainda mais lutar por justiça", afirmou aos gritos a professora de inglês Hend Ahmed, de 30 anos. "Esses militares malditos acham que vão nos calar? Não vão."

O bancário Hani Sel, de 33 anos, confirmou que o medo de represálias é crescente entre os partidários e os membros da Irmandade Muçulmana. "O Exército está usando munição real e atiradores de elite contra seu próprio povo", disse. Como Sel, Suzi al-Nahas, dona de uma consultoria, esperava por manifestantes que foram impedidos de se juntar ao protesto.

O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, o general Abdel Fatah al-Sisi, alertou que o governo interino "não vai se dobrar" aos islamistas. Ahmed al-Tayyeb, xeque de Al-Azhar, a maior instituição do mundo islâmico sunita, pediu a abertura de diálogo entre as partes. "A violência não vai levar a nada", afirmou o religioso, que apoiou o golpe em 3 de julho.

Europa. No Ocidente, a pressão sobre o governo golpista do Egito continua crescendo. Ontem, o presidente da União Europeia, Herman van Rompuy, informou que chanceleres do bloco vão se reunir para "revisar as relações" com o país árabe. "Os pedidos de democracia e de liberdades fundamentais não podem ser ignorados." / COM AP

 

 

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