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Após 50 anos, documentos apontam ordem de Nixon para derrubar Allende no Chile

Memorando de Richard Helms sobre a conversa com Nixon continua sendo o único registro de um presidente americano ordenando um golpe secreto para derrotar um líder eleito, ressalta o grupo de estudos National Security Archive

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2020 | 20h38

WASHINGTON - Em 15 de setembro de 1970, durante uma reunião de 20 minutos, o então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, deu ordem para impedir que o líder socialista eleito do Chile, Salvador Allende, assumisse o poder, segundo documentos publicados nesta terça-feira, 15, pelo National Security Archive.

A opção extrema: derrubar Allende é o título deste conjunto de relatórios que tiveram o sigilo retirado e são o anexo de um estudo de segurança nacional que analisou vantagens e desvantagens de um golpe militar no Chile. 

Esse "roteiro", que terminou com o golpe de 11 de setembro de 1973, foi concluído em meados de agosto de 1970, ou seja, antes do triunfo eleitoral de Allende. 

O arquivo inclui memorandos dos funcionários envolvidos, incluindo o então diretor da CIA (Agência de Inteligência Americana), Richard Helms. "O memorando enigmático de Helms sobre a conversa com Nixon continua sendo o único registro de um presidente americano ordenando um golpe secreto para derrotar um líder eleito", ressaltou o grupo de estudos com sede em Washington. 

Documentos selecionados antes da reunião traçam a "gênese desta diretriz presidencial". "Esses documentos traçam um roteiro para o golpe planejado pelos Estados Unidos”, explicou Peter Kornbluh, que dirige o projeto de documentação no Chile e é o autor do livro Pinochet: Os Arquivos Secretos

Segundo o pesquisador, a reunião de 15 de setembro no Salão Oval marca "o primeiro grande passo para minar a democracia no Chile e apoiar o dvento de uma ditadura militar".

Oposição no Departamento de Estado

Após a eleição de Allende, em 4 de setembro de 1970, os Estados Unidos debateram entre dois cenários "a fórmula Frei", que contava com o ex-presidente do Chile Eduardo Frei "para dar conta do golpe". Essa possibilidade foi descartada depois que a embaixada e a CIA concluíram que não poderiam contar com Frei.

De acordo com o National Security Archive, a alternativa foi a "fórmula do caos", com objetivo criar um "clima de golpe" para dar aos militares o pretexto de tomar o poder. "Um número significativo de agentes da CIA, embaixadas e funcionários do Departamento de Estado" se opôs aos planos, observou o National Security Archive. 

O plano chegou a ser considerado "pouco realista, sujeito ao fracasso e diplomaticamente perigoso, observando que os riscos de exposição superariam os ganhos potenciais para os interesses dos EUA". 

A divisão latino-americana do Departamento de Estado se opôs formalmente à derrubada de Allende, declarando que "a exposição a um golpe malsucedido implicaria um custo proibitivamente alto para as relações com o Chile, com o hemisfério e com o restante do mundo". 

Até mesmo os assessores do conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Henry Kissinger, expressaram relutância. 

O embaixador dos EUA em Santiago, Edward Korry, advertiu que estava "convencido" de que os EUA poderiam provocar um golpe, mas que não se deveria correr o risco de ter "outra Baía dos Porcos", em referência à fracassada invasão de Cuba.  "O que estamos propondo é uma violação flagrante de nossos próprios princípios", disse o vice de Kissinger, Viron Vaky. 

Kornbluh disse à agência France-Presse que "esses documentos fornecem um rastro de papel cumulativo que expõe uma das operações mais vergonhosas e desacreditadas nos anais da política externa dos EUA, a promoção de um golpe de Estado preventivo no Chile". 

"Esses documentos são um lembrete nítido e doloroso de que tentar mudar o regime é um objetivo ilegítimo, custoso e contraproducente”, concluiu Kornbluh.

A derrubada de Allende, que morreu sitiado no Palácio La Moneda em chamas após os bombardeios da Força Aérea no dia do golpe, deu lugar a 17 anos de ditadura de Augusto Pinochet, que deixou mais de 3,2 mil mortos e desaparecidos./AFP

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