Após 6 meses, jornalistas são libertados na Síria A ARTE DE FAZER RIR EM MEIO A CONFLITOS

Ator e palhaço espanhol Iván Prado organiza festival circense em campos de refugiados

MADRI, LUIZ FERNANDO TOLEDO, MADRI, LUIZ FERNANDO TOLEDO, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2014 | 02h05

Dois jornalistas espanhóis que ficaram reféns de um grupo ligado à Al-Qaeda durante seis meses foram libertados e voltaram ontem para Madri. O repórter Javier Espinosa, chefe do escritório do Oriente Médio do jornal El Mundo, e Ricardo Vilanova, fotógrafo freelancer, chegaram à capital espanhola em um jato executivo do governo espanhol menos de 24 horas depois de telefonar da Turquia dizendo que estavam livres e fora de perigo.

Espinosa e Vilanova foram raptados por militantes do Estado Islâmico do Iraque e do Levante em um posto de controle de Tal Abyad, na província oriental de Raqqa, em 16 de setembro. Os jornalistas, que cobriam com frequência na Síria a disputa entre o presidente Bashar Assad e os rebeldes que tentam derrubá-lo, estavam no caminho de volta para casa depois de duas semanas de trabalho.

Segundo organizações de defesa da imprensa, a Síria tornou-se o país mais perigoso no mundo para repórteres. / AP

O ator e palhaço espanhol Iván Prado faz rir quem não sorri há muito tempo. Ele é responsável pelo primeiro festival circense do mundo árabe, o Festiclown Palestina, que fez apresentações para refugiados em 2011 e terá uma segunda edição este ano. Como diretor do grupo Pallasos em Rebeldia, apresentou-se na Faixa de Gaza e testemunhou de perto bombardeios no Oriente Médio.

A coragem levou o artista a ser reconhecido internacionalmente em abril de 2010. Naquele ano, ele visitava Israel para organizar o evento e foi deportado pelo governo de Binyamin Netanyahu, após horas de interrogatório no aeroporto Ben Gurion, em Tel Aviv. O motivo alegado pelas autoridades foi "segurança nacional".

Em passagem pelo Brasil para participar da Semana do Circo, na cidade paulista de Votorantim, no último fim de semana, ele falou sobre o projeto. "Na Palestina, descobri o valor social e a função revolucionária que tem o palhaço, como defensor dos que mais sofrem", disse Prado ao Estado.

Na primeira edição do evento, 40 artistas se apresentaram para um público de 100 mil pessoas. "Com o circo, é possível construir ferramentas de defesa da liberdade", afirma.

A versão deste ano do Festiclown, em campos de refugiados palestinos e sírios, está prevista para ocorrer em outubro no Líbano. Ela seria realizada entre os dias 12 e 19 de janeiro, mas foi adiada em razão do atentado que matou o ex-ministro libanês Mohamad Chatah, crítico do grupo político Hezbollah e do ditador Bashar Assad.

Memórias. Prado lembra que em 2003, durante um espetáculo do projeto Palhaços Sem Fronteiras, num campo de refugiados da Faixa de Gaza, teve início um bombardeiro. As crianças começaram a bater palmas e a cantar alto "para que os palhaços não tivessem medo e continuassem o show", relata.

No Brasil, em 2012, o artista também levou humor à população do Complexo do Alemão, distribuindo pistolas d'água. Pouco tempo antes, a favela havia passado por mais um conflito entre policiais militares e traficantes.

Prado, que optou pelo trabalho ao redor do mundo depois de consolidar sua carreira em reconhecidos grupos de teatro, diz não se arrepender da decisão. "Não encontrei melhor público do que essas pessoas que estão lutando pela vida diariamente."

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