Após 64 anos, Alemanha absolve 10 mil soldados que traíram Hitler

Para Ludwig Baumann, militar que desertou do Exército alemão, decisão enterra o último tabu da 2.ª Guerra

Jamil Chade, GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

15 de agosto de 2009 | 00h00

Em 1942, o jovem soldado alemão Ludwig Baumann decidiu que não queria mais fazer parte do massacre que Adolf Hitler estava promovendo pela Europa. Decidiu desertar. Mas foi pego e acabou condenado por trair a Alemanha. Este mês, no entanto, ele e milhares de outros "traidores" serão finalmente absolvidos pelo crime de ter abandonado a luta. Nesta semana, o Bundestag - o Parlamento alemão - acabará com o que está sendo chamado de o último tabu da 2ª Guerra: a reabilitação dos soldados alemães que desertaram e foram julgados por traição. No total, 30 mil jovens alemães abandonaram os campos de guerra nos anos 40. Cerca de 20 mil deles foram fuzilados por ordens da Justiça Militar nazista, que os acusaram de favorecer as tropas aliadas ou de servir como informantes. Baumann, hoje com 87 anos, faz parte dos 10 mil soldados que, quase por milagre, escaparam da morte, seja nas trincheiras ou fuzilados após serem condenados. "Eu não queria matar ninguém. Nunca tive qualquer simpatia pelo que estávamos fazendo", afirmou Baumann, em entrevista por telefone ao Estado, de sua casa em Bremen, na Alemanha. Por mais de 60 anos, Baumann foi considerado uma espécie de pária na sociedade alemã. Agora, ele está se preparando para o grande dia de sua "absolvição simbólica". O debate sobre os desertores foi um tema sensível na Alemanha por décadas. Setores ligados ao Exército temiam que uma reabilitação desses soldados transmitisse um recado errado para a tropa atual, além de acabar qualificando como criminosos os juízes que decretaram a pena contra Baumann e outros 30 mil homens. "Esse é o último grande tabu da guerra", disse Baumann, que hoje lidera a associação de vítimas dos tribunais militares nazistas. ENTRAVESO primeiro passo para anular as sentenças nos tribunais militares na Alemanha foi dado em 1998, com a absolvição de qualquer pessoa condenada por razões políticas, militares, racistas, religiosas e ideológicas. Mas os desertores e traidores não foram contemplados.Em 2002, uma lei reabilitou os desertores que não haviam sido julgados. Mas todos aqueles que foram condenados por "traição de guerra" continuaram sendo criminosos do ponto de vista jurídico. Na prática, contudo, a nova lei não tinha efeito, já que praticamente todos os desertores foram qualificados como traidores pelos tribunais militares nos anos 40. Há três anos, a ministra da Justiça alemã, Brigitte Zypries, tentou dar uma explicação sobre o motivo pelo qual esses alemães não poderiam ser "perdoados": os soldados que traíram não poderiam ser absolvidos porque prejudicaram outros soldados alemães.Foi apenas neste ano que o projeto de lei avançou. Até junho, parte do partido União Democrática Cristã (CDU), da chanceler Angela Merkel, ainda se opunha à reabilitação dos traidores. Mas, isolado e diante da pressão da opinião pública, o partido cedeu e aprovou a lei. O principal argumento dos historiadores que defendem a absolvição dos desertores é o de que muitas das condenações por traição e milhares de fuzilamentos ocorreram de forma indiscriminada. "Hoje, estamos restaurando parte da dignidade dessas pessoas. Muitos já morreram, mas suas famílias podem tirar um peso das costas", disse Baumann.ORQUESTRA VERMELHAO maior temor do Exército era a Rote Kapelle (Orquestra Vermelha), nome dado pela Gestapo a um grupo de espionagem soviético que agia na Europa ocupada pelos nazistas e na Suíça durante a 2ª Guerra. A organização começou a ganhar adeptos, dentro e fora do Exército, em um movimento de oposição a Hitler. No fim de 1943, 150 membros do grupo foram mortos por defender o fim imediato do conflito. Baumann admite que muitos dos desertores de fato passaram informações fundamentais para os americanos e para o Kremlin. "Não porque queríamos a morte de nossos companheiros. Só queríamos que a Alemanha se desse conta de que era preciso acabar com o massacre", disse o alemão.Ao explicar o por quê de ter abandonado o Exército, Baumann diz que fugiu simplesmente para não morrer. "Nunca concordei com o que ocorria no campo de batalha. Eu me perguntava todos os dias sobre qual seria o destino das famílias dos lugares que nós ocupávamos", afirmou. Sua fuga ocorreu em Bordeaux, cidade no sul da França, que era ocupada pelos nazistas em 1942. Baumann e seus companheiros mais próximos no quartel conversaram e decidiram que era hora de desertar.A ideia era bastante ambiciosa: eles fugiriam para a parte da França que não estava ocupada e, de lá, para o Norte da África. O passo seguinte seria chegar aos EUA. Baumann conta que teve a ajuda da Resistência Francesa, mas que antes de chegar à França não ocupada foram capturados pelos nazistas. "Fomos torturados e levados a julgamento. Em 40 minutos, a corte militar decretou a sentença de morte", disse. O alemão só não foi executado imediatamente porque seu pai tinha contatos no governo.O ex-militar foi, então, levado para um presídio, onde permaneceu até 1944. Sua saga, no entanto, não terminou aí. Como não sabia que seu fuzilamento havia sido adiado, tentou fugir novamente. A ideia era promover um motim geral, com soldados espanhóis comunistas que haviam sido capturados e estavam na mesma prisão. Mas o plano fracassou. Todos os espanhóis foram mortos. Baumann, mais uma vez, sobreviveu. A punição que ele recebeu pela tentativa de fuga foi ser enviado para combater no front soviético. A missão era considerada uma sentença de morte. Sua única escolha foi se ferir de forma tão grave que o Exército alemão não teria nenhuma outra alternativa a não ser enviá-lo de volta para casa, à espera do dia de sua execução. Mas a guerra terminou antes e ele sobreviveu novamente. "Muitos amigos meus e vários companheiros de combate morreram com o estigma de ter traído a nação alemã. Mas a Alemanha está admitindo seus erros e permitindo que mais um tabu da pior parte de nossa história seja quebrado", concluiu Baumann.

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