Após a queda de Ramadi, Obama analisa opções

EUA aceleraram o envio de armamento às forças iraquianas e estudam o uso de observadores na linha de frente para determinar alvos de bombardeios

KAREN DEYOUNG &, CAROL MORELLO, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2015 | 02h01

Enquanto milícias xiitas e forças de segurança iraquianas se concentram em Ramadi para lançar um contra-ataque contra o Estado Islâmico, que capturou a cidade iraquiana no fim de semana, o governo de Barack Obama debate o que o pode fazer para melhorar as chances de uma retomada do local.

Os Estados Unidos aceleraram o envio para as forças iraquianas de outras mil armas antitanque, iguais às que foram utilizadas com grande eficácia pelos peshmergas, combatentes curdos do norte do Iraque.

O primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi, solicitou mais mísseis de curto alcance, durante a visita que fez aos Estados Unidos no mês passado, para serem usados contra carros-bomba dos militantes. As armas devem chegar ao Iraque no início de junho.

Outras possíveis mudanças na atual estratégia do governo, incluindo o uso de observadores na linha de frente para auxiliar na determinação dos alvos dos ataques aéreos da coalizão, são mais problemáticas.

O presidente Barack Obama proibiu qualquer ação de combate pelos 3 mil soldados americanos encarregados de treinar e dar assistência no Iraque. As autoridades americanas disseram que a ordem abrange os centros conjuntos de controle de ataques, que transmitem informações em tempo real para aviões próximos.

Embora os caças americanos tenham realizado inúmeros bombardeios perto de Ramadi nas últimas semanas, seus esforços foram dificultados em razão da falta de informações sobre alvos com precisão imediata. Para uma maior eficácia dos ataques futuros são necessários observadores em campo.

Na ausência de observadores americanos, iraquianos vêm sendo treinados para atuar nessa posição, mas a preocupação é a de que eles poderão não estar suficientemente preparados para surtir efeito, em Ramadi e em outras áreas do Iraque.

Em janeiro, o Canadá informou que suas forças de operações especiais que participam da coalizão foram colocadas em posições de observação na linha de frente das forças iraquianas e trocaram tiros com combatentes do Estado Islâmico (EI).

A análise em alto nível das opções dos Estados Unidos foi iniciada diante das críticas republicanas às estratégias adotadas pelo governo no Iraque, que afirmam que a derrota em Ramadi é resultado da fraqueza e indecisão de Obama.

O senador John McCain, presidente da Comissão de Serviços Armados, disse no plenário do Senado que "é preciso levar os líderes americanos a reconsiderar uma política e estratégia indecisas, que pouco colaboraram para reverter os avanços do Estado Islâmico no Iraque e na Síria.

O governo alega que os problemas do Iraque têm origem nos erros cometidos pelo antecessor de Obama, o presidente George W. Bush, com a invasão do Iraque em 2003, que criou um vazio de poder no país e permitiu à Al-Qaeda ganhar um ponto de apoio hoje explorado pelo Estado Islâmico.

Mas os republicanos tentam mudar a direção do debate e afirmam que Bush acabou revertendo sua estratégia e enviou forças adicionais para o Iraque. "Bush cometeu erros, mas os consertou depois", disse o senador republicano Lindsey Graham, da Carolina do Sul, que está pensando em disputar a vaga de candidato do Partido Republicano à presidência em 2016.

"Precisamos de mais americanos em campo para ajudar (os iraquianos) e mudar o rumo da batalha antes de o EI ficar ainda mais forte e nos atacar aqui", afirmou Graham.

Numa reunião de informação para jornalistas na quarta-feira, um funcionário do Departamento de Estado afirmou que, como parte da ofensiva iniciada no fim da semana passada, os militantes explodiram 30 carros-bomba no centro da cidade num prazo de 96 horas. Em alguns casos os veículos envolvidos eram caminhões basculantes blindados, retroescavadeiras e Humvees resistentes às armas defensivas iraquianas.

"Estamos ainda juntando os elementos para saber o que ocorreu exatamente" com a retirada das forças iraquianas, disse o funcionário.

Mas ele acrescentou que a situação na cidade não é tão grave como foi a captura de Mossul no ano passado pelo EI, quando soldados e policiais iraquianos treinados pelos Estados Unidos abandonaram seus postos e tiraram o uniforme antes de fugir. Agora, depois de serem expulsas de Ramadi, as forças governamentais se retiraram para três pontos para se concentrarem, se reagruparem e se reequiparem, disse ele, e as autoridades americanas estão trabalhando ininterruptamente para lhes dar ajuda.

O coronel Pat Ryder, porta-voz do Comando Central americano, disse a jornalistas numa reunião de informação no Pentágono que as forças iraquianas retomarão a cidade, mas não revelou data de uma ofensiva.

Por outro lado, segundo o funcionário do Departamento de Estado, a força aérea da coalizão realizou ataques na quarta-feira em Ramadi, onde as ruas estavam totalmente desertas e os pilotos vêm trabalhando para impedir que o EI estabeleça posições de defesa dentro e em torno da cidade.

O funcionário elogiou a resposta do premiê Abadi e sua decisão de armar e treinar combatentes de tribos sunitas na Província de Anbar, cuja capital é Ramadi.

A pedido do conselho da província, Abadi enviou milhares de milícias xiitas para um ponto de mobilização entre Ramadi e Falluja, a 80 quilômetros de Bagdá, que também está em poder do Estado Islâmico.

As autoridades insistiram que as milícias xiitas, que enfrentaram resistência das tribos sunitas na Província de Anbar, ficarão sob o comando do Exército iraquiano. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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