ABC/AP
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Após acordo na Síria, Obama repete ameaça de ataque americano ao Irã

Presidente dos Estados Unidos diz que questão nuclear iraniana é ‘muito maior’ do que problema do arsenal químico de Bashar Assad, pede confiança aos aliados da região e minimiza influência da Rússia nas negociações que evitaram ação militar

Cláudia Trevisan, Correspondente

15 Setembro 2013 | 21h50

O acordo diplomático que evitou um ataque dos Estados Unidos à Síria não sinaliza que esteja afastada a possibilidade de uma ação militar para impedir que o Irã obtenha armas nucleares, afirmou neste domingo o presidente Barack Obama. "Os iranianos não devem concluir que porque nós não atacamos nós não vamos atacar o Irã."

Segundo o presidente, a questão nuclear é "muito maior" para os EUA do que o problema de armas químicas na Síria e está muito mais próxima dos interesses estratégicos dos americanos no Oriente Médio, na medida em que representa uma ameaça direta a Israel.

"Uma corrida nuclear na região é algo que seria profundamente desestabilizador", disse Obama em entrevista à rede de TV ABC.

Além de Teerã, a advertência também tem por alvo os aliados americanos no Oriente Médio, abalados pela maneira errática com que Obama administrou a crise com a Síria. Depois de recuar duas vezes da ameaça de atacar as forças de Bashar Assad, o presidente foi salvo por Vladimir Putin de uma provável derrota humilhante no Congresso em seu pedido de autorização para agir contra a Síria.

"Aliados dos EUA estão alarmados pelas súbitas mudanças na política americana e vão questionar o grau de comprometimento dos EUA com a sua segurança", avaliou Ayham Kamel, analista de Oriente Médio do Eurasia Group.

Para John Judis, editor sênior da revista New Republic, o pacto alcançado entre russos e norte-americanos no sábado para destruição do arsenal químico de Assad poderá ofuscar as "trapalhadas" que o antecederam. "O acordo é uma conquista significativa", ponderou Judis, que também é acadêmico visitante do Carnegie Endowment for International Peace.

Pesquisa realizada em Israel na quarta-feira, antes do anúncio do acordo, mostrou que 67% dos entrevistados avaliaram como malsucedida a maneira pela qual Obama administrou a crise. Para 48%, Putin foi o grande vencedor do confronto, seguido por Assad (29%). E 76% disseram não acreditar que o regime sírio abrirá mão de suas armas químicas.

Obama refutou as críticas neste domingo e disse que está menos preocupado com estilo do que com a obtenção de resultados, que ele acredita terem sido alcançados pelo acordo negociado entre o secretário de Estado, John Kerry, e o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov. Kerry chegou neste domingo a Israel para uma conversa com o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu.

O presidente também minimizou o fato de que Putin foi o protagonista da iniciativa que levou à saída diplomática. "Isso não é a Guerra Fria. Isso não é uma competição entre os EUA e a Rússia. Se a Rússia quiser ter alguma influência na Síria pós-Assad, isso não prejudica nossos interesses", declarou Obama, pressupondo como inevitável a queda do regime.

Mas esse cenário parece ter sido dificultado pelo pacto anunciado no sábado, que representou um golpe para a oposição. Os rebeldes contavam com os ataques americanos para ganhar terreno na luta. "Os únicos perdedores nessa negociação são provavelmente os rebeldes", opinou Judis.

Apesar de Obama continuar a desejar sua saída, é inegável que Assad saiu fortalecido da crise, que o transformou em interlocutor da comunidade internacional na busca de uma solução negociada para a guerra civil e a questão de armas químicas.

Durante a entrevista, o presidente ressaltou que os EUA querem ver uma Síria "estável" e que isso será improvável com a permanência de Assad no poder. "É difícil imaginar como o sr. Assad vai retomar qualquer legitimidade depois de ele – ou o seu Exército – intoxicar com gás civis e crianças inocentes."

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