BRITTANY HOSEA-SMALL/REUTERS
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Após ajudar tropas estrangeiras, tradutor afegão inicia vida na Califórnia

Potenciais alvos do Taleban, alguns afegãos estão recebendo vistos especiais de imigrante do governo americano

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2021 | 05h00

SACRAMENTO, EUA - Foi uma reunião agridoce nos EUA para dois irmãos afegãos que fugiram da violência e das ameaças em seu país. Sayed Abdul Wase Majidi, cujo trabalho como tradutor para os militares dos EUA poderia torná-lo um alvo do Taleban, pousou na semana passada no aeroporto de Sacramento, capital da Califórnia. Ele concluiu a viagem depois de ser retirado de Cabul e passar por um processo oficial do governo americano em Fort Lee, uma base militar no Estado da Virgínia. Ele deixou para trás sua mãe, um irmão e dois sobrinhos.

Majidi estava entre 200 afegãos que os EUA retiraram de seu país na semana passada em um esforço para proteger tradutores e outros que correm o risco de retaliação do Taleban porque eles ou seus parentes ajudaram os militares americanos na campanha de 20 anos que se aproxima do fim.

O tradutor foi recebido na quinta-feira por outro irmão, Sayad Khalil Majidi, que chegou a Sacramento há dois anos. Sayad Majidi, que é o irmão mais velho, disse que já foi técnico para a Tolo TV do Afeganistão, a maior rede privada do país.

Ele fugiu, primeiro, para a Turquia, depois que um homem-bomba do Taleban bateu com o carro em um ônibus que transportava funcionários da Tolo em 2016, matando sete jornalistas. A milícia acusava a Tolo TV de produzir propaganda para os militares dos EUA e para o governo afegão apoiado pelo Ocidente. 

O Majidi mais velho olhou atentamente para a escada por onde os passageiros desciam. Quando o irmão mais novo finalmente chegou, eles se envolveram em um abraço modesto. Os dois filhos do irmão mais velho e de Mohammad Safa, um amigo de infância que também trabalhou como intérprete, logo se juntaram com saudações mais exuberantes. 

“Estou muito grato, mas infelizmente meu irmão e meus dois sobrinhos estão no Afeganistão. É muito preocupante”, disse Sayad Majidi, em uma entrevista por telefone. “Todas essas pessoas sabem que meu irmão estava trabalhando com os EUA como um tradutor. As pessoas que trabalharam para o Exército dos EUA e de outros países, como o Reino Unido, estão em perigo, assim como suas famílias.”

O Majidi mais jovem também expressou preocupação com os parentes que ficaram para trás, enquanto analisava seu futuro na região de Sacramento, lar de uma das maiores comunidades de expatriados afegãos. “Eu realmente tenho de encontrar um emprego”, disse ele, também por telefone. 

Quando jovem, Sayed e seus amigos passavam seu tempo em Cabul jogando futebol. Um dia, ele decidiu aceitar um dos poucos empregos disponíveis, como intérprete para os americanos. “Quando nos formamos na escola, não tínhamos nada para fazer”, disse ele. “Eu trabalhava como intérprete. Nunca fui político ou membro de algum partido.”

Alguns afegãos como ele estão recebendo vistos especiais de imigrante (SIV), que permitem a eles levar seus parceiros e filhos para os EUA, mas não pais e irmãos. Sayed viajou sozinho.

Cerca de 50 mil podem ser retirados na Operação Refúgio dos Aliados, o transporte aéreo de candidatos ao SIV. O programa tem sido afetado por longos períodos de processamento e nós burocráticos que levaram a um acúmulo de cerca de 20 mil pedidos. O Departamento de Estado contratou funcionários para lidar com eles./REUTERS 

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