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Após alta na criminalidade, militares ganham protagonismo no Uruguai

Plebiscito em outubro definirá criação de força especial de 2 mil soldados para combater criminalidade comum, ampliação de penas e autorização de ação policial noturna em residências, que não ocorre desde o fim da ditadura, há 35 anos

Carlos Tapia,  ESPECIAL PARA O ESTADO / MONTEVIDÉU, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2019 | 05h00

O desgaste de 15 anos de governos de centro-esquerda da Frente Ampla e um aumento da sensação de insegurança fizeram os militares uruguaios assumirem um protagonismo que não tinham desde o fim da ditadura, há 35 anos. 

Segundo pesquisa divulgada esta semana, os partidos de centro-direita – Nacional, Colorado e do Povo – somam 51% das intenções de voto. A Frente Ampla, conhecida por ter aprovado a legalização da maconha, do aborto e do casamento gay, tem 38%. As eleições estão marcadas para 27 de outubro. 

No mesmo dia, os uruguaios votarão em um plebiscito que decidirá se as Forças Armadas podem assumir o papel de polícia na luta contra o crime. A consulta foi promovida pelo senador Jorge Larrañaga, pré-candidato do Partido Nacional, que reuniu 400 mil assinaturas para convocar a votação – 130 mil a mais do que o necessário. 

Além de criar uma força especial de 2 mil homens, o projeto restabelece as ações policiais noturnas em residências – proibidas no Uruguai desde 1830, mas comuns na ditadura –, o fim da política de redução de penas para crimes graves, como estupro e homicídio, e a “prisão permanente revogável”, um eufemismo para prisão perpétua. 

Dados oficiais mostram um crescimento de 55,8% em assaltos à mão armada e de 66,4% nos homicídios no país entre agosto de 2017 e agosto de 2018. Segundo estudo da Fundação Propostas (Fundapro), ligada ao Partido Colorado, a taxa de homicídios é de 11 por 100 mil habitantes ao ano, superior à de Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Paraguai e Peru. O país está longe de estar entre os mais violentos do mundo, mas a sete meses da eleição, segundo pesquisas, 70% dos uruguaios dizem que a insegurança é o maior problema.

“No Uruguai, as penas não são cumpridas. Veja o exemplo deste assassino de três mulheres. Ele foi condenado a 30 anos, mas saiu com 23. Isto não pode continuar”, disse Larrañaga ao Estado, em referência a Pablo Goncálves, primeiro serial killer no Uruguai, condenado em 1992 e libertado em 2016. 

O senador Luis Lacalle Pou, maior rival de Larrañaga dentro do Partido Nacional e líder nas pesquisas, critica o projeto de usar militares no policiamento por “criar um duplo comando”. 

O plebiscito sobre o tema vem no momento em que representantes das Forças Armadas têm batido de frente com o governo. Em setembro, o comandante-chefe do Exército, o general Guido Manini Ríos, foi preso por 30 dias por criticar a reforma das pensões militares feita pela Frente Ampla. Dias depois, o chefe do Estado-Maior, Marcelo Montaner, também foi punido por mandar a banda militar executar A Marcha das Três Árvores, historicamente ligada ao Partido Nacional. 

Curiosamente, o poder dos militares cresceu no governo de José Mujica, que colocou no Ministério da Defesa seu ex-companheiro de guerrilha, Eleuterio Fernández Huidobro, para conviver com um general conservador como Manini Ríos. “Foi um erro”, diz o historiador Gerardo Caetano.

Além do plebiscito de Larrañaga, outros políticos uruguaios também propõem medidas que dão mais poder aos militares. Verónica Alonso, também pré-candidata do Partido Nacional, quer que o Ministério da Defesa chefie as cadeias. Lacalle Pou defendeu que a pasta tenha papel maior na educação, com a abertura de novas escolas militares. Edgardo Novick, do Partido do Povo, prometeu que Manini Ríos será seu ministro da Defesa. 

Segundo Eduardo Bottinelli, analista da consultoria Factum, a maior preocupação dos uruguaios deixou de ser pobreza, inflação ou desemprego, e passou a ser a segurança pública. “Os uruguaios acham que as coisas hoje estão piores do que há 15 anos. Isso é um problema para o governo. E é por isso que surgem essas propostas de ampliar o papel dos militares”, disse.

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