Após ascensão do EI, mais de 20 mil morrem no Iraque

Segundo registro, mortes decorrentes de violência, em 15 meses, superam índice constatado em mais de 2 anos de conflito sectário

GUILHERME RUSSO, O Estado de S.Paulo

29 Março 2015 | 02h02

Nos 15 meses que se passaram desde o início da conquista de parte do Iraque pelos radicais sunitas do Estado Islâmico (EI), cerca de 20,7 mil pessoas morreram em razão de violência no país. O índice supera as mortes registradas nos mais de dois anos entre a retirada dos EUA do Iraque, em dezembro de 2011, e a ascensão dos extremistas na Província de Anbar, em janeiro de 2014 - período em que 14,3 mil pessoas foram mortas no país.

Os dados são do Iraq Body Count, entidade que compila informações sobre mortes violentas no território iraquiano desde a invasão americana, em 2003. A retirada dos EUA do Iraque ocasionou uma acentuada elevação no conflito sectário iraquiano entre sunitas e xiitas.

O EI, segundo o historiador americano Juan Cole, especialista em Oriente Médio da Universidade de Michigan, tirou vantagem dessa situação para engrossar suas fileiras, pois cooptou apoio de sunitas moderados que tinham fugido de Bagdá para localidades de predominância de sua seita no norte do Iraque. Nessa região, os radicais conquistaram, em junho, importantes cidades, como Mossul, a segunda maior do país, e Tikrit, cujo controle é disputado por forças do governo xiita e os fundamentalistas da facção rival.

O analista explicou que a fuga de sunitas de Bagdá começou em 2007, quando o general americano David Petraeus assumiu o comando das forças internacionais que controlavam o Iraque após a deposição de Saddam Hussein, sunita secular cujas políticas perseguiram xiitas e curdos.

Segundo o especialista, o comandante americano chegou ao Iraque com a intenção de desarmar as milícias xiitas e os radicais sunitas da Al-Qaeda na Mesopotâmia - grupo que originou o EI. No entanto, concordou com a proposta do então primeiro-ministro, Nuri al-Maliki, xiita, em desarmar primeiramente os sunitas.

"Em 2003, Bagdá era 55% xiita e 45% sunita. Então, os árabes sunitas da capital sofreram uma limpeza sectária. Muitos foram forçados a fugir, como resultado das políticas americanas - se você desarma primeiro os sunitas, eles serão expulsos ou mortos. Petraeus pode não ter tido essa intenção, mas foi isso que ocorreu. Bagdá hoje é uma cidade 85% xiita", disse. "O conflito sectário, entre 2011 e 2014, foi motivado por uma frustração por parte dos árabes sunitas do Iraque, que aparentavam estar excluídos do poder. Eles se sentiam vencedores da eleição parlamentar de 2010, porque o Partido Iraqiya foi o mais votado, mas foi incapaz de formar uma coalizão para governar."

Na ocasião, diante da incapacidade do partido vencedor de compor aliança de governo, a Justiça iraquiana decidiu permitir que os partidos xiitas formassem uma coalizão para governar - liderada por Maliki, que continuou premiê. Estava convencionado que o premiê iraquiano seria xiita, o presidente, curdo, e o vice-presidente, sunita. "Os sunitas sentiam que nunca lhes seria permitido ter um primeiro-ministro - e estavam acostumados a estar no poder. O EI tirou vantagem dessa frustração."

Segundo Cole, "muitos árabes sunitas do Iraque são pessoas com pensamento muito secular". "Uma pesquisa mostrou que 75% deles, em 2012, afirmavam que deveria haver uma separação entre religião e Estado. Mas, enquanto eles foram mantidos fora da estrutura de poder e sofreram discriminação dos partidos xiitas, alguns começaram a se converter ao Islã radical e outros, que continuaram seculares, começaram a preferir os sunitas radicais em detrimento do que eles viam como radicais xiitas pró-Irã."

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