Clemens Bilan/EFE/EPA
Clemens Bilan/EFE/EPA

Após ataque a professor, autoridades da França fecham mesquita perto de Paris

Samuel Paty foi decapitado após mostrar caricaturas do profeta Maomé em sala de aula

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2020 | 22h18

PARIS - As autoridades francesas fecharam nesta segunda-feira, 19, uma mesquita em Paris como parte da "guerra contra os inimigos da República", três dias após a decapitação do professor Samuel Paty.

A mesquita fechada, Pantin, fica no noroeste do país. O ministro do Interior, Gérald Darmanin, disse que o templo havia compartilhado um vídeo denunciando as aulas do professor em sua página oficial no Facebook. O diretor da mesquita também havia escrito na rede social que "este professor deveria ser intimidado", fornecendo "o endereço da escola".

Autoridades prenderam ao menos quinze pessoas sob suspeita de envolvimento no crime, incluindo quatro estudantes do ensino médio, informou uma fonte judicial. Entre os presos, está uma pessoa que "já foi condenada por terrorismo e declarou estar relacionada ao assassino muito antes do ocorrido", acrescentou.

Segundo uma fonte próxima ao caso, o professor decapitado foi "apontado" para o assassino, Abdullakh Anzarov, "por um ou vários estudantes do colégio, a priori em troca de um pagamento".

Anzorov, um russo da Chechênia de 18 anos, nascido em Moscou, foi morto por nove tiros da polícia pouco depois do crime. Os investigadores tentam descobrir se ele foi "liderado" por alguém ou se decidiu atacar o professor por conta própria.

O ministro do Interior também acusou o pai de uma estudante de Conflans Saint-Honorine e o militante islâmico radical Abdelhakim Sefrioui de terem "claramente emitido uma fatwa" contra Paty por ter mostrado caricaturas de Maomé nas aulas.

Os dois homens, que lançaram uma campanha de mobilização para denunciar a iniciativa do professor, estão entre os presos.

Os alvos da operação são "dezenas de indivíduos que não têm necessariamente um vínculo com a investigação", mas para quem o governo "obviamente quer enviar uma mensagem". 

Segundo uma fonte próxima ao caso, tratam-se de pessoas fichadas pelos serviços de inteligência por suas pregações radicais e mensagens de ódio nas redes sociais. 

Desde o assassinato de Samuel Paty, que ensinava História e Geografia em uma escola do ensino médio em Conflans-Sainte-Honorine, oeste de Paris, "mais de 80 investigações" foram abertas contra "todos aqueles que, de forma apologética, disseram de uma forma ou de outra que esse professor tinha buscado (o assassinato)", disse Darmanin.

"O medo mudará de lado"

O assassinato de Samuel Paty chocou a França. Milhares de pessoas se manifestaram no país no último domingo, 18, em defesa da liberdade de expressão e para dizer não ao "obscurantismo", enquanto o presidente Emmanuel Macron convocou um conselho de defesa à noite. 

Macron disse que "o medo mudará de lado". 

No final de uma reunião de duas horas e meia com o primeiro-ministro, Jean Castex, cinco ministros e o procurador antiterrorista Jean-François Richard, Macron anunciou um "plano de ação" contra "estruturas, associações ou pessoas próximas a círculos radicalizados" que propagam convocações ao ódio. 

Segundo o ministro do Interior, Gérald Darmanin, 51 associações "vão receber várias visitas dos serviços do Estado ao longo da semana e várias delas serão dissolvidas pelo Conselho de Ministros". 

O ministro quer, em particular, dissolver o Coletivo contra a Islamofobia na França (CCIF) - "um certo número de elementos nos levam a crer que é um inimigo da República" - assim como a associação humanitária Baraka City, fundada por muçulmanos da linha salafista.

O ministro da Justiça, Eric Dupond-Moretti, convocou com urgência os procuradores na manhã desta segunda-feira para, segundo o seu entorno, garantir "uma colaboração perfeita com os prefeitos e as forças de segurança interna na aplicação e seguimento das medidas exigidas pela situação".

A líder do partido de extrema direita Reunião Nacional, Marine Le Pen, pediu ao governo que promova uma "legislação de tempos de guerra" e deporte todos os estrangeiros detidos por terrorismo ou que façam parte das listas de pessoas radicalizadas.

O Parlamento Europeu fez um minuto de silêncio em sua sessão plenária desta segunda-feira, em homenagem a Samuel Paty.

"Nossos pensamentos estão com a família de Samuel Paty e seus entes queridos, e com todos os funcionários de educação na França e em todos os lugares", disse o presidente do Parlamento, David Sassoli, que acrescentou que "o terror se enfrenta com a educação, através da educação". /AFP

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