Jim Urquhart/REUTERS
Jim Urquhart/REUTERS

Após ataques ao Capitólio dos EUA, congressistas decidem quais cercas devem permanecer no local

Escolhas que serão feitas nos próximos meses poderão alterar a paisagem de Washington e tirar o sossego de visitantes que acessam edifícios públicos, parques e representantes eleitos

Marissa J. Lang, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2021 | 20h00

WASHINGTON - O homem armado que atropelou dois policiais na entrada do Capitólio dos Estados Unidos no início deste mês passou por uma via que tinha sido reaberta 12 dias antes, após ficar um mês interditada por razões de segurança.

A cerca de arame farpado que delineava um círculo em torno do Capitólio, da Suprema Corte e de edifícios do governo federal, isolando a área do restante da cidade, tinha sido encolhida para um pequeno perímetro em torno do Capitólio. Agentes da Guarda Nacional armados com fuzis, que por dois meses patrulharam a cerca, tinham aliviado a vigilância. Pela primeira vez em meses, ao que parecia, o clima na capital do país começava a acalmar.

Então, em 2 de abril, um carro avançou contra dois policiais do Capitólio, matando Billy Evans, 41 anos, que trabalhava havia 18 anos na corporação.

O motorista foi morto a tiros. Um alerta de emergência instruiu quem estava no Capitólio a “se proteger”, durante uma interdição que durou cerca de duas horas. Bandeiras foram baixadas a meio-mastro. A dor que se abateu sobre o Distrito de Colúmbia após a insurreição de 6 de janeiro voltou de repente, novamente cruel. Como um dedo na ferida.

O ataque mais recente reavivou o debate a respeito da melhor maneira de proteger a capital do país - seus edifícios, monumentos e congressistas - após um ano de protestos, eleições amargamente contestadas e dois ataques fatais contra o Capitólio em menos de três meses.

As decisões que congressistas e planejadores urbanísticos tomarão nos próximos meses a respeito de proteções usando cercas, barreiras e procedimentos de segurança poderão alterar a paisagem de Washington e tirar o sossego de visitantes que acessam edifícios públicos, parques e representantes eleitos.

“Um dos aspectos mais perturbadores das ações do Congresso em restringir acesso ao interior e ao entorno do complexo do Capitólio é que isso não envolve apenas seu lugar de trabalho - envolve também lugares onde vivem os habitantes de Washington”, afirmou  Scott Michelman, diretor jurídico da União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) do Distrito de Colúmbia. “É uma região em que as pessoas circulam, na qual elas convivem. É sua vizinhança.”

A questão do isolamento do Capitólio inspirou um séquito de políticos a se posicionar contra uma cerca permanente - da deputada federal de extrema direita Marjorie Taylor Greene, republicana da Geórgia, à delegada Eleanor Holmes Norton, congressista não votante pelo Distrito de Colúmbia.

“Washington não tem de ser desnecessariamente cercada”, afirmou Eleanor na última sexta-feira, 16, após circular de carro pelo entorno do Capitólio para vistoriar a remoção gradual da cerca. “Isso transmite ao mundo a mensagem de que não somos capazes de defender nossos próprios edifícios. Então, como seríamos capazes de defender quem quer que seja? Há apoio bipartidário contra o cercamento. É por isso que tenho certeza que a cerca não permanecerá aqui por muito tempo.”

Uma força-tarefa parlamentar reunida para estudar a segurança do Capitólio e seu entorno recomendou um reforço de centenas de novos agentes para a força policial do Capitólio e uma cerca retrátil, afirmou Eleanor, acrescentando que a segurança do Capitólio pode ser mantida sem interdições ou barreiras permanentes.

Antes que os protestos por justiça racial causados pelo assassinato de George Floyd tomassem as ruas de Washington, em 29 de maio do ano passado, áreas interditadas no centro da capital eram produzidas geralmente pela construção civil.

Nos primeiros dias das manifestações, a polícia utilizou baixas barreiras de metal e blocos de concreto para conter multidões e manter as pessoas fora da Praça Lafayette. Noite após noite, manifestantes e policiais se enfrentaram. Os policiais dispersavam a multidão com balas de borracha, bombas de efeito moral e gases químicos. Manifestantes despedaçavam as barreiras da polícia e construíam suas próprias barricadas nas ruas - uma linha de separação entre eles e a tropa de choque que marchava em sua direção. Imóveis foram incendiados, incluindo o porão da histórica Igreja de St. John; as autoridades puseram a culpa em vândalos.

Os ataques de 11 de setembro de 2001 inauguraram uma extensa ampliação das medidas de segurança, entre interdições, bloqueios permanentes em vias e instalação de cercas.

Durante as manifestações por justiça racial do último verão, cercas foram usadas para impedir o acesso à Praça Lafayette e ao Parque Presidencial Sul. A Praça Lafayette e as calçadas da Avenida Pennsylvania estão interditadas há 10 meses.

Um dia após manifestantes pacíficos serem dispersados com bombas de gás lacrimogêneo ao vivo na TV, para abrir o caminho do presidente Donald Trump até os degraus da Igreja Episcopal de St John - onde ele chegou com uma Bíblia na mão - um alambrado preto foi instalado em torno da Praça Lafayette.

Nas semanas que se seguiram, protestos pacíficos viram uma presença mais tranquila das forças de segurança. O parque reabriu. Em 22 de junho, manifestantes prenderam correntes na estátua do presidente Andrew Jackson, no centro da Praça Lafayette, e tentaram arrancá-la. Novas barreiras foram então instaladas por vários dias - cercas altas e impossíveis de escalar, reforçadas por blocos de concreto - isolando a praça e a Igreja de St. John, do outro lado da rua.

Por todo o verão e início de outono, as cercas foram ampliadas e diminuídas. Cercas foram instaladas em torno de monumentos ameaçados, como o Memorial da Emancipação, no Lincoln Park, e ao longo do National Mall, durante a marcha organizada pelo reverendo Al Sharpton em agosto. Posteriormente, cercas acompanharam as repetidas manifestações pró-Trump programadas para influenciar a eleição de novembro.

Mas a área do Capitólio tinha permanecido praticamente intocada.

Em 6 de janeiro, quando a multidão de autoproclamados milicianos Proud Boys, devotos de teorias de conspiração e alguns dos mais leais apoiadores de Trump, começou a se reunir diante do Capitólio, as baixas barreiras foram rapidamente transpostas e retiradas.

“Obviamente, não temos bolas de cristal para prever qual será a próxima ameaça”, afirmou Marcel Acosta, diretor executivo da Comissão de Planejamento da Capital Federal, que supervisiona o planejamento e o desenvolvimento de propriedades do governo na região de Washington. “Assim como antes do 11 de Setembro ninguém teria pensado em ter de impedir um avião voando na direção de prédios, antes de 6 de janeiro ninguém poderia acreditar que o ataque de uma multidão seria algo com que tivéssemos de lidar ou levar em consideração para garantir a segurança do Capitólio.”

Antes de 2021, a área do Capitólio era protegida por barreiras instaladas normalmente no gramado oeste, e postos de controle faziam a segurança de eventos como o Dia da Independência ou cerimônias de posse presidenciais.

Para o protesto pró-Trump de 6 de janeiro, a Polícia do Capitólio estabeleceu um perímetro de segurança, mas os manifestantes transpuseram rapidamente muitas das barreiras menores.

Após o ataque daquele dia, as autoridades se mobilizaram rapidamente para interditar o acesso ao National Mall e a grande parte do centro de Washington, preparando-se para a cerimônia de posse, em 20 de janeiro.

Por semanas, as interdições sem precedentes ocasionaram problemas para as pessoas que trabalham e vivem na região. A zona interditada foi reduzida por várias semanas para um perímetro de 4,8 quilômetros.

Em 21 de março, o perímetro foi reduzido, para cercar apenas a área do Capitólio.

Doze dias depois, um motorista avançou com o carro contra a barreira em um ponto de acesso, ao longo da Constitution Avenue e da Delaware Avenue, matando um policial do Capitólio, Evans.

O perímetro de segurança que se seguiu à insurreição fez com que algumas autoridades comparassem Washington a uma base militar. Uma profusão de cercas e postos de controle com soldados armados se espalhou pelo centro da cidade antes da cerimônia de posse de Joe Biden. A Avenida Pennsylvania foi fechada. O National Mall permaneceu vazio. O acesso era restrito a políticos, funcionários pré-selecionados e jornalistas credenciados.

Naquele momento, especialistas em direitos civis afirmaram que, em razão da cerimônia de posse representar um alvo de alta relevância para extremistas domésticos, as medidas de segurança sem precedentes foram apropriadas - se tivessem sido aplicadas somente enquanto necessárias.

A cidade livre e majestosa que Pierre L'Enfant vislumbrou em 1791 foi forçada a se adaptar a uma série de ameaças de segurança.

Nos dias anteriores à posse, somente autoridades do governo, membros da Guarda Nacional e jornalistas credenciados podiam entrar nessa área.

Esse perímetro de segurança extendido permitia tráfego de veículos somente de moradores e empresas locais.

Extensas cercas impossíveis de escalar impediam a passagem de pedestres em grande parte do centro da cidade.

Havia também áreas com barreiras e cercas mais baixas, particularmente ao longo da Avenida Pennsylvania.

Passados mais de dois meses, as cercas de arame farpado mais extensas foram retiradas. O acesso à Avenida Constitution e à Avenida Independence foi restaurado, e as cercas impossíveis de escalar em torno das paredes em tom pastel amarelado da Igreja de St. John foram retiradas.

Mas outras barreiras - e incontáveis questões - continuam de pé.

O Serviço Secreto dos EUA se recusou a informar quando o alto alambrado preto que contorna a Praça Lafayette desde o verão passado será retirado.

Kirk Savage, professor de história da arte e arquitetura da Universidade de Pittsburgh, afirmou que as cercas são com frequência um recurso paliativo simples e primitivo, que permite a organizações e governos se esquivar das questões centrais das preocupações com segurança. No caso da Praça Lafayette, afirmou ele, o governo Biden terá de dar resposta a uma questão que o governo Trump não respondeu. O que fazer a respeito da estátua de Jackson?

“O tipo de solução que diz simplesmente que impediremos o acesso do público para proteger um monumento que está no meio da praça é realmente drástico - e cria uma inércia própria”, afirmou Savage. “Quando a cerca for retirada, a decisão de derrubar a estátua terá de ser tomada. Com isso, agora o novo governo está na desconfortável posição de ter de decidir como proceder.”

As questões no centro do debate que incendeia Washington são antigas, afirmou Savage. A necessidade de proteger monumentos e outras estruturas públicas de ataques passou a existir quase no mesmo momento em que os humanos começaram a erguer estátuas e cidades fortificadas.

Cercas e barreiras são soluções fáceis e efetivas há muito tempo. Mas, acrescentou ele, o sinal visual que grandes cercas emitem ao público - e a outras cidades do país - é uma mensagem que deveria ser repensada pelo governo federal.

Defensores dos direitos civis afirmam que o debate a respeito da necessidade de a área do Capitólio ser interditada por uma cerca distrai a atenção de outras questões centrais de segurança, incluindo o motivo de os policiais que protegiam o Capitólio em 6 de janeiro terem sido escorraçados e subjugados.

“O circo de segurança em torno de uma cerca grande e proeminente tira a atenção de algumas questões. Como podemos manter as pessoas seguras diante de elementos como o despreparo e os preconceitos institucionais que levaram as forças policiais a subestimar o grau da ameaça de 6 de janeiro, pois a potencial ameaça vinha de pessoas brancas, em sua maioria, que são percebidas como favoráveis à polícia?”, afirmou Michelman, o diretor jurídico da ACLU.

Ele ressaltou que as altas cercas que começaram a aparecer na cidade em meados do ano passado se tonaram desde então onipresentes em prédios do governo em todo o país.

“Quando começamos a falar das medidas de segurança excessivas, nós as normalizamos”, afirmou Michelman. “Isso manda uma mensagem de que o governo está com medo do povo, e não quer que você se aproxime. Essa mensagem é terrível.”

Em Washington, agências governamentais podem manter cercas e outras barreiras físicas por até dois anos sem necessitar de autorização da Comissão de Planejamento da Capital Nacional (NCPC), de acordo com um ex-diretor da entidade, Michael McGill, porta-voz aposentado da Administração de Serviços Gerais. Depois desse período, afirmou McGill, a mudança é considerada permanente e requer autorização.

Urbanistas da comissão de planejamento implementaram medidas de segurança para proteger prédios do governo federal, monumentos nacionais e terras públicas após acontecimentos que geraram comoção nacional, como o atentado de 1995 em Oklahoma City e os ataques terroristas de 11 de Setembro.

Várias autoridades e especialistas ressaltaram que, no Monumento de Washington, a segurança foi “bem feita”, notando que a estrutura paisagística de seu entorno fornece segurança por fazer com que os pedestres caminhem em círculos, por possuir barreiras com degraus e pelos gramados reforçados, no lugar de cercas ou barreiras.

Uma abordagem similar foi adotada na aplicação de recursos de segurança à arquitetura e ao paisagismo do Museu Nacional de História e Cultura Americana Negra.

“Nesses exemplos, se você não souber onde procurar, talvez nem perceba que está diante de recursos de segurança muito sofisticados”, afirmou Acosta. “Eles se misturam com a paisagem.”

Ao contrário das instalações do Executivo e do Judiciário, a área do Congresso e do Capitólio não é competência da NCPC, apesar de urbanistas da entidade afirmarem que são consultados regularmente pelo Arquiteto do Capitólio e que trabalham em parceria com corporações do Congresso, incluindo a polícia.

Autoridades da Polícia do Capitólio, que é responsável pelo perímetro de segurança, não responderam ao pedido de entrevista.

Acosta, que afirmou que a NCPC não começou a discutir o futuro de vários espaços públicos, disse estar esperando o impacto e o medo causados pelos ataques mais recentes desaparecer. É nesse momento em que, normalmente, as conversas podem começar.

“Reagimos a uma ameaça fazendo o que achamos que temos de fazer - levantando cercas, por exemplo - e então, acho que as pessoas dão um passo atrás e fazem importantes questionamentos a respeito de como podemos promover algum tipo de equilíbrio entre segurança e acesso público”, afirmou Acosta. "Quando estamos lidando com esses assuntos, trata-se mesmo de uma questão de tempo.” /Tradução de Augusto Calil

 

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