Henry Romero/Reuters
Henry Romero/Reuters

Após ateísmo de Evo, cristianismo retoma o poder político na Bolívia

Presidente interina Jeanine Áñez assumiu cargo erguendo duas bíblias e disse ao público que 'A Bíblia volta a entrar no Palácio'

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2019 | 20h09

LA PAZ - Jeanine Áñez, a senadora de direita que na terça-feira, 12, se proclamou presidente interina da Bolívia após a renúncia de Evo Morales, exibiu orgulhosa não somente uma, mas duas bíblias ao assumir o cargo, prova da força dos cristãos no cenário político boliviano.

“Deus permitiu que a Bíblia volte a entrar no Palácio. Que Ele nos abençoe”, disse ao ingressar o palácio presidencial em La Paz, brandindo um antigo exemplar dos quatro evangelhos entre gritos de “Glória a Deus!”.

Com a faixa presidencial e a cruz no peito, Áñez exibiu uma bíblia menor de capa rosa, ao cumprimentar o público que a aguardava abaixo da sacada do Palácio Quemado.

Até a chegada de Evo ao poder, em 2006, era comum que os servidores públicos jurassem seus cargos na Bolívia “por Deus e pela Pátria”, diante de uma bíblia, e então faziam o sinal da cruz.

Porém Evo, um líder indígena de esquerda e admirador de Che Guevara, além de ateu confesso, deixou de lado esses rituais com auréola cristã.

Neste Estado laico, proferido na Constituição de 2009, os servidores começaram a expressar seu compromisso com o punho esquerdo erguido e a mão direita no peito, mesmo não sendo obrigatório. Já não havia menções a Deus.

E enquanto Morales se declarou uma certa vez um “católico de base”, nunca escondeu sua animosidade ao cristianismo - que ele acusou de promover o assassinato dos nativos bolivianos na então colônia, causando mal estar perante os credores.

Desde as questionadas eleições de 20 de outubro, quando a oposição denunciou uma fraude eleitoral para que Evo se perpetuasse no poder, o livro sagrado dos cristãos tem estado no castiçal político.

Foi Luis Fernando Camacho, presidente do Comitê Cívico da próspera região de Santa Cruz, líderança da oposição, quem anunciou que levaria as Sagradas Escrituras ao palácio do governo para forçar a saída de Evo, que havia se declarado vencedor do pleito.

“Não estou indo com as armas, vou com minha fé e minha esperança; com uma bíblia na mão direita e sua carta de renúncia na minha mão esquerda”, reforçou Camacho, em um comício na segunda-feira, 4, aos pés do monumento do Cristo Redentor em Santa Cruz de la Sierra.

O líder político cumpriu com o seu objetivo no domingo passado, quando invadiu o Palácio Quemado após a renúncia de Evo para colocar no salão principal uma bíblia sob a bandeira boliviana.

Histriônico, eloquente e fundamentalista, Camacho foi uma peça chave para propiciar a saída de Evo, ao impulsionar mobilizações de rua seguidas por um motim policial e a decisão das Forças Armadas de abandonar à sorte o seu comandante.

Pastor coreano foi o terceiro mais votado

A Bolívia é predominantemente católica, mas os evangélicos cobraram mais força a nível político nestas eleições, com o candidato presidencial coreano nacionalizado boliviano, Chi Hyun Chung, que é pastor presbiteriano.

Aspirante à presidência pelo Partido Democrata Cristão (PDC), Chi substituiu em agosto o ex-mandatário social-democrata Jaime Paz Zamora, que renunciou perante intenção de voto abaixo de 1%.

Radical em seu rechaço aos homossexuais e ao aborto, o pastor Chi começou a subir nas pesquisas eleitorais e, impressionantemente, ganhou 8,8% dos votos, ficando em terceiro lugar nas eleições, atrás de Evo e do ex-presidente centrista Carlos Mesa.

Para o analista César Cabrera, o outsider captou as intenções de punir pelo voto e soube atrair os jovens descontentes. “O fenômeno Chi” é um reflexo de que há bolivianos “conservadores e machistas”, opinou.

Uma pesquisa do jornal Página Siete mostrou, em setembro, que 74,9% dos bolivianos eram católicos e 17,9% evangélicos. / AFP

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