AFP PHOTO / John MACDOUGALL
AFP PHOTO / John MACDOUGALL

Após avanço, ultradireita alemã racha

Frauke Petry, líder nacionalista, rejeita assumir mandato no Parlamento após radicalização do partido; Merkel inicia negociações por coalizão

Andrei Netto, Enviado Especial / BERLIM, O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2017 | 14h40
Atualizado 25 Setembro 2017 | 21h05

O partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) entrou em sua primeira crise interna um dia após o sucesso nas urnas. Com 12,6% dos votos, o movimento terá uma bancada 94 deputados – a primeira de um partido nacionalista xenofóbico na Alemanha desde 1945. A co-presidente do movimento, Frauke Petry, anunciou nesta segunda-feira a decisão de não assumir o assento no Parlamento que lhe seria atribuído em razão da radicalização do partido.

 O AfD vive uma tensão interna entre uma ala mais moderada, nacional-liberal, e outra de extrema direita dura, de caráter identitário (anti-Islã) e mais radical na luta contra a imigração. Sua decisão foi anunciada em uma entrevista coletiva tensa dos líderes do partido, em Berlim, e representou uma fissura na unidade do partido, criado em 2013.

“Decidi, após uma reflexão madura, não aceitar o assento no grupo parlamentar do AfD”, informou Frauke Petry, que acusa o grupo “identitário” do partido de empregar “uma retórica que não é construtiva para os eleitores moderados”.

Nas últimas semanas antes do pleito, líderes do partido vinham subindo o tom nos discursos políticos contra a imigração, multiplicando ameaças e, até mesmo, criticando o arrependimento dos alemães diante dos crimes do nazismo.

O choque interno é mais forte em relação a Alexander Gauland, ex-membro da União Democrata-Cristã (CDU), partido da chanceler Angela Merkel e hoje um dos líderes do AfD. Ele questiona, por exemplo, a existência de um monumento aos judeus mortos durante o Holocausto construído no centro de Berlim e defende que os alemães devam se orgulhar das conquistas militares da Alemanha na 2.ª Guerra.

No domingo, Gauland atacou a chanceler. “Este novo governo, qualquer que seja, deve se preparar para viver momentos difíceis, pois vamos combatê-lo!”, advertiu. “Vamos caçar e combater Angela Merkel e o povo retomará o controle do país.”

Frauke Petry não pode ser chamada de moderada, pois esteve na origem da guinada xenofóbica do partido após sua fundação como movimento anti-União Europeia. Mas para ela o AfD enfrentará um limite em seu crescimento ao optar pela via do confronto aberto em um país de cultura política consensual, desperdiçando a oportunidade de “exercer rapidamente as responsabilidades governamentais”.

“O AfD pode até ser bem-sucedido como oposição, mas não pode oferecer aos eleitores uma oferta crível para a tomada do governo”, afirmou Frauke. A decisão foi criticada no interior do partido, mas foi aceita, informou o co-presidente do AfD, Jörg Meuthen, que não escondeu as divisões internas.

 

Para o cientista político francês Jean-Yves Camus, um dos maiores especialistas do continente em extremismos de direita na Europa, o AfD vem se radicalizando, transformando-se em um partido populista e xenofóbico e deixando em segundo plano sua plataforma nacionalista original.

“No início, o AfD privilegiava a opção soberanista e, pouco a pouco, se apropriou do potencial humano das manifestações anti-imigração iniciadas pelo movimento Pegida em diferentes cidades da Alemanha”, explica Camus, pesquisador do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris). “Desde então, ele tem se radicalizado sobre questões como imigração, identidade e rejeição ao multiculturalismo.” 

Enquanto a Alemanha ainda se habitua ao choque do crescimento da extrema direita, que quase triplicou seu porcentual em quatro anos, Merkel deu início ontem às primeiras consultas para a formação da coalizão de governo. Com a recusa do Partido Social-Democrata (SPD) de participar da próxima aliança, a chanceler tem apenas uma alternativa se quiser governar com maioria no Bundestag, o Parlamento. 

Trata-se de uma coalizão com o Partido Verde (centro-esquerda) e com o Partido Liberal-Democrata (centro-direita), duas agremiações com culturas políticas opostas – os liberais são próximos ao empresariado.

Enquanto o PV defende a prioridade à transição para uma economia sustentável, o FDP privilegia a economia de mercado clássica. Os verdes desejam um novo imposto sobre propriedade, enquanto os liberais querem a queda dos impostos. O desafio da chanceler será encontrar o ponto de equilíbrio.

Nesta segunda-feira, o líder liberal, Christian Lindner, e os líderes ambientalistas Katrim Göring-Eckardt e Cem Özdemir concederam entrevistas coletivas separadamente e manifestaram as condições para uma coalizão.

"Vai depender do conteúdo, nada mais”, afirmou Özdemir, referindo-se ao programa de governo que Merkel tentará implementar em seu quarto mandato. Questionado sobre a dificuldade de formação do gabinete, Lindner reconheceu que as dificuldades de relações com o PV de fato existem: “Não podemos forçá-los a um governo”. 

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.