EFE/Javier Lizón
EFE/Javier Lizón

Após Brexit, Espanha dá voto de confiança aos partidos tradicionais

Partido Popular amplia votação em relação a dezembro, mas terá de negociar coalizão com PSOE, o segundo partido mais votado

O Estado de S. Paulo

26 Junho 2016 | 19h12

MADRI - Três dias após a surpreendente vitória dos eurocéticos no referendo que tirou o Reino Unido da União Europeia, os eleitores espanhóis decidiram neste domingo, 26, dar um voto de confiança aos partidos tradicionais. O Partido Popular (PP) e o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) ampliaram suas bancadas em relação à eleição de dezembro, a qual não conseguiu formar uma coalizão de governo. 

Com 98% dos votos apurados, o Partido Popular, do primeiro-ministro interino Mariano Rajoy, tinha 137 deputados eleitos - 14 a mais que os 123 de dezembro, porém insuficiente para a maioria necessária dwe 175 para formar governo. Agora, no entanto, o PP deve ter prioridade para negociar a formação de coalizão com os outros partidos. 

O PSOE perdeu respaldo. Dos 90 deputados eleitos em dezembro, agora tem 85. No entanto, o partido é o favorito para formar um governo de coalizão com o PP, apesar das declarações contrárias dadas por seus dirigentes durante a campanha. 

Os dois partidos antiestablishment - Podemos e Ciudadanos - não conseguiram ampliar sua base eleitoral de maneira significativa. O Podemos, que é contra o corte de gastos imposto pela UE, elegeu 69 deputados em dezembro e ontem conseguiu 71. O Ciudadanos caiu de 40 para 32 assentos no Parlamento.

 

Em relação aos partidos nacionalistas, o ERC, independentista da Catalunha, obteria nove cadeiras, seguido pelo nacionalista de centro CDC, com oito, e o basco PNV, com cinco.

“Seguimos sendo a força política mais votada”, disse a porta-voz do PP, Andrea Levy, à rede de TV pública TVE. 

O resultado de ontem reverteu uma tendência de apoio aos partidos antiestablishment que vinha sendo observada nas últimas eleições espanholas, provocada pela crise econômica e pela série de denúncias de corrupção. Tanto o Podemos quanto o Ciudadanos ameaçavam romper o sistema bipartidário que há quatro décadas domina a Espanha. 

“Esses resultados não foram bons. Não esperávamos isso”, disse o porta-voz do Podemos Inigo Errejon. “Não foram bons nem para o Podemos nem para a Espanha, porque reverteram uma tendência de mudança política.”

Otimista, o líder do PSOE , Pedro Sánchez, sinalizou que a terceira colocação do Podemos na eleição facilita a formação de um novo governo.

 “Está aberto o caminho para a normalização de nossas vidas. Somos a primeira força de esquerda na Espanha. Espero que o senhor Iglesias reflita sobre esses resultados”, disse. “Somos o partido que modernizou a Espanha e a integrou à Europa.”

Diante das circunstâncias políticas - a queda no apoio ao PSOE sem que isso se convertesse no crescimento do Podemos - analistas acreditam que os socialistas possam permitir que o PP lidere um governo de minoria. 

O PP fez campanha com base na promessa de estabilidade, principalmente após o referendo que tirou o Reino Unido da União Europeia.

 

O analista de risco Antonio Barroso, da consultoria londrina Teneo Intelligence, acredita que as negociações para a formação de um governo serão duras, apesar da pressão da elite política espanhola por uma solução rápida, em meio às incertezas provocadas pelo Brexit. 

“Era esperado que esse cenário trouxesse clareza e apressasse a formação do governo, mas não acredito que isso possa acontecer”, disse. 

O comparecimento às urnas nas eleições parlamentares da Espanha foi de 51,17% na tarde de, ontem cerca de sete pontos porcentuais inferior do que o mesmo período em dezembro, mostram neste domingo os dados oficiais.

A baixa taxa de participação já era esperada após seis meses de negociações infrutíferas entre os partidos políticos, seguidas da última eleição e o início das férias de verão no país.

Pesquisas de boca de urna divulgadas após o fechamento das urnas projetavam uma vitória mais apertada do PP e o Podemos à frente do PSOE, mas essa tendência acabou não se confirmando ao longo da apuração.

A Espanha tenta se recuperar da recessão provocada pela crise na zona do euro, que provocou cortes no sistema de saúde e de educação e o aumento do desemprego, especialmente entre os jovens. Rajoy diz que sua gestão conseguiu minimizar o impacto da crise na vida dos espanhóis. / EFE. AP, AFP e REUTERS

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