Alexandre Godinho/ AE
Alexandre Godinho/ AE

Após catalães, moradores de Veneza sonham com maior autonomia em relação a Roma

Venezianos alegam que o principal problema da região está relacionado aos impostos que, segundo eles, não beneficiam o bastante seu território

O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2017 | 11h58

VENEZA, ITÁLIA - Em Veneza é quase impossível encontrar um cartaz sobre o plebiscito de autonomia convocado no domingo no Vêneto e na Lombardia, mas quase todos os habitantes dizem que votarão para colocar um fim à "má gestão" do Estado, embora rejeitem qualquer comparação com a Catalunha.

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Para os venezianos, o problema fundamental tem a ver com os impostos que, segundo eles, não beneficiam o bastante seu território. Em 2016, o Vêneto apresentou um saldo fiscal - diferença entre o que os habitantes pagam com taxas e impostos e o que recebem como gastos públicos - de € 15,5 bilhões.

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"Isso poderia não ser um problema se essas taxas fossem bem investidas, mas a verdade é que em nível nacional mal se gastam € 30 bilhões por ano", lamenta o presidente da região, Luca Zaia, que convocou o plebiscito consultivo com o qual pretende reivindicar competências adicionais em departamentos como educação, infraestrutura, entre outros.

Zaia e seu homólogo lombardo, ambos membros da ultra-direitista Liga Norte, querem recuperar a metade do saldo fiscal de sua região, um discurso que ganha adeptos e recebe o apoio da centro direita, incluída a Força Itália de Silvio Berlusconi, das organizações patronais e dos sindicatos.

"É justo que os impostos que pagamos sejam gastos em nosso território e não na Sicília", afirma Giuseppe Colonna, um veneziano de 84 anos. "Aqui a gestão administra bem as coisas”, enquanto "há uma má gestão dos recursos por parte do Estado central em Roma", ressalta Nicola Tenderini, um aquarelista de 52 anos.

Na loja ao lado, Andrea Vianello, que vende alimentos, ratifica a mensagem. "Queremos continuar ajudando a Itália e as regiões mais desfavorecidas, mas gostaríamos de ter um pouco mais de dinheiro para nós.” Segundo ele, a autonomia está no DNA de Veneza, que foi uma república independente durante quase um milênio, antes de sua queda em 1797.

União

O Vêneto, que se orgulha da taxa de desemprego de 6,7% em relação a uma média nacional de 11,2%, contribui com 10% do Produto Interno Bruto (PIB) italiano graças a uma extensa rede de pequenas e médias empresas.

Instalado em Solzano, a cerca de 20 km de Veneza, Gianluca Fascina é um dos 7,5 mil artesãos da região que trabalha no setor da moda. Votará "sim" na consulta, como muitos de seus colegas da Confartigianato, a associação de artesãos.

"Espero que (uma maior autonomia) permita que as coisas funcionem melhor para as empresas com relação a prazos de pagamento", por exemplo, e nos dê "mais possibilidades de crescer e ser ajudados pela região", explica o dono da Gifa Ricami, uma empresa com 10 funcionários que faz bordados.

Gicami, contudo, não deseja a independência de sua região. "O Vêneto faz parte da Itália e continuará na Itália. Não é um plebiscito como na Espanha", compara. O discurso compartilhado por Nicola Tenderini, que considera que "a maioria das pessoas não querem uma secessão".

Embora a vitória do “sim” seja inquestionável, há dúvidas em torno da participação, sobretudo na Lombardia onde a consulta desperta pouco interesse. No Vêneto se confere uma maior importância à identidade regional, e se espera uma participação maior, necessária porque a consulta só terá validade se alcançar uma participação de 50%.

Para os verdadeiros separatistas, muito minoritários, o plebiscito é um primeiro teste. "Permitirá que a gente se reúna como venezianos", explica Alessio Morosin, fundador do Independência Veneta. "Sabemos que não permitirá alcançar os objetivos esperados, tanto por motivos políticos como orçamentários, já que o Estado tem uma dívida de mais de € 2,3 bilhões.”

Quando comprovarem o fracasso, os venezianos deverão "fazer uma eleição mais radical" frente a um Estado que os explora, afirma. Ele reconhece, contudo, que o "sentimento" separatista "ainda não é robusto", embora se considere "otimista" sobre o futuro.

Canvey Island

A 1,5 mil quilômetros da Catalunha, uma pequena ilha inglesa também expressa o desejo de independência. Canvey Island, de 40 mil habitantes, quer romper sua relação com o continente.

“Estamos fartos de estar vinculados ao ‘continente’ e ele tomar as decisões em nosso lugar”, diz Dave Blackwell, líder do partido independentista de Canvey Island (CIIP).

Para ele, o desejo de emancipação de seus colegas se deve sobretudo à “mentalidade local”. “As pessoas não querem ser governadas por outros”, os habitantes “são rebeldes”, mas “pacíficos e muito amáveis”. / AFP

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