Mauricio Lima/The New York Times
Mauricio Lima/The New York Times

Após completar sua viagem, família síria enfrenta mais problemas na Europa

Os 12 membros da família Majid levaram meses para cruzar o continente europeu; agora, na Suécia, lutam para se adaptar à cultura local

Anemona Hartocollis / The New York Times, O Estado de S. Paulo

18 Maio 2016 | 16h30

BACKHAMMAR, SUÉCIA - Juntamente com mais de doze membros de sua família, Widad Majid passou o último verão dormindo em acampamentos de refugiados sufocantes, campos abertos, estações de trem e uma cela de prisão na travessia da Europa, saindo da Síria para chegar à Suécia, uma garota pequena em meio a uma migração humana descomunal rumo à esperança de uma vida melhor.

Agora Widad, de 10 anos, mora com a família no segundo andar de uma casa de fazenda vermelha, grande, em Backhammar, pequena comunidade três horas a oeste de Estocolmo. Eles podem ver veados da janela da cozinha e andam pela floresta ao pôr do sol.

Seu primo de quatro anos, Zain, cortou a canela no verão passado, quando era passado sobre um fio cortante na fronteira húngara, na calada da noite. Ele ainda tem duas marcas fundas na perna, mas as lembranças, se não as cicatrizes, vão sumindo agora que pega a bicicleta e vai para a escola, com uma barra de chocolate dada por sua mãe amarrada no para-choque.

Seus tios, Farid e Ahmad Majid, irmãos empreendedores que guiaram a família de casa, na Síria, pela Europa, com centenas de milhares de outros refugiados, fazem planos para abrir uma mercearia assim que completarem o longo processo de obtenção de asilo e residência na Suécia.

No entanto, mesmo que tentem com afinco assimilar apreciar a nova vida que ganharam, continuam a viver as consequências do que deixaram para trás, principalmente Widad.

Seus pais e dois irmãos não fizeram a viagem para a Europa porque um deles, Nabih, de nove anos, tem leucemia e estava muito doente para enfrentar a jornada cansativa.

O garoto está em tratamento na Turquia, mas precisa de um transplante de medula óssea e o único membro da família que pode ser doador compatível é Widad. Quando o inverno virou primavera na Suécia, ela ainda não havia recebido asilo; sair para ajudar o irmão na Turquia antes de obter residência legal significava não poder mais voltar. A família então enfrentou mais uma série de desafios e decisões dolorosas.

"É uma questão de vida ou morte", disse uma das tias de Widad, Amina Nouri, que está ajudando a cuidar de Nabih na Turquia.

Há cinco semanas Nabih está isolado em um quarto espartano, mas confortável e com vista para o Mediterrâneo, em Antália, no sul da Turquia. Estava internado no Hospital Medical Park, instituição privada especializada em transplantes de medula óssea. Ele espera por um doador de medula, e no momento, Widad parece ser sua melhor esperança.

O câncer voltou em fevereiro, cerca de nove meses após o começo do tratamento. A recaída em apenas um ano sugere que o câncer é altamente resistente aos remédios. Sua família diz que o tratamento era às vezes interrompido por causa da escassez de leitos no primeiro hospital, em Gaziantep, também na Turquia, perto da fronteira Síria.

Sem quimioterapia e transplante, o menino pode morrer em um mês, disse um dos médicos, Vedat Uygun. Com um transplante, ele tem uma chance de 15% a 20% de sobrevivência.

Se Widad não for compatível, os médicos usarão um doador com compatibilidade parcial, provavelmente a mãe ou a tia, mas os riscos de um transplante desse tipo são muito grandes e o índice de sobrevivência, menor.

Saudações educadas. Os Majids aproveitam a liberdade, apesar de acharem que muitos suecos desviam o olhar ao passar, ou na melhor das hipóteses, trocam um educado "hej" ("olá"), ou "hej da" ("tchau"). Eles se sentem felizes e isolados ao mesmo tempo e passam a maior parte do tempo com outros membros da família e companheiros refugiados, preparando festas comunitárias com iogurte caseiro, carne grelhada, homus, azeitonas, berinjela, pimentão, pão sírio e tabule.

Há uma pequena loja com uma mercearia, um posto dos correios e um bar. "A geração mais jovem saiu daqui, fugindo da fábrica que às vezes libera um cheiro desagradável, em busca de maiores oportunidades nas grandes cidades", disse Torbjorn Andersson, funcionário de fábrica aposentado que se mudou para lá, em 1972. Os refugiados foram instalados nas casas vazias.

"Eles são mais numerosos do que de nós", disse Eva Nyvall, proprietária da loja, no que pareceu ser uma hipérbole.

O local tenta ser acolhedor. Eva levou cerca de 25 refugiados para uma caminhada. Ahmad pega um vídeo de crianças refugiadas dançando em torno de uma árvore de Natal em Folkets Hus, o centro comunitário, mas todos concordam que esses gestos não são suficientes para promover um senso de comunidade.

Carros e bicicletas - muito bonitos para serem de refugiados - estão em frente das casas térreas pequenas e arrumadas. A maioria dos moradores, porém, é invisível.

A família recebe um subsídio de cerca de 1.800 coroas suecas (US$ 221) por mês para cada adulto, além de um subsídio menor para as crianças, para pagar a comida e outras necessidades, até conseguir se sustentar. Quando receberem as autorizações de residência, seus integrantes podem entrar em um programa formal de aulas de sueco e treinamento profissional, ou abandonar esses benefícios e se virar por conta própria.

Eles vivem com simplicidade, comprando roupas na loja de artigos de segunda mão. Fazem iogurte, alimento básico, ao invés de comprá-lo, para poupar dinheiro. Todos emagreceram muito durante a viagem pela Europa, quando a família estava constantemente em movimento e comendo qualquer coisa que aparecesse. Agora, os Majid já recuperaram parte do peso.

Um dilema moral. Ao longo de sua jornada, a família foi assombrada pela leucemia do Nabih e não sabia se, como refugiado, ele teria cuidados inadequados na Turquia. E a preocupação só se intensificou quando os Majid se instalaram na nova vida e a audiência de imigração de Widad, no dia 19 de abril, deixou a família tensa.

Por estar na Suécia sem os pais, Widad foi posta sob os cuidados de um tutor, Christer Jansson, vendedor muito amável de uma companhia de petróleo, que cuida dos interesses da menina. Em 22 de março, ele recebeu um e-mail do médico de Nabih, Akif Yesilipek, em Antália, pedindo um exame de sangue de Widad.

O pedido gerou um dilema moral para ele. Após alguma pesquisa, Jansson percebeu que enviar a medula pelo correio poderia ser muito difícil e que se Widad fosse compatível, teria que voltar para a Turquia para a doação. Sem residência legal, não poderia voltar.

Sua responsabilidade era com a garota. E se ela desistisse de sua segurança, de sua educação e da promessa de um futuro melhor na Suécia e o irmão morresse mesmo assim?

Mas a burocracia foi sensível à situação da menina, agilizando sua audiência de asilo. Jansson levou-a para a audiência em Gotemburgo, junto com seu tio Farid. Jansson teve permissão de assistir, mas Farid não.

No final, um dos funcionários disse que todos compreendiam a necessidade de rapidez por causa da doença do irmão, então dariam prioridade ao pedido. "Ela foi muito inteligente, muito esperta", Jansson disse a Farid.

Os três saíram de lá eufóricos. Naquela noite, a família celebrou o sucesso de Widad comprando três bolos, dois de baunilha e um chocolate.

No dia 28 de abril, Widad recebeu a notícia de que havia recebido autorização de residência e, com ela, o direito de ir para a Turquia, se necessário. Uygun, o médico de Nabih, continua na esperança de que a menina seja compatível e que sua medula óssea possa ser extraída na Suécia e enviada para a Turquia para que ela não precise viajar. Não está claro quem vai pagar pelo procedimento, mas Uygun disse que o custo não impediria Nabih de receber o tratamento necessário.

O transplante de Nabih foi agendado para a segunda metade de maio. Widad deve receber os resultados do seu exame de sangue a qualquer momento.

The New York Times News Service/Syndicate - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.