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Após conquistar presidência, Macron encara desafio da eleição parlamentar 

Eleições legislativas, que terão seu primeiro turno neste domingo, 11, serão cruciais para o futuro do recém-empossado governo francês; pesquisas de opinião o favorecem

Sérgio Caldas , O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2017 | 05h00

Emmanuel Macron superou um grande desafio ao derrotar a eurocética Marine Le Pen e se eleger presidente da França no início de maio. Mas sua vitória terá pouca importância se o ex-ministro da Economia não garantir maioria no Parlamento para implementar seu programa. 

Por esse motivo, as eleições legislativas, que terão seu primeiro turno neste domingo, 11, serão cruciais para o futuro do recém-empossado governo francês. As pesquisas de opinião favorecem Macron.

O "Em Marcha!", movimento progressista que Macron criou em abril do ano passado e virou partido - com o novo nome "A República em Marcha (REM)" - após seu triunfo na disputa presidencial, nunca teve candidatos eleitos, seja regional ou nacionalmente.

O sistema político da França é um híbrido dos sistemas presidencial e parlamentar, com um presidente (Macron) como chefe de Estado compartilhando o poder com um primeiro-ministro (Édouard Philippe), que é o chefe de governo. 

Por um lado, o presidente é escolhido por voto popular, tornando-se o verdadeiro líder político. Por outro, o primeiro-ministro indicado pelo presidente precisa ter apoio majoritário no Parlamento.

Isso pode ser problemático quando um Parlamento contrário ao presidente é eleito. Em casos assim, o chefe de Estado é reduzido a uma figura meramente simbólica, semelhante a monarcas do norte da Europa ou "presidentes cerimoniais", como os da Alemanha ou Itália. 

Já o premiê detém a maior parte dos poderes executivos, com exceção dos que regulam a política externa e defesa, que são domínio exclusivo do presidente.

A estrutura francesa de compartilhamento do poder é denominada "coabitação". No período pós-guerra, ocorreu em três ocasiões. A primeira foi entre 1986 e 1988, quando o presidente socialista François Mitterrand conviveu com o conservador Jacques Chirac como primeiro-ministro. 

Situação semelhante se repetiu entre 1993 e 1995, quando Mitterrand foi obrigado a lidar com outro premiê conservador, Édouard Balladur. A última vez foi entre 1997 e 2002, quando o presidente Chirac dividiu as obrigações com o primeiro-ministro socialista Lionel Jospin.

Como resultado, a eleição parlamentar da França, que será realizada nos dias 11 e 18 de junho, poderá ser ainda mais importante do que a corrida presidencial.

Embora o centrista Macron não venha de nenhum dos dois blocos políticos tradicionais da França - conservadores e socialistas -, pesquisas sugerem que o REM deverá vencer as eleições legislativas e garantir maioria absoluta (289, de um total de 577 assentos) na Assembleia Nacional, como é conhecida a Câmara Baixa.

Levantamento do Ipsos/Sopra Steria para a France Télévisions e a Radio France, divulgado nesta semana, dava 29,5% de preferência ao REM; e 23% para Os Republicanos, de François Fillon; 17% para a Frente Nacional, de Marine Le Pen; 12,5% para o França Rebelde, de Jean-Luc Mélenchon; e 8,5% para o Partido Socialista, do ex-presidente François Hollande. Com esse patamar de apoio, o REM garantiria entre 385 e 415 cadeiras.

A mesma sondagem aponta que 60% dos franceses estão "satisfeitos" ou "bastante satisfeitos" com Macron, porcentual quase três vezes maior que a popularidade obtida pelo antecessor, Hollande, em seu último mês de mandato (22%).

Segundo analistas, a proximidade das duas eleições é um fator positivo, uma vez que os eleitores tenderiam a garantir maioria parlamentar para Macron.

Para Jan von Gerich, analista-chefe do banco sueco Nordea, é improvável que haja a necessidade de uma nova coabitação. Se for o caso, porém, Von Gerich acredita que Macron conseguirá avançar com várias reformas - embora não com todas -, uma vez que suas propostas são semelhantes às de centro-direita.

Na primeira rodada das eleições francesas, neste domingo, candidatos que obtenham a maioria absoluta de votos serão eleitos deputados. Abaixo disso, os que conquistarem 12,5% ou mais de apoio irão para o segundo turno, onde ganha quem obtiver maior votação.

Na prática, a maior parte da Câmara é definida na segunda etapa, às vezes com dois, três ou até quatro candidatos brigando pela mesma vaga. Esse sistema tende a encorajar acordos pré-eleitorais entre partidos políticos compatíveis para garantir a conquista do maior número possível de assentos.

Também tendem a ocorrer acordos pelos quais, se necessário, candidatos podem desistir da disputa após o primeiro turno para melhorar as chances de um concorrente aceitável ou evitar que um "arqui-inimigo" obtenha o assento.

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