REUTERS/Andres Martinez Casares
REUTERS/Andres Martinez Casares

Após Constituinte, EUA analisam novas punições à Venezuela

Trump pode restringir compra de petróleo ou adotar novas sanções individuais; preocupação é não afetar população

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2017 | 05h00

Na contraditória posição de maior comprador de petróleo da Venezuela e mais proeminente adversário internacional do governo de Nicolás Maduro, Washington terá de decidir a partir de hoje a extensão do dano que pretende infligir ao país em retaliação à eleição para integrantes da Assembleia Constituinte. O cardápio de punições vai da “opção nuclear” de interrupção de importações de petróleo a restrições financeiras que teriam impacto mais localizado.

O dilema, que parece insolúvel, é buscar um caminho que afete os ocupantes do poder sem agravar a miséria quotidiana de desabastecimento de alimentos e remédios a que os venezuelanos estão submetidos. Os EUA são um dos poucos clientes que pagam em dia e em dólares pelo petróleo exportado por Caracas. Os recursos são cruciais para alimentar as reservas de moeda estrangeira do país e pagar pela compra de importados.

Os críticos à imposição de sanções econômicas sustentam que elas prejudicarão os cidadãos comuns e reforçarão a retórica de Maduro, que atribui aos “imperialistas” do Norte muitas das agruras provocadas por decisões equivocadas de seu governo.

Ainda assim, a administração de Donald Trump parece disposta a correr o risco de emparedar os bolivarianos herdeiros de Hugo Chávez. “Houve uma mudança na maneira pela qual os Estados Unidos encaram a situação na Venezuela”, avaliou Patrick Duddy, ex-embaixador americano em Caracas e professor da Universidade Duke.

Até agora, Washington impôs sanções a indivíduos ligados ao governo e evitou penalizar setores da economia do país, em razão do potencial impacto sobre a população civil. Essa narrativa mudou na quarta-feira, quando a Casa Branca anunciou que adotaria medidas mais amplas, com potencial de prejudicar a debilitada saúde financeira da Venezuela. “A população enfrenta severa escassez de alimentos e remédios, a inflação ronda os 700% ao ano e Caracas é a capital com maior índice de homicídios dos mundo”, ressaltou Duddy. “Há um risco real de o país se transformar em um Estado falido, com todos os riscos que isso implica.”

Segundo ele, pesquisas mostram que a maioria dos venezuelanos responsabiliza o governo Maduro pela situação atual. Nesse cenário, seria baixa a probabilidade de eventuais sanções americanas saírem pela culatra e reforçarem o regime em vez de enfraquecê-lo, ponderou.

Peter Hakim, presidente emérito do Interamerican Dialogue, é cético em relação ao impacto de amplas sanções econômicas. Um dos principais exemplos de sua ineficácia é Cuba, observou. Os EUA impuseram um embargo econômico à ilha na expectativa de forçar uma mudança de regime. Cinco décadas e meia mais tarde, os Castro continuam no poder.

“A grande questão é se as sanções terão impacto”, ressaltou Hakim. “O problema é como atingir o regime sem prejudicar a população venezuelana.” As exportações de petróleo respondem por 95% das receita em moeda estrangeira da Venezuela. Esses recursos são usados para pagar importações, muitas das quais de produtos essenciais.

Em conversa telefônica com o líder opositor Leopoldo López na sexta-feira, o vice-presidente americano, Mike Pence, reiterou a determinação de seu governo de adotar sanções econômicas setoriais caso Maduro mantivesse a votação de hoje.

A convocação da Assembleia Constituinte foi condenada na semana passada por 13 países da região, entre os quais o Brasil, que a veem como um artifício para permitir a concentração de poderes nas mãos do presidente e esvaziar a Assembleia Nacional, na qual a oposição tem maioria.

Vice-presidente do Conselho das Américas, Eric Farnsworth observou que os EUA podem adotar medidas que prejudiquem o setor de petróleo venezuelano, mas não levem a seu colapso. Entre elas, está a redução ou suspensão das exportações americanas de petróleo leve, usado para dissolver o petróleo pesado exportado pela Venezuela.

Outra possibilidade é o depósito de pagamentos ao país em uma conta que não poderia ser acessada pelo governo Maduro, ação semelhante à que foi adotada em 1988 pela gestão Ronald Reagan contra o ditador panamenho Manuel Noriega, afirmou Farnsworth. Em sua opinião, também é possível adotar medidas que restrinjam o financiamento ao setor petroleiro da Venezuela por companhias americanas.

“Há caminhos que podem ser usados para expressar descontentamento e prejudicar o regime sem afetar de maneira direta a população”, avaliou. A grande incógnita é se a Rússia e a China irão ao socorro da Venezuela. Moscou estendeu financiamentos ao país em meses recentes e terá um incentivo extra para ajudar Caracas depois da aprovação, pelo Congresso americano, de sanções adicionais à Rússia.

 

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