Sebastian Castaneda/Reuters
Sebastian Castaneda/Reuters

Após controle que previu até rodízio de gênero, contágio dispara entre peruanos

Governo do presidente Martín Vizcarra foi elogiado por impor medidas restritivas, mas hábitos culturais ajudam a explicar disseminação entre os peruanos, que ainda compram comida em mercados informais e ignoram quarentena

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2020 | 20h46

LIMA - Os casos de covid-19 no Peru saltaram de 7.519, no domingo, para 13.489 ontem. Há mais de 300 mortos, 129 apenas em Lima. Na América Latina, só o Brasil tem mais infectados, com uma população sete vezes maior. O surto, que começou na capital, se espalhou por todo o país e chegou até as comunidades indígenas da Amazônia. A rápida disseminação ocorre apesar da ação agressiva das autoridades, no início da pandemia, mas pode ser explicada em parte pelos hábitos peruanos.

Muitos peruanos estão desrespeitando o isolamento e, até agora, quase 60 mil pessoas foram presas por violar as regras. Entre elas, policiais pegos tomando cerveja em reuniões privadas, que estão proibidas. Em um caso notório, um policial da região de Cuzco fingiu estar com os sintomas da covid-19 para obter licença médica e, horas depois, foi encontrado bêbado na praça da cidade.

Mães solteiras também foram detidas, principalmente por violar um rodízio de gênero, que exigiu durante uma semana que homens e mulheres saíssem de casa em dias alternados. Essa medida, que tinha o objetivo de forçar as famílias a designar um único comprador, foi rapidamente descartada.

Mayumi Matto se arrisca a sair do confinamento na casa que compartilha com 15 parentes apenas duas vezes por semana. Às 7 horas, Mayumi, de 28 anos, entra na fila do mercado em Puente Piedra, subúrbio e Lima. Apenas as pessoas que estão usando máscara podem entrar. Os seguranças só liberam a entrada de um depois que alguém sai. 

Mas, se na fila a distância é respeitada, dentro do mercado, tudo muda. “Está lotado”, diz Mayumi. “É impossível andar sem esbarrar nas pessoas. Todo mundo quer entrar e sair o mais rápido possível, sem se infectar. Os seguranças falam para as pessoas manterem a distância, mas não adianta.”

A experiência de Mayumi é comum no Peru, onde muitos dos 31 milhões de cidadãos compram grande parte da comida em mercados de rua que continuam superlotados e onde o conceito de espaço pessoal é flexível. Esses desafios ajudam a explicar o motivo de o número de casos estar aumentando, apesar da reação precavida e decisiva contra a pandemia.

“O governo acertou muitas coisas”, disse epidemiologista Ciro Maguiña. “Mas sua abordagem está centrada nos hospitais – em leitos e respiradores – e não nas comunidades. É preciso haver muito mais trabalho nas comunidades para impedir a transmissão.”

O aumento de casos se deve, pelo menos em parte, à expansão dos testes. Esta semana, com a chegada de novos kits, o governo do presidente Martín Vizcarra passou de mil pessoas testadas por dia para cerca de 10 mil. As autoridades sanitárias foram rápidas e rigorosas. Carros particulares foram praticamente proibidos, as pessoas só podem sair de casa para comprar comida ou por razões médicas e há um toque de recolher das 18 horas às 4 horas.

O problema é que existem algumas condições que a quarentena não consegue contornar. Muitos peruanos pobres moram em casebres apertadas e insalubres. Só em Lima, quase 1 milhão de habitantes não têm água corrente. E algumas práticas culturais não ajudam. Os peruanos são táteis: um estudo de 2017 mostrou que apenas a Argentina tinha uma noção de espaço pessoal mais reduzida. 

A explosão dos casos no Peru pode ser um prenúncio do que está por vir em outros países pobres, com saneamento precário, instituições públicas frágeis e pouca confiança nas autoridades. A maneira como Vizcarra enfrenta a pandemia tem sido elogiada. Seu índice de aprovação chegou a quase 90%, segundo pesquisa do instituto Ipsos.

O governo lançou um pacote emergencial de US $ 26 bilhões, equivalente a 12% do PIB, que prevê pagamentos diretos aos cidadãos. Mas muitas pessoas estão ficando de fora – entre elas Mayumi. Antes do surto, ela ganhava cerca de 45 sóis por dia – cerca de US$ 13 – cobrando passagens em uma Kombi caindo aos pedaços que serve de transporte público na cidade. Agora, ela, o marido e o filho de 9 anos estão vivendo das parcas economias que tinham. /WASHINGTON POST, TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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