Após crise, capital tem dia de quase tediosa calma

Sem soldados, estado de exceção ou palavras de ordem, ativistas não cumprem ameaça de fundar 'Tahrir paraguaia'

ASSUNÇÃO, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2012 | 03h01

Um dia depois de ter seu presidente derrubado em um julgamento relâmpago no Congresso, o Paraguai vivia ontem um improvável dia de tranquilidade. Nenhuma grande manifestação foi registrada e, em Assunção, a praça diante do Congresso - que manifestantes prometiam, no dia anterior, converter numa "nova Praça Tahrir" - amanheceu deserta. O único sinal da jornada de protesto de sexta-feira era o lixo e as grades de contenção usadas pela polícia.

O governo do novo presidente Federico Franco tenta usar esse silêncio como "prova" de que não houve golpe contra Fernando Lugo, como afirmam os demais governos sul-americanos. "O Paraguai não decretou nenhum estado de exceção, como vocês sabem. Não há nenhuma manifestação nas ruas, como podem ver. Há uma aceitação geral da sociedade paraguaia em relação ao que ocorreu", disse o novo chanceler, José Fernandez Estigarribia.

Na sexta-feira, enquanto milhares de paraguaios protestavam em apoio a Lugo no centro de Assunção, lojas e bancos mantinham as portas abertas. Apenas nas ruas que haviam sido bloqueadas para o trânsito de veículos - do entorno da Plaza de Armas, onde fica o Congresso, e do Palácio de López - o comércio fechou.

Ontem, todo o tráfego na região já havia sido liberado e a vida parecia correr normalmente. "Na sexta-feira, por causa das manifestações, praticamente não vendemos nada", disse Luis Acosta, proprietário de uma ótica. "Hoje (sábado) as coisas parecem estar voltando ao normal e já temos algum movimento."

No único incidente registrado, funcionários da TV estatal fizeram um piquete para impedir que o novo administrador entrasse na sede da emissora.

A crise política instalou-se em um Paraguai que começava a sentir os efeitos do bom desempenho da economia, nos últimos anos. Mas, coincidentemente, no mesmo dia em que o presidente Fernando Lugo foi destituído pelo Congresso, o Banco Central anunciou que, depois de registrar um crescimento de 4,4% em 2011, o país deve sofrer uma retração de 2,6% no primeiro trimestre de 2012 - causada pela seca, febre aftosa e a piora do cenário internacional. Nas ruas comerciais de Assunção, porém, parece haver um sentimento geral de que o país nunca esteve tão bem.

"Nosso faturamento vem subindo continuamente nos últimos anos por um simples motivo: as pessoas comuns têm mais dinheiro para gastar", afirma Barbara Blanco, proprietária de uma loja de roupas femininas. A pequena empresária diz que "apoiou muito" o processo que culminou na queda de Lugo, "mas (o presidente) foi muito correto em não fazer um chamado para a resistência e acatar a decisão do Senado". Apesar da crise diante do impeachment de Lugo, não foram registrados episódios de violência até agora, à exceção de um confronto diante do Senado no dia da votação que terminou com dois feridos.

Na sexta-feira, o Banco Central de Assunção, temendo os efeitos da crise política, decidiu injetar cerca de US$ 40 milhões na economia para garantir liquidez aos bancos. O presidente do BC, Jorge Corvalán, afirma que as reservas internacionais do país são de US$ 5 bilhões - o suficiente, segundo ele, para controlar a volatilidade da moeda.

A principal atividade econômica do Paraguai, porém, é o campo, setor que vinha sendo diretamente beneficiado pelo boom nos preços internacionais de commodities. A paisagem na zona rural vem sofrendo uma transformação rápida com o avanço do plantio de soja sobre áreas antes utilizadas para a criação de gado. "Estamos sendo empurrados cada vez mais ao norte do país por causa do avanço do soja", diz um pecuarista brasileiro. "Mas acredito que ainda existe uma ampla região a ser ocupada pelo gado." A piora no desempenho da economia paraguaia foi puxada pelos maus resultados no setor agropecuário, que sofreu uma queda de 28% no último trimestre. Um surto de febre aftosa obrigou a suspensão das exportações. / R.S.

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