Após crítica dos EUA, China eleva gastos militares em 17,6%

Pentágono acusa governo chinês de mentir sobre orçamento de Defesa

Cláudia Trevisan, PEQUIM, O Estadao de S.Paulo

05 de março de 2008 | 00h00

A China anunciou ontem aumento de 17,6% em seu orçamento de Defesa deste ano, um dia depois de o Pentágono divulgar documento no qual acusa o governo comunista de falta de transparência em questões militares e sustenta que os gastos de 2007 foram mais que o dobro dos US$ 45 bilhões admitidos oficialmente.A aprovação do orçamento militar será uma das tarefas do Congresso Nacional do Povo, o parlamento chinês, que começa hoje sua reunião anual. A previsão é que os gastos com Defesa atinjam US$ 57,2 bilhões, considerando a taxa de câmbio de dezembro de 2007. O valor representa pouco mais de 10% dos US$ 481,4 bilhões do orçamento de Defesa que o presidente George W. Bush apresentou ao Congresso - quantia que não inclui os esforços de guerra.Apesar da disparidade de valores, o Pentágono sustenta que a elevação dos gastos chineses é uma ameaça à estabilidade da região Ásia-Pacífico e tem o objetivo principal de evitar qualquer tentativa de independência de Taiwan, a ilha para onde fugiram os nacionalistas derrotados pelos comunistas na guerra civil que terminou em 1949."A falta de transparência nas questões militares e de defesa da China é uma ameaça à estabilidade, por aumentar o risco de mal-entendidos e erros de cálculo", diz o relatório. "Um potencial confronto militar com Taiwan e a perspectiva de intervenção militar continuam a ser a mais imediata preocupação do Exército de Libertação Popular", ressalta o texto. O governo chinês reagiu ao relatório e afirmou que os americanos devem abandonar a mentalidade da Guerra Fria. "[O DOCUMENTO]É uma séria distorção dos fatos, tenta interferir em questões internas da China e quebra as normas das relações internacionais", declarou Qin Gang, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores. "Nós conclamamos os EUA a abandonarem a mentalidade da Guerra Fria e terem um entendimento correto da China e do desenvolvimento chinês." GUERRA CIBERNÉTICAO Pentágono sustenta que a China tem "o mais ativo programa balístico do mundo" e possuía em novembro de 2007 entre 990 e 1.070 mísseis voltados para Taiwan. Os americanos afirmam ainda que a China está se capacitando para guerras cibernéticas e que há a suspeita de que o Exército de Libertação Popular tenha sido responsável por várias invasões de redes de computadores nos EUA e em outros países ocorridas no ano passado. Os chineses também estão testando armas anti-satélite e ampliando sua Marinha por meio da compra de submarinos e de planos para construção de novos porta-aviões, ressalta o relatório do Pentágono.A ameaça de independência de Taiwan está entre as principais preocupações do governo chinês, que repete estar pronto para um confronto armado caso a ilha se separe formalmente do continente. Nas próximas eleições presidenciais, no dia 22, os eleitores de Taiwan vão votar em um referendo para decidir se a ilha deve pleitear representação na ONU como país independente. O porta-voz do Congresso Nacional do Povo, Jiang Enzhu, afirmou ontem que a eventual aprovação da proposta vai colocar em risco a paz e a estabilidade no estreito de Taiwan. Segundo ele, a China não irá tolerar ameaças à sua soberania e integridade territoriais - o governo comunista vê Taiwan como uma província rebelde que cedo ou tarde será reunificada. Jiang observou que o orçamento militar da China é bem inferior ao de outras nações, tanto em relação ao PIB quanto em porcentual da receita total do Estado. No ano passado, segundo ele, os gastos de Defesa chineses representaram 1,4% do PIB e 7,2% do orçamento global do governo. Os percentuais foram, respectivamente, 4,6% e 16,6% nos EUA, 2% e 13,5% na França, 2,6% e 15,1% na Rússia, 3% e 6,9% na Inglaterra e 2,5% e 14,1% na Índia, afirmou.DIRETRIZESO Congresso Nacional do Povo começa hoje e termina no dia 18, quando o primeiro-ministro Wen Jiabao dará a única entrevista coletiva que concede a cada ano. Os cerca de 3.000 delegados, que também se reúnem apenas uma vez por ano, vão eleger os ocupantes dos cargos de comando do governo, de acordo com as diretrizes traçadas pelo Congresso do Partido Comunista realizado no ano passado. Outra tarefa do Congresso será aprovar uma ampla reforma administrativa, que vai enxugar a estrutura do Estado e concentrar diferentes atribuições em superministérios. O objetivo é transformar o modo como o governo funciona e aumentar a padronização, transparência e eficiência dos procedimentos. Mas este é um plano de longo prazo. A reforma começa agora e só deve ser concluída em 2020.

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