Tom Brenner/REUTERS
Tom Brenner/REUTERS

Após críticas de Trump, general mais graduado do Exército dos EUA defende líderes militares

Republicano os acusou de buscarem guerras para manter fabricantes de armas satisfeitos; Trump estaria contrariado por generais não terem saído em sua defesa após revista 'The Atlantic' dizer que ele chamou soldados mortos de perdedores

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2020 | 20h25

WASHINGTON - Um dia após o presidente americano, Donald Trump, acusar os líderes militares do país de buscarem guerras para manter os fabricantes de armas satisfeitos, o general mais graduado do Exército disse nesta terça-feira, 8, que os líderes das Forças Armadas só recomendam enviar tropas ao combate quando é do interesse da Segurança Nacional dos Estados Unidos ou em última instância. 

Questionado sobre as críticas de Trump sobrre os líderes do Pentágono, o chefe do Estado Maior do Exército, general James McConville, se recusou a fazer um comentário direto, dizendo que os militares deveriam ficar fora da política, principalmente perto de uma eleição. 

"Muitos desses líderes têm filhos e filhas que servem nas Forças Armadas, muitos desses líderes têm filhos e filhas que já estiveram em combate ou estão em combate agora", disse McConville, que foi indicado por Trump ao cargo, durante um fórum online organizado pela Defense One, uma organização de imprensa focada nas Forças Militares dos EUA. 

"Eu posso garantir ao povo americano que os principais líderes só recomendam enviar nossas tropas para o combate quando isso é requisitado pela Segurança Nacional, e como último recurso. Levamos muito, muito a sério como fazemos nossas recomendações", disse McConville. 

Trump tem cada vez mais enfrentado líderes do Pentágono por conta de uma série de questões, após inicialmente oferecer cargos importantes para generais aposentados em seu governo. 

Em uma entrevista coletiva na Casa Branca na segunda-feira, Trump criticou seu rival nas eleições de novembro, Joe Biden, descrevendo-o como um defensor de "guerras sem fim" antes de voltar suas críticas aos líderes militares que ele mesmo indicou, dizendo que eles estão interessados em conflitos para satisfazer a indústria bélica militar. 

'Perdedores' e 'otários'

A reclamação incomum de Trump dos militares vem depois de um artigo publicado pela The Atlantic alegar que em 2018 ele se recusou a visitar o cemitério militar Aisne-Marne, onde os americanos que morreram na Batalha de Belleau Wood na 1ª Guerra estão enterrados, alegando que o local estava cheio de "perdedores" e "otários". A revista afirmou ainda que ele se recusou a visitar o cemitério também por temer que a chuva arruinasse o seu cabelo e por acreditar que a visita não era importante. 

O cemitério em território francês é considerado sagrado pelo Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos e nele repousam mais de 2 mil americanos que morreram na campanha no verão de 1918 no Vale do Marne contra as tropas alemãs, muitos deles estão sob lápides sem nome. 

Trump negou repetidamente que tenha feito essas declarações, mas nenhum membro importante do Pentágono ou do sistema militar foi a público defendê-lo. As declarações foram confirmadas por várias fontes que estiveram no topo da administração Trump para o Washington Post, a CNN e a Fox News. 

O silêncio que mais chamou a atenção foi o do ex-chefe de gabinete de Trump e general quatro estrelas aposentado John Kelly, que não saiu a público para negar as revelações atribuídas ao presidente, apesar de o ter acompanhado naquela viagem à França em 2018 e ter sido um homem da confiança do presidente durante os primeiros três anos de mandato. 

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A visita ao cemitério militar foi oficialmente cancelada porque o helicóptero em que o presidente viajava não tinha condições de pousar com as condições climáticas do dia. 

Por enquanto, o ex-conselheiro de segurança nacional John Bolton, que recentemente publicou um livro criticando o presidente, e o assessor de Kelly, Zach Fuentes, são as vozes mais importantes que negaram ter ouvido o presidente tratar os soldados de maneira tão desrespeitosa. 

Trump se defendeu garantindo que mostrou sua preferência pelos militares ao aumentar os orçamentos de defesa e com a crença de que as patentes mais baixas o apoiam e votam nele, algo que demostraria a corrosão da hierarquia militar em um momento de alta polaridade política no país. 

As revelações sobre as declarações de Trump, que afirmou publicamente que o senador republicano John McCain (morto em 2018), prisioneiro da Guerra do Vietnã, foi um "perdedor" por se deixar capturar, caem no meio da reta final da campanha e já são usadas em anúncios eleitorais contra o presidente. 

Embora as famílias de militares tradicionalmente se declarem 55% conservadoras, uma pesquisa do mês passado do jornal Military Times garantiu que o republicano está perdendo espaço entre os uniformizados, e teria apenas 37,4% de intenção de votos entre eles, enquanto 41,3% preferem o candidato democrata. No Arizona, um Estado-chave nas eleições de 3 de novembro, até um décimo da população adulta serve nas Forças Armadas. /REUTERS e EFE 

 

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