REUTERS/Jonathan Ernst
REUTERS/Jonathan Ernst

Após cúpula, Trump distorce fatos sobre relações entre EUA e Coreia do Norte

Presidente americano faz comentários a partir de informações falsas envolvendo Pyongyang e afirma que todos os restos mortais dos desaparecidos na guerra de 1953 serão repatriados

O Estado de S.Paulo

12 Junho 2018 | 18h11

WASHINGTON - O presidente americano, Donald Trump, encerrou seu compromisso em Cingapura com uma entrevista coletiva durante a qual fez declarações distorcendo fatos históricos e alimentando promessas impossíveis. Confira como sua versão se distancia dos fatos:

Trump: "O presidente Kim e eu acabamos de assinar uma declaração conjunta na qual ele reafirma seu compromisso inabalável para completar a desnuclearização da Península Coreana. Também concordamos em negociações vigorosas para implementar o acordo outro governo, que nunca começou [as negociações] e, portanto, nunca fez isso."

Fato: Trump erra ao sugerir que seu governo é o primeiro a negociar a desnuclearização com a Coreia do Norte. Os governos de Bill Clinton e George W. Bush também fizeram isso. Clinton chegou a um acordo para o desarmamento em 1994, que suspendeu a produção de plutônio do país por oito anos, congelando o que era, à época, um pequeno arsenal atômico. Bush já adotou um posicionamento mais rígido. O acordo de 1994 terminou em meio às suspeitas de que Pyongyang estava mantendo um programa secreto para enriquecimento de urânio. No entanto, Bush também buscou negociar. Algumas instalações nucleares foram temporariamente desativadas, mas as conversações não seguiram adiante em razão dos desentendimentos quanto à inspeção das instalações.

Trump: "Ele realmente mencionou o fato de que eles seguiram por um caminho no passado e, no fim das contas, como vocês sabem, nada foi feito. Em um dos casos, eles levaram bilhões de dólares do governo Clinton. Levaram bilhões de dólares e nada aconteceu. Ele disse sobre Clinton [que] 'Ele gastou US$ 3 bilhões e não conseguiu nada'".

Fato: Os números estão incorretos. O governo Clinton e o governo Bush forneceram cerca de US$ 1,3 bilhão em assistência de 1995 a 2008, segundo diz o Serviço de Pesquisa do Congresso. Pouco mais da metade do dinheiro foi utilizado para alimentação e cerca de 40% foi aplicado no setor energético. Trump também erra ao dizer que "nada aconteceu" em troca. A Coreia do Norte parou de produzir plutônio por oito anos sob o acordo de 1994. Os resultados, no entanto, são indefinidos, já que mais tarde surgiram as suspeitas de que o país estava em busca do enriquecimento de urânio.

Trump, sobre as famílias de soldados desaparecidos na Guerra da Coreia: "Eles querem os restos mortais de seus pais e mães e de todas as pessoas que foram sequestradas naquela guerra realmente brutal, que ocorreu, em grande parte, na Coreia do Norte. E eu pedi isso hoje. E nós conseguimos. Então, para os milhares e milhares - acho que mais de 6 mil reconhecidos em termos de restos mortais - eles serão trazidos de volta.

Fato: Trump exagera no número de desaparecidos e encobre as possibilidades certamente impossíveis de localizar os restos mortais de "todas as pessoas" mais de seis décadas depois da Guerra da Coreia. Dos quase 7,8 mil soldados americanos desaparecidos no conflito, cerca de 5,3 mil se perderam na Coreia do Norte. Milhares também desapareceram na Coreia do Sul, apesar da estreita aliança e histórico de cooperação do país com os EUA. Coreia do Norte e EUA permanecem tecnicamente em guerra porque os combates de 1950-1953 terminaram com um armistício, e não um tratado de paz. Mas de 1996 a 2005, equipes de busca militar conjunta dos EUA e Coreia do Norte conduziram 33 operações de recuperação e resgataram 229 conjuntos de restos mortais americanos. O documento assinado na terça-feira inclui a retomada dos trabalhos para repatriar os restos mortais dos prisioneiros desaparecidos no conflito.

Trump: "Eu me lembro de ouvir no rádio sobre um evento nuclear que ocorreu - 8,8 na escala Richter. Anunciaram um terremoto enorme, sabe, que um terremoto tinha ocorrido na Ásia. Disseram que era na Coreia do Norte e então descobriram que era um teste nuclear. Eu nunca tinha ouvido falar de uma escala Richter na casa de oito."

Fato: A Coreia do Norte não teve nenhum terremoto no ano passado neste nível de severidade. Esta não é a primeira vez que Trump deturpa o episódio. Em setembro, o país testou o que chamou de bomba de hidrogênio, causando um abalo subterrâneo tão forte que foi registrado como um terremoto de magnitude 6,3 graus. Outros testes nucleares no ano passado foram associados a eventos sísmicos menores. Um terremoto de escala 8,8 seria 316 vezes maior e liberaria 5,6 mil vezes mais energia do que um de escala 6,3. / AP

 

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