Bertrand GUAY / AFP
Bertrand GUAY / AFP

Após decapitação de professor na França, onze são presos por elo com agressor

Pais, avô e irmão caçula do terrorista e outras cinco pessoas de seu entorno foram detidas pela polícia

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2020 | 15h24

PARIS - Onze pessoas foram detidas na França depois que um professor foi decapitado na sexta-feira, 16, na periferia de Paris, após exibir charges do profeta Maomé a seus alunos. Ele foi assassinado por um jovem de 18 anos, de origem chechena. Parte das autoridades classificou o ato como um "ataque islâmico". O crime chocou a França. Desde 2015, o país sofre uma série de ataques extremistas que deixaram mais de 250 mortos.

Samuel Paty, um professor de história e geografia de 47 anos motivado e próximo de seus alunos, segundo aqueles que o conheciam, foi decapitado no meio da rua, durante a tarde, próximo à escola onde trabalhava, em Conflans-Sainte-Honorine, uma pequena cidade de 35 mil habitantes localizada a 50 quilômetros de Paris.

Imediatamente após o ataque, a polícia tentou deter na área um homem armado com uma faca, que os ameaçou. Os policiais reagiram e abriram fogo, matando o agressor. Sua identidade foi confirmada neste sábado, 17. Ele tinha 18 anos, nasceu na Rússia, mas era checheno. Não tinha antecedentes criminais, embora já tenha cometido um delito leve. Os serviços de segurança também não haviam registrado uma possível radicalização do suspeito.

Até o momento, entre os presos estão quatro familiares do agressor (pais, avô e irmão caçula) e outras cinco pessoas de seu entorno. Entre elas, está o pai de um aluno do instituto, onde a vítima trabalhava. Ele e o professor tiveram uma discussão, depois que as charges de Maomé foram apresentadas em uma aula dedicada à liberdade de expressão.

Samuel Paty foi alvo de uma campanha nas redes sociais antes do ataque. Segundo o primeiro-ministro Jean Castex, o governo francês vai trabalhar em uma estratégia para proteger professores de ameaças.

Após o crime, a Procuradoria Nacional Antiterrorista abriu uma investigação por "assassinato vinculado a uma empreitada terrorista" e "associação criminosa terrorista".

'O obscurantismo e a violência não passarão' 

O presidente Emmanuel Macron foi imediatamente ao local do assassinato e convocou "toda nação" a se unir em torno dos professores para "protegê-los e defendê-los".

"Não passarão. O obscurantismo e a violência que o acompanha não vão ganhar", frisou o presidente.

Neste sábado, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, enviou pelo Twitter uma mensagem de solidariedade a todos os professores "na França e na Europa". "Sem eles, não há cidadãos, sem eles, não há democracia", afirmou Ursula.

Rodrigo Arenas, copresidente da FCPE, a maior associação francesa de pais de alunos, confirmou que recebeu uma denúncia, há alguns dias, de "um pai extremamente irritado", porque um charge de Maomé foi mostrada na aula de sua filha. 

Segundo Arenas, para não ferir a sensibilidade de alguns, o professor teria "convidado os alunos muçulmanos a saírem da sala" antes de mostrar a imagem do profeta agachado, com uma estrela desenhada nas nádegas, e a inscrição "nasce uma estrela".

Uma vingança por Maomé 

A polícia também está investigando uma mensagem que pode ter sido postada no Twitter pelo agressor, mostrando uma foto da cabeça da vítima. O mesmo autor também enviou uma mensagem a Macron, chamando-o de "líder dos infiéis" e disse que quis se vingar da pessoa que "se atreveu a menosprezar Maomé".

Em janeiro de 2015, a redação do semanário satírico francês Charlie Hebdo, que publicou charges sobre Maomé, foi atacada por dois extremistas e 12 pessoas foram mortas. Em 13 de novembro do mesmo ano, Paris foi palco de vários ataques simultâneos de jihadistas, que resultaram em 130 mortes e 350 feridos.

"Os valores fundamentais da República são afetados: primeiro, a liberdade de imprensa com o Charlie Hebdo e, agora, a liberdade de ensinar", disse o primeiro-ministro francês, Jean Castex, segundo seu porta-voz.

O ataque aconteceu exatamente três semanas após um ataque a faca cometido por um paquistanês de 25 anos perto da antiga redação do Charlie Hebdo. Nele, duas pessoas ficaram feridas. O autor da agressão disse aos investigadores que quis vingar a redivulgação das ilustrações do profeta, pelo semanário, em setembro.

Na sexta-feira, Charlie Hebdo manifestou no Twitter seu "horror e indignação depois que um professor no exercício de sua profissão foi morto por um fanático religioso".

Na manhã deste sábado, várias rosas foram depositadas na entrada do centro educacional onde o crime foi cometido o crime. / AFP

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