AP Photo/Rodrigo Abd
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Após desarmamento, ex-guerrilheiros das Farc lutam contra analfabetismo

Luis, de 46 anos, nunca foi à escola, mas agora quer terminar os estudos e ir à universidade pois sonha em ser engenheiro

O Estado de S.Paulo

28 Agosto 2017 | 10h35

PONDORES, COLÔMBIA - Aos 46 anos, Luis, um ex-guerrilheiro das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) que se juntou ao grupo quando era adolescente, sabe que, agora que entregou sua arma, a próxima luta que terá pela frente não será contra as forças de segurança colombianas, mas contra o analfabetismo.

Luis, que prefere não revelar seu verdadeiro nome pois tem medo de represálias ligadas ao longo conflito no país, nunca foi à escola. A pobreza fez com que estudar fosse uma utopia. Ele disse ter nascido "em algum lugar de Córdoba", um departamento ao norte da Colômbia onde vive sua família, a qual deixou para trás quando tinha 17 anos para se juntar à guerrilha. Desde então, não entrou mais em contato para dizer que está vivo por temer retaliações.

"Não foi fácil. Equivocam-se as pessoas que pensam que combatemos por que gostamos. Na realidade ninguém quer morrer de um tiro, passar fome e sempre ter medo de que haja um bombardeio, mas é que às vezes as opções se reduzem a estar assim ou a não ter nada", disse Luis.

Ainda que de olhar firme e pele curtida pelo sol que suportou durante as intermináveis caminhadas pela selva quando o conflito entre as Farc e o governo da Colômbia estava no seu apogeu, ele desmorona ao afirmar que sente tristeza pelo fato de a sociedade acreditar que o ex-combatente não tem sentimentos.

"Tenho família e a amo, e gostaria de lhe dizer para que viesse e meus camaradas a conhecessem e soubessem que não estou só. Mas apesar de a paz já ter sido assinada, ainda não há condições de segurança para fazer isso", argumentou.

Por isso, ele prefere esperar e, quando acontecer o tão desejado reencontro com seus parentes, quer levar a eles a surpresa de que estudou e aprendeu a ler e a escrever. "Desde que nos desmobilizamos, tive tempo para pensar que a primeira coisa que tenho de fazer é completar o ensino fundamental, depois o médio e finalmente ir à universidade, porque gostaria de ser um engenheiro", afirmou.

A atitude de Luis muda quando fala do futuro, e pouco a pouco o lado rude dá espaço a sorrisos e esperança. Porém, a tristeza volta ao lembrar que não são apenas os ex-guerrilheiros que se viram na necessidade de fazer parte da luta.

"Penso que os soldados são os nossos irmãos e, ainda que não pareça, eu sentia dor de ter que enfrentá-los, porque muitos deles são pobres como eu, analfabetos como eu, e tiveram de entrar para o exército para poder ter algo na vida", analisou.

Agora que foi completado o desarmamento das Farc, as 26 chamadas Zonas de Vereda Transitórias de Normalização (ZVTN), nas quais os guerrilheiros se desmobilizaram, vão se transformar em "Espaços Territoriais de Capacitação e Reincorporação". É em uma delas que Luis acredita que em breve poderá realizar o sonho de estudar.

A esperança é compartilhada por Albeiro Sánchez, outro membro da frente 59 das Farc em Pondores, um pequeno povoado no sul do Departamento (Estado) de Guajira, na fronteira com a Venezuela. O sonho do ex-guerrilheiro é ser agrônomo e poder se estabelecer em algum lugar da Colômbia onde possa trabalhar com a terra.

"Após nove anos na guerrilha, quero me tornar alguém que seja produtivo para a sociedade. Acredito que todos os ex-combatentes temos de pagar essa dívida, e por sua vez o Estado deve nos oferecer as oportunidades que antes nos negou e foram o motivo de todo esse confronto", reivindicou.

Assim, Luis, Sánchez e os outros 7 mil guerrilheiros das Farc que aceitaram o acordo de paz assinado em novembro de 2016 com o governo sabem que, em vez das armas de ontem, hoje precisam estar munidos de lápis e cadernos. / EFE

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