Após desastre, vítimas de tsunami voltam para casa

Em Otsuchi, cidade arrasada por onda gigante, desabrigados retornam em busca de objetos pessoais

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2011 | 00h00

Olhando da janela do que restou de sua casa, Kaiokoyo Tanaka, de 66 anos, traça um mapa da destruição humana que a cerca. Trezentos metros rua acima, sua irmã mais velha foi arrastada pelas ondas. A mais nova morreu em um bairro vizinho. Do outro lado da rua, uma jovem de 27 anos morreu e, na casa ao lado, uma mulher de 87 anos sucumbiu ao tsunami.

Só nas redondezas de onde ela vivia, na cidade de Otsuchi, 50 pessoas morreram e 100 estão desaparecidas. Enquanto ela fala com a reportagem do Estado, seu sobrinho, filho da irmã mais velha, chega ao local. Além da mãe, Haga Toshioki também perdeu a mulher.

Os três estavam em casa no momento que em o tsunami atingiu Otsuchi. Não fugiram por imaginar que viviam longe o bastante da praia para ser ameaçados pelas ondas gigantes. Haga só lembra de submergir na água e acordar quando a tempestade havia passado, levando a mãe e a mulher. "Eu vivo como se estivesse na escuridão. Só posso pensar em comer e dormir. Não tenho a menor ideia do que vou fazer a partir de agora."

Mais da metade da cidade de Otsuchi desapareceu sob a violência do tsunami. De seus 15.000 habitantes, 6.200 estão em abrigos montados nas escolas e templos da cidade. O número de mortos ainda é desconhecido. Moradores caminham pelo que antes eram suas ruas, contemplam os escombros de suas antigas casas e tentam resgatar objetos que carreguem parte da memória do que viveram antes da tragédia, como fotos.

Kawasaki Nao, de 18 anos, busca a avó de 72 anos, que desapareceu com o tsunami. Já esteve em todos os abrigos e necrotérios de Otsuchi, mas não a encontrou. Ontem, ela remexia nos escombros da casa, da qual havia conseguido resgatar algumas fotografias e uma caixa na qual estava a aliança de casamento dos avós.

O pescador Kamaishi Susumu olhava com incredulidade para o entulho em que se transformou a casa de 80 anos de história que havia pertencido a seu pai. Além de não ter onde morar, Kamaishi acredita que nunca mais voltará a pescar. "O barco se foi e a associação de pescadores foi destruída. Tudo acabou."

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