Após desculpas do rei, Madri debate monarquia

Mídia discute abertamente futuro de instituição, após escândalo que envolveu Juan Carlos

HELENE ZUBER , DER SPIEGEL / MADRI, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2012 | 03h04

Como foi o pedido de desculpas de um rei que se desviou do caminho da virtude aos olhos de seu povo? Com uma expressão contrita no noticiário da TV e um show de humildade: "Peço desculpas. Agi de maneira errada, isso não voltará a acontecer", assegurou Juan Carlos, de 74 anos, aos espanhóis, na semana passada.

"Um gesto sem precedentes", comentou um colunista no diário de Madri El País. O povo ficou sabendo que o rei tinha ido caçar elefantes em Botsuana porque quebrara o quadril na noite anterior e teve de voltar às pressas para submeter-se a uma cirurgia.

Conforme os espanhóis souberam pelos jornais, ele era convidado de um magnata saudita e estava na companhia de uma mulher alemã. As fotos do grande caçador nas primeiras páginas dos diários, segurando o rifle na frente de um animal cinzento e um troféu de marfim, irritou até mesmo os fiéis partidários da casa real. Ele caçava num safári de luxo (que teria custado mais de 40 mil) enquanto os mercados financeiros exigiam ágios cada vez mais altos pelos títulos do governo espanhol. Neste momento, o premiê conservador Mariano Rajoy precisa acrescentar ao seu pacote de austeridade de 27 bilhões outros 10 bilhões por meio de cortes no orçamento da educação e da saúde. Para piorar a situação, a petrolífera espanhola Repsol está sendo de fato expropriada na Argentina. Em outras palavras, enquanto o chefe de Estado se divertia na África, seus súditos viviam uma das piores semanas do ano.

O pedido de desculpas do rei representa uma mudança radical. Será que esse homem fraco precisará abdicar? Como a monarquia poderá continuar? Essas são as perguntas discutidas nos blogs e programas de entrevistas, enquanto na imprensa os colunistas debatem publicamente a sobrevivência de uma instituição que até pouco tempo atrás era considerada sacrossanta.

Capacidade de sedução. Desde a coroação, há mais de 36 anos, após a morte do general Francisco Franco, Juan Carlos sempre trabalhou para obter respeito e admiração dos espanhóis. Sua atuação foi fundamental na transição para a democracia, após quase 40 anos de uma ditadura profundamente católica, que resultou na Constituição de 1978, na qual a Espanha passou a ser definida como uma monarquia parlamentar.

Quando a Guarda Civil ocupou o Parlamento, em fevereiro de 1981, o rei ajudou a evitar o golpe. Desde então, ele tem sido poupado de toda crítica. A própria imprensa sensacionalista preferiu calar a respeito do seu estilo de vida, até quando havia consideráveis motivos para comentários. Depois de ter conquistado o trono com a ajuda da mulher, a rainha Sofia, Juan Carlos teria praticado sua capacidade de sedução fora do quarto do casal no Palácio de Zarzuela.

Na Ilha de Mallorca, onde a família real tem sua residência de verão, surgiram boatos sobre um romance entre o rei e uma decoradora do lugar. Mais tarde, os madrilenhos sussurraram que frequentemente, à noite, irreconhecível em sua roupa de couro preta e capacete, o rei montado em sua motocicleta desaparecia na garagem da casa de uma ex-miss. Até agora, a rainha manteve as aparências de um casamento intacto e cumpriu as obrigações do cerimonial. Mas depois da operação no quadril do marido, ela esperou que se passassem 72 horas antes de aparecer à sua cabeceira, onde permaneceu por apenas 15 minutos.

A Omertà - como uma fonte próxima da família real que prefere não ter o nome divulgado chama o atual pacto de sigilo, referindo-se ao código de silêncio da Máfia - agora foi quebrada. No início deste ano, a escritora Pilar Eyre publicou seu livro La Soledad de la Reina (a solidão da rainha), no qual expõe a infidelidade crônica do monarca.

Juan Carlos teria tido 1.500 amantes. Ele chegou a flertar com a princesa Diana, de Gales. Depois do seu acidente de caça, os jornalistas falaram abertamente pela primeira vez o nome de sua companheira de safári alemã: Corinna zu Sayn-Wittgenstein, de 47 anos, uma mulher com dois casamentos fracassados e dois filhos.

A falta de confiança dos espanhóis em seu rei se aprofundara por um escândalo que envolveu seu genro preferido, Iñaki Urdangarin. O ex-jogador de handebol originário do País Basco mora com a princesa Cristina e seus quatro filhos em Barcelona. O casamento foi importante para a família real, pois ajudou a fortalecer os laços entre a monarquia e os bascos e catalães, que lutam pela secessão da Espanha.

Mas agora o genro vem sendo chamado para depor no tribunal de Palma de Mallorca desde fevereiro, suspeito de ter-se apropriado de fundos públicos por intermédio de uma fundação beneficente. Na semana passada, o juiz do caso teria recebido documentos que provariam que o próprio Juan Carlos garantia as negociatas de Urdangarin, que cobrava comissões em eventos esportivos. Em seu discurso de Natal, o rei disse que "a Justiça é igual para todos".

Numa pesquisa de opinião realizada em outubro por um instituto de pesquisa de Madri, a família real nem sequer foi considerada "adequada". Os jovens espanhóis abaixo dos 25 anos, 50% dos quais estão desempregados, aparentemente não mais apreciam os esforços de Juan Carlos durante a transição da Espanha para a democracia.

No fim de dezembro, a família real foi obrigada a revelar sua renda anual. No ano passado, ela recebeu do Estado 8,4 milhões. A rainha da Grã-Bretanha, em comparação, recebe quase cinco vezes essa quantia. Em 2012, o orçamento da família real espanhola foi reduzido em 2%. O salário bruto anual do monarca é de 292.752, enquanto o herdeiro do trono recebe menos de 150 mil. Ambos pagam imposto de renda de aproximadamente 40%.

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