Mariana Greif/Reuters
Mariana Greif/Reuters

Vitória da direita no Uruguai deve ser confirmada após recontagem

Vantagem do senador Lacalle Pou, do Partido Nacional, sobre Daniel Martínez, ex-prefeito de Montevidéu e candidato da Frente Ampla, é de apenas 28 mil votos

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2019 | 19h51
Atualizado 25 de novembro de 2019 | 11h56

MONTEVIDÉU - A eleição presidencial deste domingo, 24, no Uruguai foi marcada pelo contraste entre a calma das ruas e o frenesi da apuração. O resultado final dá uma pequena vantagem de 28 mil votos ao senador conservador Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, sobre Daniel Martínez, candidato da governista Frente Ampla – 1,2 ponto porcentual, com 100% das urnas apuradas. 

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Como a diferença é muito pequena, o tribunal eleitoral anunciou na noite de domingo que só oficializará um vencedor na “quinta ou sexta-feira”. A razão, segundo a corte, é que a vantagem de Lacalle Pou é menor do que os “votos observados” – voto de pessoas que trabalham nas mesas de votação e militares encarregados das urnas. 

Ao todo, são cerca de 35 mil “votos observados” no Uruguai, que também precisariam ser contados. Analistas, no entanto, dizem que, para que Martínez vire o jogo, ele precisaria de obter mais de 90% dos “votos observados”. Por isso, segundo eles, é possível dizer que Lacalle Pou provavelmente venceu, mas o resultado final ainda precisa ser homologado. 

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Lacalle Pou está convencido de que a recontagem de votos confirmará sua vitória sobre Martínez. "Do nosso ponto de vista é irreversível" o resultado, afirmou ele pouco depois de anunciada a decisão da corte de não confirmar um vencedor no domingo.

Votação marcada por calma e tranquilidade

Em contraste com outras situações de tensão e violência vividas em países da região, os uruguaios votaram no segundo turno das eleições presidenciais com calma e tranquilidade. No meio da tarde, em uma escola secundária de Montevidéu, os policiais destacados para fazer a segurança das urnas passavam o tempo tomando mate e olhando os celulares.

Desde as primeiras horas do dia, os 7.122 centros de votação começaram a receber 2,7 milhões de eleitores que estavam habilitados a votar. Até as 19h30, quando a votação se encerrou, o comparecimento chegou a 90%, segundo o tribunal eleitoral – no Uruguai, o voto é obrigatório e não é permitido votar pelo correio ou em missões diplomáticas fora do país. 

“Foi uma festa da democracia, com respeito e tolerância, na qual conseguimos conviver nas ruas com pessoas que apoiavam a outra candidatura”, disse Martínez, logo após a votação, em mensagem a militantes. “Na democracia, é preciso alternar pessoas e partidos”, disse o presidente Tabaré Vázquez, da Frente Ampla. “Não há nenhum drama nisso.”

Emoção

A tranquilidade, porém, não significa falta de emoção. Martínez havia vencido o primeiro turno, com 39% dos votos. Lacalle Pou obteve 29,6%. Para o segundo turno, porém, era esperada uma virada da oposição conservadora, que conseguiu apoio dos outros partidos: Colorado, Cabildo Abierto e Partido de la Gente.

Na véspera da eleição, todos os institutos de pesquisa cravavam vitória folgada de Lacalle Pou, com cerca de 47% das intenções de voto – Martínez estava na casa dos 41%. Hoje, encerrada a votação, três pesquisas de boca de urna indicaram vitória do candidato conservador, mas por margem apertada. Uma sondagem apontou empate entre os dois. 

Durante a apuração, mais emoção. Com 30% dos votos contados, Lacalle Pou mantinha uma diferença de 8 pontos porcentuais sobre o rival. Mas, com 76% da apuração concluída, a diferença havia caído para 3 pontos porcentuais. Mais tarde, com 95% dos votos contados, a distância era de 1,4 ponto porcentual e, com 100%, de 1,2 ponto porcentual.

Segurança e economia

A pequena diferença surpreendeu porque o cenário era desfavorável à Frente Ampla, principalmente em razão do desgaste dos 15 anos de governos sucessivos do partido. A maior queixa dos uruguaios é a insegurança. O país é considerado seguro no violento contexto latino-americano, mas registrou um aumento de 45% dos casos de homicídio, entre 2017 e 2018. A taxa passou de 5,7 assassinatos entre cada 100 mil habitantes, em 2005, para 8,4 assassinatos entre cada 100 mil habitantes, em 2015.

Outro problema enfrentado pela Frente Ampla foi de caráter econômico. O Uruguai parou de crescer e o desemprego foi a 9,5%, em meio a queixas a respeito do alto custo das tarifas públicas, do preço do combustível e da pressão tributária. “O Uruguai não aguenta mais impostos”, repetiu durante a campanha Lacalle Pou, que prometeu não aumentar a carga tributária e criar US$ 900 milhões de poupança para baixar o déficit fiscal.

Após 15 anos de governo, a Frente Ampla também se afastou do interior do país e concentrou seus votos em áreas urbanas, especialmente na capital. Um reflexo do distanciamento entre a esquerda e as zonas rurais foi o fato de o partido ter lançado uma chapa liderada por Martínez, ex-prefeito de Montevidéu, e Graciela Villar, que também integrou o governo departamental da capital. Tudo isso contribuiu para a derrota da Frente Ampla, a primeira desde 2004. / AFP, AP e REUTERS

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