Johanna Alarcon/The New York Times
Johanna Alarcon/The New York Times

Após eleição no Equador, partido indígena será o fiel da balança

Seu candidato não chegou ao segundo turno presidencial, mas a exibição poderosa do partido no primeiro turno transformou a agenda nacional.

José María León Cabrera e Anatoly Kurmanaev, The New York Times, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2021 | 05h00

TARQUI, EQUADOR- Embora seu candidato não tenha participado do segundo turno, nem apoiado Guillermo Lasso, o ex-banqueiro que se tornou o presidente do Equador, o grande vencedor da eleição de domingo estava claro antes da primeira votação: o movimento indígena há muito marginalizado do país.

O Partido Indígena e seus aliados sacudiram o país no primeiro turno, em fevereiro, vencendo em metade de todos os Estados, tornando-se a segunda maior presença no Congresso e transformando a agenda dos candidatos da corrida presidencial, o esquerdista Andrés Arauz e o conservador Guillermo Lasso.

“A política do Equador nunca mais será a mesma”, disse Farith Simon, professor de direito e colunista equatoriano. “Ainda há racismo, mas também há uma reivindicação do valor da cultura indígena, do orgulho de seu papel nacional.”

Ansiosos para cortejar os eleitores indígenas e cientes da necessidade de trabalhar com o novo e poderoso bloco indígena no Congresso, Arauz e Lasso reformularam suas mensagens e mudaram a disputa da polarização do campo socialista versus conservador que definiu a política nacional por anos. Em vez disso, estão surgindo debates sobre a profunda desigualdade do Equador e um modelo econômico baseado na exportação de petróleo e metais extraídos de terras indígenas.

Ambos os candidatos prometeram promulgar maiores salvaguardas ambientais e conceder às comunidades indígenas mais voz sobre a extração de recursos. Lasso prometeu melhorar as oportunidades econômicas para os povos indígenas, que, apesar de décadas de progresso, estão muito aquém da média nacional no acesso à educação, saúde e empregos.

Arauz, 36, um economista que liderou no primeiro turno de votação, prometeu liderar o Equador como um verdadeiro país “plurinacional” em reconhecimento a seus 15 países indígenas. Embora em grande parte simbólica, a designação foi buscada por décadas pelo partido indígena do país, Pachakutik, como um poderoso reconhecimento da posição central de seu povo no Equador.

A ascensão de Pachakutik no cenário nacional não só chamou a atenção para a minoria indígena do país, mas também levantou questões mais profundas de identidade para todo o eleitorado. Embora apenas 8% dos equatorianos tenham se identificado como indígenas no último censo, grande parte da população é etnicamente mista.

“Esta é uma conversa difícil para nós como nação, mas não há como voltar atrás”, disse Simon.

O maior responsável pela mudança política foi o ativista ambiental Yaku Pérez, o candidato presidencial de Pachakutik no primeiro turno de votação de fevereiro.

Pérez, 52, perdeu por pouco a chance de participar do segundo turno, mas ampliou muito o histórico apelo de um dígito de Pachakutik com seu apoio aos direitos das mulheres e igualdade para pessoas L.G.B.T. e esforços para combater as alterações climáticas. 

Pérez também apoiou o direito ao aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, criando tensões dentro de seu eleitorado indígena socialmente conservador.

“Pérez teve uma enorme capacidade de abrir seus horizontes, seu discurso, para incorporar temas que não existiam” na política equatoriana, disse Alberto Acosta, ex-candidato à presidência do Pachakutik.

A ascensão de Pérez é parte de uma mudança geracional mais ampla nos movimentos de esquerda da América Latina. Parcialmente motivados pela mídia social e protestos políticos nos Estados Unidos, onde a maioria das nações latino-americanas têm grandes diásporas, os políticos mais jovens de esquerda estão priorizando meio ambiente, gênero e questões de minorias em vez da doutrina marxista de seus mentores.

No vizinho Peru, Verónika Mendoza, 40, está entre as principais concorrentes na eleição presidencial de domingo, prometendo conceder títulos de terra às comunidades indígenas e proteger o meio ambiente. Na Bolívia, a líder indígena Eva Copa, de 34 anos, venceu recentemente uma corrida para prefeito em El Alto, uma cidade considerada um termômetro da votação nacional. 

“Esta nova geração de líderes está indo além da divisão tradicional esquerda-direita, desafiando a dependência histórica de seus países em grandes projetos de mineração, petróleo e agronegócio para o crescimento econômico”, disse Carwil Bjork-James, antropólogo da Universidade Vanderbilt, no Tennessee.

“Essas são grandes questões continentais que os movimentos indígenas vêm fazendo há muito tempo”, disse Bjork-James. “Ver essas perguntas sendo feitas politicamente é um novo nível.”

Tal estrutura é míope, dizem os rivais de Pérez. As nações sul-americanas não têm alternativa a não ser contar com a receita de matérias-primas para se recuperar da pandemia. E somente por meio do desenvolvimento econômico, dizem eles, as desigualdades podem ser totalmente abordadas.

No Equador, Pérez conseguiu obter quase 20% dos votos de fevereiro, e seu partido e seus aliados subiram de nove para 43 cadeiras no Congresso nas eleições, tornando-se lideranças na legislatura fragmentada de 137 cadeiras do país.

A campanha inicialmente se concentrou no legado de Rafael Correa, o presidente democrático mais longevo do Equador. Ele tirou milhões da pobreza durante um boom de commodities na década de 2000, mas seu estilo autoritário e as acusações de corrupção que o perseguiam deixaram a nação profundamente dividida.

Correa, que deixou o cargo em 2017, escolheu Arauz para representar seu movimento de esquerda neste ano, catapultando o jovem de 36 anos para o topo das pesquisas, apesar de sua experiência limitada. Lasso centrou sua mensagem inicial de campanha no temor de que Correa continuaria a exercer influência.

Mas os resultados do primeiro turno “mostraram que uma grande parte da população não quer ser encaixotada neste conflito entre os apoiadores e oponentes de Correa, o que reduz os problemas dos equatorianos a uma visão binária”, disse Acosta, o ex-candidato .

O sucesso eleitoral de Pachakutik neste ano remonta a uma onda de protestos nacionais em outubro de 2019, quando o movimento indígena marchou sobre a capital, Quito, para exigir a revogação de um corte profundamente impopular nos subsídios à gasolina. Os protestos se tornaram violentos, com pelo menos oito mortos, mas o governo retirou o corte de subsídios após 12 dias de distúrbios.

“Mostramos ao país que os indígenas buscam a transformação desse sistema dominante que só atende aos mais ricos”, disse Diocelinda Iza, líder da nação kichwa na província central de Cotopaxi.

A vida de Pérez, o candidato presidencial índigena, incorpora as angústias do movimento indígena. Ele nasceu em um vale alto dos Andes, no sul do Equador, em uma família de agricultores empobrecidos. Seu pai era Kichwa, sua mãe Kañari.

Seus pais trabalhavam na propriedade de um fazendeiro local sem receber pagamento em troca de viver em sua propriedade, um arranjo rural que mudou pouco desde os tempos coloniais.

Desde a infância, Pérez disse que se lembra do trabalho aparentemente interminável nos campos, das dores da fome e da humilhação que sentiu na escola quando sua mãe ia às reuniões de pais vestida com saias tradicionais.

“Senti muita vergonha de ser indígena, de vir do campo, de ser agricultor, de ter um pai meeiro”, disse Pérez em uma entrevista em março. Para ter sucesso na escola, ele disse: “Acabei me embranquecendo, me colonizando, rejeitando nossa identidade”.

Pérez acabou estudando em uma universidade local, praticando a advocacia e se envolvendo na política por meio de associações locais que defendem os direitos da água comunal. Ele chegou a ser governador da região de Azuay, no Equador, a quinta mais populosa do país, antes de desistir para se candidatar à presidência.

Sua história repercutiu em outros povos indígenas, muitos dos quais veem os esforços políticos de hoje no contexto dos cinco séculos desde a conquista colonial do Equador.

“Não estamos fazendo campanha por uma pessoa”, disse uma líder indígena, Luz Namicela Contento, “mas por um projeto político”.

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