Após escândalo de grampos, magnata da mídia fecha tabloide britânico

Edição de domingo será a última do News of The World, uma das publicações mais vendidas da Grã-Bretanha, que está envolvida em escutas ilegais de políticos, celebridades e parentes de soldados mortos; ex-editor do jornal deve ser preso hoje

, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2011 | 00h00

LONDRES

O grupo News Corporation (News Corp.), que detém vários jornais, revistas e editoras no mundo inteiro, anunciou ontem que a edição de domingo será a última do tabloide News of the World, um dos mais vendidos da Grã-Bretanha. A notícia foi dada por James Murdoch, filho do magnata Rupert Murdoch, que controla o conglomerado.

A indignação popular provocada pelo escândalo das escutas telefônicas ilegais realizadas pelo tabloide e a pressão de políticos do governo e da oposição causaram uma fuga de anunciantes e foram responsáveis pela decisão de encerrar a publicação.

"As coisas boas que o News of the World faz ficaram manchadas por esse comportamento equivocado. Realmente, se as recentes alegações são verdadeiras, é desumano e não há lugar na nossa empresa", disse James Murdoch em comunicado.

Andy Coulson, ex-editor do tabloide, pode ser preso hoje, segundo disseram fontes policiais ao The Guardian. Ele era diretor do News of the World em 2006, quando a Justiça ordenou a prisão do repórter Clive Goodman e do investigador Glen Mulcaire, contratado pelo jornal para espionar os famosos - ambos se declararam culpados.

Coulson tornou-se secretário de imprensa do primeiro-ministro David Cameron. Em janeiro, ele foi obrigado a renunciar após ficar claro seu envolvimento no escândalo.

Nos últimos anos, o News of the World tem vivido sob a mancha de escândalos de escutas ilegais, desde personalidades da política aos membros da família real, passando por celebridades. Entre os grampeados estariam o príncipe William, a atriz Gwyneth Paltrow, a modelo Elle Macpherson, o cantor George Michael, o prefeito de Londres, Boris Johnson, e a apresentadora Nigella Lawson.

Desconfiado de que estava sendo bisbilhotado, o ator Hugh Grant chegou a gravar uma conversa com o ex-editor do News of The World, Paul McMullan. O jornalista teria dito ao ator que Coulson, ex-editor do tabloide, encomendava as escutas para obter informações sobre as celebridades e evitar processos judiciais.

O caso voltou à tona esta semana, após denúncias de que Mulcaire grampeou também o celular de Milly Dowler, de 13 anos, sequestrada em 2002 quando caminhava da escola para casa em Surrey, sul de Londres. O corpo da jovem foi encontrado numa floresta, seis meses mais tarde.

Enquanto a polícia procurava pistas e os pais dela faziam dramáticos apelos públicos por informações, Mulcaire invadiu a caixa postal do celular da garota, ouviu suas mensagens e até apagou algumas para deixar espaço para novas - o que causou estranheza e levou a polícia e os pais a acreditar que a menina ainda pudesse estar viva.

"É assustador que alguém possa ter feito isso, sabendo que a polícia estava tentando encontrar essa pessoa e tentando descobrir o que havia ocorrido", disse Cameron.

Suborno de policiais. Na segunda-feira, o escândalo ganhou tons ainda mais obscuros quando o jornal The Guardian publicou que entre os grampeados estavam também vítimas de estupro, de parentes de pessoas que morreram nos ataques terroristas em Londres, em 2005, e de soldados britânicos mortos nos conflitos no Iraque e no Afeganistão.

O tabloide também é acusado de realizar pagamentos a agentes da Polícia Metropolitana de Londres - todos autorizados pelo ex-diretor do News of the World, Andy Coulson. De acordo com o jornal The Evening Standard, os policiais teriam recebido cerca de US$ 160 mil em propinas. A polícia de Londres prometeu apurar as denúncias e afirmou ontem que o News Corp., grupo de Murdoch, decidiu cooperar com as investigações e já entregou documentos que contêm detalhes sobre escutas ilegais de cerca de mil pessoas. / REUTERS, AP, NYT e AFP

PARA ENTENDER

Publicação tem 168 anos

O News of the World é a versão dominical do tabloide The Sun. Fundado em 1843, é um dos mais vendidos da Grã-Bretanha, com 2,8 milhões de exemplares por semana.

O tabloide foi comprado pelo grupo de Rupert Murdoch em 1969 e passou a ser conhecido por manchetes exageradas, dedicadas à cobertura de fofocas e escândalos de celebridades. Não está claro o impacto que o fechamento da publicação terá no mercado editorial britânico. O News Coorp. não disse se tem planos de lançar um novo tabloide. Há rumores de que o Sun passe a ser publicado também aos domingos - alguns dizem que uma reestruturação da empresa estava sendo organizada independentemente do escândalo.

PERFIL

Rupert Murdoch, dono da News Corporation

Um empresário conservador na política e agressivo nos negócios

Dono de vários jornais, redes de TV, produtoras de cinema e sites de internet nos EUA, Austrália e Grã-Bretanha, o controlador da News Corporation, Rupert Murdoch, de 80 anos, é um dos principais magnatas da indústria da comunicação. Conhecido pelo conservadorismo político - é notório entusiasta do Partido Republicano - e pela agressividade nos negócios, começou seu império na década de 50 ao adquirir uma cadeia de jornais e revistas na Austrália. De lá, expandiu os negócios para a Grã-Bretanha e para os EUA. É dono, entre outros veículos, da rede de TV Fox, dos jornais New York Post, Wall Street Journal, The Times e The Sun.

PONTOS-CHAVE

O império de Rupert Murdoch

Impresso

O News Corp. detém publicações no mundo inteiro, de Fiji e Rússia aos EUA - entre elas, o Wall Street Journal, o Sunday Times e a agência Dow Jones

TV e entretenimento

O grupo é dono do estúdio 20th Century Fox, da Fox, da SKY (italiana, parte da alemã e da britânica) e tem participação no site de relacionamento MySpace

Outros negócios

Murdoch detém metade da National Rugby League (Austrália e Nova Zelândia) e é acionista majoritário do Brisbane Broncos (time de rúgbi)

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