Herman Wouters/The New York Times
Herman Wouters/The New York Times

Após escondê-la por 20 anos na Holanda, refugiado realiza sonho de devolver relíquia à Etiópia

Um funcionário holandês diz que escondeu o precioso artefato em sua casa por mais de 20 anos. Agora, ele espera poder devolvê-lo à Etiópia

Nina Siegal / The New York Times, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2019 | 07h00

AMSTERDÃ - Em 1998, Sirak Asfaw, um funcionário holandês nascido na Etiópia, notou algo brilhante na mala de uma pessoa que estava hospedada em sua casa. Curioso, ele abriu a caixa e encontrou uma coroa dourada brilhante.

"Eu não podia acreditar nos meus olhos", disse Sirak, que se mudou para a Holanda como refugiado político na década de 70, em recente entrevista em Amsterdã. “Eu me senti traído. Usando minha casa para contrabandear o patrimônio cultural da Etiópia? Eu sabia que tinha algo a ver com a história etíope, o reino etíope. Eu sabia que isso não era bom."

Sirak disse que achava que não poderia devolver a coroa às autoridades etíopes, porque suspeitava que o governo poderia ter sido cúmplice do roubo e temia que fosse roubada novamente.

Ele também não queria entregá-la às autoridades holandesas, porque temia que um museu guardasse a coroa para sempre, em vez de devolvê-la quando um novo governo etíope estivesse em vigor.

Então, Sirak trancou o visitante em sua casa e confiscou a coroa da mala. Ele não identificou o contrabandista ao New York Times por medo de sua segurança e disse que não sabia como seu hóspede a havia adquirido.

Por 21 anos, ele escondeu a coroa em sua casa. "Quando eu a vejo, sempre me sinto muito emocionado", disse ele. "Eu sabia que não deveria estar aqui, nem na minha casa, nem na Holanda."

No ano passado, depois que a Etiópia instalou um novo primeiro-ministro, Abiy Ahmed, Sirak decidiu que era hora de tentar devolver a coroa, confiante de que o novo governo lidaria com o retorno adequadamente, disse ele.

Ele entrou em contato com um investigador holandês independente de roubos de arte, Arthur Brand, que colocou a coroa em uma instituição de alta segurança na Holanda e alertou à polícia holandesa.

Toon van Wijk, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores holandês, disse ao Times que as autoridades estavam investigando. "A autenticidade deve ser determinada em cooperação com as autoridades etíopes", disse ele. "Depois que a investigação for concluída, devemos examinar as próximas etapas."

O embaixador da Etiópia na Holanda, Abay Weldu Hagos, disse em entrevista por telefone que estavam em andamento discussões com o Ministério do Turismo e Cultura da Etiópia para devolver o trabalho à igreja da qual a coroa foi roubada ou a um museu na Etiópia. "Cabe às partes interessadas da Etiópia decidir para onde deve ir", disse ele.

Jacopo Gnisci, pesquisador associado da Universidade de Oxford, especializado em artefatos etíopes, examinou a coroa em Amsterdã há algumas semanas e disse que achava que era autêntica.

Ele acredita que provavelmente era uma coroa litúrgica usada nas cerimônias cristãs ortodoxas. Gnisci também localizou uma fotografia em que um padre usava a coroa em 1993, alguns anos antes de desaparecer.

A coroa provavelmente foi roubada nos anos 90 de uma igreja na Vila de Cheleqot, a 125 quilômetros da fronteira com a Eritreia, disse Gnisci.

O pesquisador disse que era um objeto raro, 1 das únicas 20 coroas litúrgicas existentes.

"Se eu tivesse de colocar um preço, eu diria de € 40 mil a € 50 mil", disse Gnisci em uma entrevista por telefone. Esse valor, disse, "está no limite mais alto possível do mercado para artefatos etíopes, abaixo apenas do preço que se pagaria por um manuscrito iluminado".

O objeto surgiu em um momento de crescente debate internacional sobre o retorno da arte e artefatos africanos aos seus locais de origem.

O presidente da França, Emmanuel Macron, prometeu em 2017 que priorizaria a “restituição temporária ou permanente” de artefatos africanos a seus países de origem nos próximos cinco anos. Um relatório, encomendado por Macron e lançado em 2018, recomendou o retorno de alguns objetos dos museus franceses.

Mas "não aconteceu muito mais" desde então, disse Barbara Plankensteiner, ex-curadora de arte africana na Galeria de Arte da Universidade de Yale.

No entanto, acrescentou, "todo o ambiente na opinião pública e entre os tomadores de decisão política está muito mais aberto à restituição agora do que há cinco anos".

Autoridades etíopes estão trabalhando com o Victoria and Albert Museum em Londres para buscar o retorno de objetos etíopes do século 19, incluindo uma coroa, um cálice, um vestido de noiva e jóias, que foram saqueados pelas tropas britânicas. Este ano, o diretor do museu, Tristram Hunt, disse que está discutindo um plano para emprestar as obras a Adis Abeba para uma exposição temporária.

Em abril, o Museu Nacional do Exército de Londres devolveu duas mechas de cabelo da cabeça de um imperador etíope do século 19, que fazia parte de sua coleção, após um pedido do país.

Gnisci disse que achava que a coroa etíope encontrada por Sirak seria um teste para a Etiópia sobre sua capacidade de cuidar de tais objetos.

"Existem vários sítios eclesiásticos medievais e tesouros eclesiásticos realmente importantes que estão todos os dias em risco de destruição por negligência e falta de medidas de conservação", disse Gnisci. "Há muito mais trabalho a ser feito no país, por isso espero que isso incentive o governo a trabalhar mais de perto e com mais cuidado em sua herança."

Sirak disse que gostaria que a coroa fosse entregue ao Museu Nacional da Etiópia, em Adis Abeba.

"Esse é o lugar mais seguro, mas acredito que o governo da Etiópia cuidará disso", disse ele. "Agora está em boas mãos e estou um pouco aliviado." / NYT

 

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