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Após ‘esfriamento’ chinês, Pyongyang busca ajuda russa

Aproximação entre China e Coreia do Sul rendeu abalos à relação com os norte-coreanos

Felipe Corazza, enviado especial a Seul, O Estado de S. Paulo

24 de dezembro de 2014 | 17h04

SEUL - O apoio chinês à aliada Coreia do Norte sofreu abalos significativos desde o início do governo de Xi Jinping em Pequim, há dois anos. O novo líder da China abriu conversas mais diretas com a Coreia do Sul e Xi falou explicitamente, pouco após encontro com a presidente sul-coreana Park Geun-hye, em esforços para uma reunificação da Península. 

A China também impôs restrições às transferências de dinheiro feitas via Pequim para o isolado sistema bancário norte-coreano - a medida obriga, na prática, visitantes e diplomatas a levarem apenas dinheiro vivo para a Coreia do Norte. 

O resfriamento aparente das relações com os chineses levou Kim Jong-un a mirar uma nova frente de apoio externo: a Rússia. Em novembro, um enviado de Kim encontrou-se com o presidente russo, Vladimir Putin. O representante norte-coreano ouviu, ao final do encontro, o líder do Kremlin dizer que tinha toda a intenção de impulsionar a relação entre os dois países. 


O incremento nas relações anunciado por Putin, porém, veio antes da espiral de desvalorização do rublo que ocorreu nas últimas semanas - decorrente, essencialmente, da queda nos preços internacionais do petróleo e das sanções impostas à Rússia pela anexação da Crimeia e a acusação de envolvimento na crise do leste da Ucrânia.

Apesar da recente crise e da provável recessão em que o país entrará, a Rússia parece disposta a manter seus planos em relação a Pyongyang. No dia 19, o Kremlin confirmou que Putin convidou o próprio Kim Jong-un para uma visita oficial a Moscou - ainda sem data para ocorrer. 

Um primeiro resultado econômico da nova aproximação também foi anunciado na terça-feira. Pyongyang comemorou a chegada de 50 mil toneladas de alimentos vindas da Rússia “sem custo”.

Os russos tentaram bloquear no Conselho de Segurança da ONU um debate sobre o relatório apresentado por uma comissão da organização sobre a situação de direitos humanos na Coreia do Norte. O texto acusa abertamente Kim Jong-un de crimes contra a humanidade - entre eles, manter campos de prisioneiros com trabalhos forçados para sufocar qualquer dissidência. Como resposta ao lançamento do documento, em novembro, Pyongyang ameaçou realizar seu quarto teste de armas nucleares. Pequim pediu imediatamente que Kim desistisse desse plano, mas a resposta, se houve, foi nos bastidores e permanece desconhecida.

O Ministério das Relações Exteriores sul-coreano afirmou que pode pedir novas sanções no âmbito da ONU e endurecer as restrições à navegação de embarcações norte-coreanas na região como retaliação a um possível teste nuclear. Além disso, as autoridades de Seul podem voltar a usar o sistema financeiro dos Estados Unidos para punir bancos ao redor do mundo que movimentem dinheiro de pessoas sob suspeita de ligação com o regime de Pyongyang.

O diretor do Departamento para a Paz na Península Coreana do ministério, Kwon Yong-woo, afirmou a jornalistas na sede do ministério, que Seul se “decepcionou” com os sinais controversos enviados por Pyongyang ao longo do ano. 

Falando ao ‘Estado’, Kwon minimizou a tentativa de incremento na relação dos norte-coreanos com os russos. De acordo com ele, foi apenas mais uma tentativa que terá poucos frutos concretos para Kim Jong-un. “A Coreia do Norte não fez esforços reais para reformar sua economia, que está em ruínas, e a Rússia sempre deixou claro que quer a desnuclearização da Península.”

* O repórter viajou a convite do governo sul-coreano

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