Mark Mitchell / POOL / AFP
Mark Mitchell / POOL / AFP

Após 'exterminar' o coronavírus, Nova Zelândia abranda confinamento

País de 4,8 milhões de habitantes na Oceania adotou estratégia agressiva contra a pandemia muito mais cedo que outras nações e agora flexibiliza quarentena

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2020 | 09h00

Salário da primeira-ministra, dos ministros e dos principais funcionários públicos cortados em 20% por seis meses. Comércio, escolas, serviços e fronteiras fechados. Viagens limitadas, circulação de pessoas restrita somente ao essencial e multas para quem descumprir. E medidas econômicas para apoiar quem mais precisa. Essa foi a receita que permitiu com que a Nova Zelândia praticamente eliminasse o coronavírus de suas terras e seja capaz reabrir lentamente as atividades econômicas nesta terça-feira, 27. 

Nesta semana, restaurantes, canteiros de obras, escolas e varejistas começam a abrir cinco semanas depois de uma dura restrição de circulação de pessoas. O país desenvolveu um sistema de alertas que varia de 1 a 4 conforme a gravidade da pandemia. Agora, passa a valer o nível de 3. Há menos de 300 casos no país e foi identificado apenas um novo nesta segunda. 

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Estamos abrindo nossa economia, mas não estamos abrindo a vida social das pessoas. Para ter sucesso, precisamos caçar os últimos casos do vírus. É como procurar uma agulha no palheiro
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Jacinda Andern, Primeira-ministra da Nova Zelândia

O mantra da estratégia do governo era, desde o início, agir rápido para eliminar o vírus - identificar, testar e tratar. Ainda era fevereiro quando o país adotou as primeiras restrições. E, com menos de 300 casos, decretou um bloqueio total - muito mais cedo que a maioria dos países. Decisão difícil, já que a nação de 4,8 milhões de habitantes recebe 3,8 milhões de visitantes por ano e tem no turismo e no comércio rendas importantes. 

"A decisão de fechar nossas fronteiras não foi fácil e trouxe impactos econômicos significativos", reconheceu o embaixador da Nova Zelândia no Brasil, Chris Langley. "Mas o governo deu prioridade aos aspectos de saúde pública, acreditando que a recuperação econômica virá mais rapidamente com uma população saudável quando tivermos o vírus sob controle". 

"Fiquei satisfeita quando foi anunciado que estávamos entrando em lockdown", relembra a advogada Harriet Willis, moradora de Wellington. "Naquela época, havia dados mostrando que a Nova Zelândia estava na mesma curva que a Itália, embora nosso número de casos fosse baixo".  

 A maior parte dos contaminados estava fora do país em viagem. Todas as pessoas que entram no país precisam aderir a uma quarentena imposta pelo governo, não apenas um isolamento autoimposto.   

Vantagens naturais e políticas da Nova Zelândia 

Mas outras características neozelandesas explicam o controle da disseminação do vírus. Uma é a vantagem natural, já que é uma nação insular e o controle de quem entra e sai do país é mais fácil. A outra é política: não há Estados separados no país e nem províncias. "Não há dinâmica federal x estadual em jogo", explica o embaixador. A comunicação clara e direta com a população, especialmente pela primeira-ministra Jacinda Ardern, também é citada como explicação do sucesso do país no combate ao vírus. 

"Muito pouco é feito a portas fechadas. As pessoas são convidadas para reuniões virtuais entre os principais epidemiologistas da Nova Zelândia e o governo", explica Annemarie Jutel, professora da Escola de Enfermagem da Universidade de Victoria em Wellington. "O modelo de comunicação oferecido, inequívoco e transparente, reconhece nossos sacrifícios e nos lembra de sermos gentis e de cuidar dos mais vulneráveis. Ninguém se desviou disso no espaço público", afirmou Jutel. 

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Oposição apoia

Até mesmo a oposição está apoiando as medidas e integra um comitê para lidar com a pandemia. "Precisamos nos unir durante esse período difícil, apoiar uns aos outros e mostrar compaixão", escreveu em artigo recente Simon Bridges, líder do principal partido de oposição no país. "Queremos ser construtivos".   

Segundo a professora Jutel, os governantes têm demonstrado importante respeito pela epidemiologia e pela saúde pública, deixando claro que as decisões têm base científica. O corte de salários anunciado pela primeira-ministra não terá muito impacto no orçamento público, mas foi bem visto e fez com que outras autoridades seguissem o exemplo. 

Pesou, ainda, o senso de responsabilidade comum. "Ficou claro que são os mais frágeis e vulneráveis que morrerão e é provável que nosso povo não aceite a ideia de que nossa liberdade possa ser construída com a morte e o sofrimento de nossos cidadãos vulneráveis", disse a pesquisadora.

Brasileira relata situação

A brasileira Jéssica Philippsen, de 31 anos, mora na Nova Zelândia há seis anos e conta que as mudanças foram rápidas, passando do nível 3 de alerta para o 4 em 72 horas. Aí, foi proibido até dirigir - a não ser que seja para o hospital ou para comprar alimentos e remédios. Nos estabelecimentos, é preciso respeitar a distância segura e há limite de quantos clientes podem entrar. Exercícios físicos fora de casa só podem ser feitos no bairro em que a pessoa mora e sem companhia. 

"Não podemos sair do raio de 5 quilômetros de casa. Fomos proibidos de ir para praia, parques, academias e locais públicos", explica. "Algumas pessoas estão fazendo home office e recebendo normalmente o seu salário ou 80% dele. Estrangeiros que têm visto de trabalho e pagam as taxas em dia recebem o auxílio do governo de 494 dólares neozelandeses (cerca de R$ 1632)". 

Na próxima semana, o alerta deve descer para o nível 3. O prazo estimado é de duas semanas. Aglomerações em locais com mais de 10 pessoas estarão proibidas, mas os serviços de entrega de comida voltarão, assim como o trabalho na construção civil e salas de aula com menos alunos. Ela conta que, desde o começo, a população neozelandesa aceitou bem o lockdown e quem tentou levar uma vida normal corria o risco de ser multado e até preso. 

"Agora estamos todos torcendo para que tudo ocorra bem no nível 3, possamos ir para o 2 e tentarmos levar uma vida mais próxima possível da que tínhamos antes da pandemia".

Três perguntas para... Chris Langley, embaixador da Nova Zelândia no Brasil 

A Nova Zelândia tem um dos mais rígidos bloqueios do mundo para enfrentar a pandemia. Como foi a decisão de que essa é a melhor estratégia para combater a pandemia?  

A covid-19 é uma situação tão nova e extrema que todos os países estão se esforçando para saber com certeza qual é a resposta certa. No caso da Nova Zelândia, o governo seguiu o mantra de "Siga em frente e aja rápido", uma maneira informal de expressar a abordagem política de adotar as medidas mais restritivas o mais rápido possível. 

A Nova Zelândia adotou suas primeiras restrições de viagem no início de fevereiro, que transformou-se em bloqueio total quando havia apenas cerca de 280 casos no país. Essas medidas extremas começaram a mostrar alguns resultados, com a disseminação do vírus não evoluindo tão rápido na Nova Zelândia. Isso indicou ao governo que estava no caminho certo e também incentivou o povo a seguir as rígidas regras de bloqueio. 

Que condições existentes no país fazem com que a nação esteja obtendo sucesso no combate ao vírus?

 A Nova Zelândia é uma nação insular, por isso tem uma vantagem natural na proteção de suas fronteiras. Também somos um país pequeno sem estados separados, portanto não há dinâmica federal x estadual em jogo. No entanto, a Nova Zelândia também é um país muito aberto, que depende muito do comércio e do turismo.

A decisão de fechar nossas fronteiras não foi fácil e trouxe impactos econômicos significativos. Mas o governo deu prioridade aos aspectos de saúde pública acreditando que a recuperação econômica virá mais rapidamente com uma população saudável quando tivermos o vírus sob controle.

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A chave para o nosso sucesso até agora no combate ao vírus tem sido uma ação decisiva do governo com políticas baseadas na ciência e comunicação clara do governo com o povo para que todos entendam o que é exigido deles neste processo.  
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A Nova Zelândia cortou em 20% os salários de ministros e executivos dos serviços públicos nos próximos seis meses. De que forma essa medida foi vista pela população local? 

Essa medida foi vista como positiva pela maioria dos neo-zelandeses. A primeira-ministra reconheceu que os cortes nos salários não melhorarão muito a condição orçamentária do governo, mas eles foram concebidos como um gesto de liderança em um momento em que muitos trabalhadores do setor privado também tiveram sua renda reduzida. Após o anúncio, muitas outras autoridades não afetadas por sua decisão (por exemplo, prefeitos e vereadores) também se ofereceram para sofrer um corte salarial.

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